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'All Her Fault' faz crítica social em meio a thriller altamente emocionante

Enoe Lopes Pontes
Colunista On: Enoe Lopes PontesPesquisadora, jornalista e crítica de cinema e séries
All Her FaultDivulgação

Atualmente, a maioria das séries dos streamings são nutridas por uma quantidade massiva de plot twists. As famosas reviravoltas também estão presentes em "All her Fault". Mas, diferentemente de outros seriados, aqui essa característica não é um impacto vazio, porque junto com ela, camadas da trama são inseridas.

Há um trato meticuloso do roteiro, no qual não há esquecimentos sobre as personalidades das personagens ou detalhes do enredo. Tudo está conectado e essas características das figuras dramáticas fomentam o tensionamento dentro da história. Com uma obra tão repleta de subplots e surpresas, o cansaço poderia aparecer, porém é esse olhar para as individualidades que fortalece a história.

Além disso, devido ao fato dos acontecimentos estarem todos ligados ao grande segredo da série, as descobertas surpreendentes são necessárias e puxam ocorrência por ocorrência, de maneira que cada novidade soa como uma chave para uma porta que contém um mistério sendo desvendado e outro sendo encontrado – como uma matrioska. 

Em All Her Fault, a conclusão sobre o rapto de Milo em si é o menor dos conflitos da trama

As quebras de expectativas em relação à jornada do herói (no sentido grego clássico), funcionam, porque Marissa (Sarah Snook) passa por uma transformação intensa, mesmo sem ter o controle total das ações. Como ela é a personagem que menos sabe o que aconteceu no passado para que seu filho, Milo (Duke McCloud), tenha desaparecido, a falta de conhecimento dela poderia retirar seu protagonismo e o foco da história central. 

Todavia, como as características de Marissa são estabelecidas desde os primeiros minutos de exibição e mantidos durante a temporada, o seu direcionamento não se esvai. Além disso, ela mantém as rédeas sobre seu destino, fazendo com que Mars seja, de fato, a protagonista.

Essa impressão que Marissa passa vem sobretudo da força do trabalho de Sarah Snook. Isso se dá, principalmente, por uma mescla de vulnerabilidade, resiliência e inteligência que a atriz consegue trazer meticulosamente em suas expressões faciais. É brilhante como Snook retém o seu corpo e impõe esse peso da maternidade para a cena, ao mesmo tempo, que toda as emoções são expressas no seu rosto.

Essa mistura de retenção com explosão engrandece a sua interpretação e convida os espectadores a mergulharem nas emoções desta mãe desesperada, porém atenta e sagaz. Na verdade, a forma como as mulheres são apresentadas nesta narrativa é profunda e perspicaz. Os conflitos de raça, classe e gênero são pautados, em meio ao clima de tensão que uma série de thriller precisa ter.

All Her Fault

Gradativamente, quem assiste se depara com a grande questão da obra: os engendramentos do patriarcado branco heterossexual. A forma como o seriado imprime esse emaranhado, criado por essa instituição controladora e sufocante, é um dos maiores ganhos aqui. O enlace do conflito central vai se desfazendo à medida que as reflexões sociais são convocadas.

O uso das temperaturas marrons e azuis podem se configurar também como um exemplo para como a transmissão do recado se dá de forma visual e discursiva verbal. Há uma melancolia e uma procura por um terreno firme,  a fim de se construir algo sólido para o futuro. 

O terroso com o ciano “brigam” na imagem, nessa “disputa” de razão e emoção que está o tempo inteiro em tensiosamento no enredo. Olhar para quem são os companheiros dessas mulheres e como os mesmos podem impor conflitos por seus egoísmos e descontroles é uma chave preciosa de All her fault.

Essa questão é inserida e fomentada ainda mais com a presença do policial Alcaras (Miachael Peña). Pai exemplar, ele foge dos padrões masculinos tóxicos e representa o ponto de contraste, que não deixa a série plana. A culpa (dita no título ser “dela”, de forma proposital) não está em um único homem, mas em todo um sistema que fornece escapatórias e privilégios para indivíduos. 

Quanto mais privilegiados, mais eles são presenteados com vontades totalmente atendidas. Não existe frustração para esse tipo de gente e esse tipo de gente é representada, em seu suprassumo, pelo marido de Marissa, Peter Irvine. A interpretação limitada de Jake Lacy ajuda ainda mais a expor essa figura masculina opressora e frágil, que entra em pânico a qualquer sinal de fracasso. 

Dentro deste universo, de múltiplos sentimentos, a direção assume com coragem a missão de transformar todas essas informações em imagens. Em All her fault há um uso controlado dos movimentos e as câmeras na mão e panorâmicas são acionadas para ajudar a ambientar e impactar o público. 

A interpretação limitada de Jake Lacy ajuda ainda mais a expor essa figura masculina opressora e frágil, que entra em pânico a qualquer sinal de fracasso

Chicago parece imensa, em seus planos gerais, com pans verticais. O uso de gruas serve ainda mais para causar a impressão de agulha no palheiro, em relação ao sequestro de Milo. Contudo, os quadros fechados e longos também estão ali. É nessa dicotomia de velocidades e enquadramentos que a complexidade da obra se faz. 

E é necessário ter paciência porque, por mais que o desfecho pareça óbvio no início, ele está bem longe de ser previsível. Além disso, a conclusão sobre o rapto de Milo em si é o menor dos conflitos da trama. Essa elaboração de camadas narrativas torna, assim, a produção quase genial.

Alguns integrantes menos expressivos do elenco e (poucas) passagens expositivas – principalmente nas brigas da família Irvine – diminuem a qualidade do resultado geral do seriado. Ainda assim, essa é uma minissérie que vale a pena acompanhar, quiçá maratonar. Ela vale por sua destreza em expor as fragilidades e egos masculinos, em um mundo cheio de azul masculino, conservador, e privilégio branco estadunidense. 

Confira o trailer dublado de All Her Fault:

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Enoe Lopes Pontes

Enoe Lopes Pontes

Doutora e mestre em Comunicação, formada em Artes Cênicas e em Comunicação Social, Enoe Lopes Pontes é pesquisadora, jornalista e crítica de cinema e séries. É membro da ABRACCINE e do Coletivo Elviras. Cinéfila desde os 6 anos, sempre procurou estar atenta a todo tipo de produção, independentemente do gênero, classificação ou fama. Do culto ao pipoca, busca observar as projeções com cuidado e sensibilidade. Filmes preferidos: Hiroshima Mon Amour e Possession.

Enoe integra a equipe do Coisas de Cinéfilo , como crítica.

Instagram: @enoelp

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