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Por que todo dia não pode ser dia de Carnaval

Salim Khouri
Colunista On: Salim KhouriEspecialista em transformações organizacionais e individuais
Por que todo dia não pode ser dia de Carnaval

Encerramos mais um Carnaval. A cidade ainda carrega o eco dos trios, dos blocos, dos encontros inesperados que viram memórias intensas em poucas horas. “O Baiano Tem o Molho”, reafirmando o sucesso de O Kannalha, vencedor do troféu Aratu Folia 2026. “Vampirinha”, da nossa estrela Ivete Sangalo, tocando alto com seu refrão contagiante. “Desliza (Ólhinho no Corpinho)”, de Léo Santana, espalhando coreografias improvisadas pelas ruas. Sem falar de “Jetski”, de Pedro Sampaio, fazendo todo mundo cantar junto, e “Gostosin”, de Anitta, virando trilha sonora de vídeos e risadas.

Durante alguns dias, a gente dança, canta alto, abraça desconhecidos e se permite exagerar. A gente se veste como quer, se expressa como sente, vive o presente com intensidade. No Carnaval, ninguém pede licença para existir, e então chega a quarta-feira. A fantasia volta para o armário, a maquiagem sai, a roupa colorida dá lugar ao tom neutro. A energia diminui alguns decibéis. O corpo ainda está cansado, mas a postura já está mais rígida. Voltamos ao trabalho mais contidos, mais sérios, mais travados e, quase sem perceber, guardamos numa gaveta a leveza que vivemos durante toda a folia. Mas e se o problema não for o trabalho? E se for o jeito que aprendemos a viver o trabalho?

O Carnaval tem três forças.

1. Energia coletiva: ninguém curte Carnaval sozinho. Existe pertencimento, existe comunidade, existe a sensação de que fazemos parte de algo maior do que nós mesmos.

2. Expressão: no bloco, você pode ser quem quiser, com menos julgamento e menos medo.

3. Presença: durante aqueles dias, quase ninguém está pensando na planilha de sexta-feira ou na reunião da próxima semana. Estamos ali, inteiros, no agora.

E a pergunta inevitável surge: por que essas três dimensões não podem existir também no ambiente profissional? Não estou falando de confete na reunião ou trio elétrico no escritório. Estou falando de times com mais alegria genuína, mais colaboração real, mais espaço para que as pessoas sejam quem são. Talvez o grande desafio não seja trazer o Carnaval para o trabalho, mas parar de deixar nossa energia e alegria restritas a sete dias do ano.

É aqui que a conversa se aprofunda. Durante muito tempo, aprendemos a repetir: como ser feliz no trabalho? Ela soa moderna, positiva, bem-intencionada. Mas talvez comece no lugar errado. Antes de buscar fórmulas rápidas, vale refletir com honestidade: que papel o trabalho ocupa na nossa vida? Será que ele foi feito para carregar todo esse peso de realização, identidade e preenchimento?

Pouca gente sabe, mas a palavra trabalho vem de tripalium, um instrumento de tortura da Roma Antiga. Na origem, trabalhar não tinha nada a ver com propósito ou plenitude. Era esforço, era dor, era sobrevivência. Com a Revolução Industrial, o trabalho ganhou estrutura, jornada, salário, direitos. Foi um avanço gigantesco. Em muitos lugares, passou a ser meio de vida e não a vida inteira. Em contextos como o nosso, ele foi além. Virou identidade, virou status, virou dignidade social. Para muita gente, especialmente quem veio de pouco, quem sempre precisou lutar para ocupar espaço, o trabalho nunca foi escolha, foi necessidade. E, quando algo nasce como necessidade, tende a ocupar todos os espaços da existência.

É aí que a confusão começa. Passamos a exigir do trabalho o que ele não consegue entregar sozinho: sentido absoluto de vida, autoestima permanente, pertencimento incondicional, validação emocional. E, quando ele falha, porque uma demissão acontece, uma crise surge ou um chefe muda, o chão parece desaparecer junto. Talvez a questão não seja encontrar felicidade no trabalho. Talvez seja não depender emocionalmente dele para existir.

Um pouco sobre o Brasil

Falar de felicidade no Brasil é sempre delicado porque ela nunca foi uma experiência distribuída de forma justa. Em um país marcado por desigualdade, insegurança, trabalho informal e sobrevivência diária, a ideia de “ser feliz” muitas vezes soa distante, quase ofensiva, para quem está ocupado tentando pagar as contas, proteger a família e seguir em pé. Aqui, felicidade não pode ser tratada como estado permanente, nem como obrigação individual, muito menos como slogan motivacional. Para muita gente, ela aparece em brechas pequenas, em momentos, em alívios, em vínculos, em pausas possíveis. Por isso, quando falamos de felicidade no contexto do trabalho, é preciso cuidado para não transformar um direito em cobrança, nem um desejo legítimo em mais uma fonte de culpa. No Brasil, talvez felicidade seja menos sobre euforia constante e mais sobre dignidade, segurança e a chance real de viver sem medo o tempo todo.

Se quisermos construir uma relação mais saudável e/ou feliz (como quiser chamar) com o trabalho, algumas reflexões práticas ajudam.

1. Entenda o que o trabalho representa na sua vida
   Essa não é uma pergunta filosófica demais. É profundamente prática. O trabalho, para você, é sobrevivência? Reconhecimento? Pertencimento? Fuga? Validação? Um exercício simples ajuda: volte à sua história. Como seus pais falavam de trabalho? Como o dinheiro apareceu ou faltou na sua vida? Muita gente carrega no trabalho uma missão que nunca foi dele resolver.

2. Diversifique suas fontes de realização
   Quando tudo o que você é depende de um crachá, qualquer instabilidade vira ameaça existencial. Ter outras fontes de alegria, relações, interesses, afetos, aprendizado não enfraquece o trabalho, e sim fortalece você. O trabalho pode ser importante, só não pode ser tudo.

3. Tenha economias ou um plano B possível
   Liberdade emocional passa, gostemos ou não, por alguma liberdade financeira. Não é sobre enriquecer. É sobre poder respirar. Uma reserva, mesmo pequena, muda a forma como você se posiciona, escolhe, negocia e sofre menos.

4. Cultive um hobby que não vire produtividade
   Ler, escrever, cozinhar, rezar, correr, ver um filme ruim sem culpa. Algo que não vire renda extra. Algo que não precise gerar resultado. O prazer gratuito lembra quem você é fora da lógica da entrega.

5. Repita o mantra: “é só um trabalho”
   Sem ironia, desprezo e com um pouco de esoterismo. É só um trabalho porque ele sustenta a vida, mas não pode substituir a vida. Quando isso fica claro, algo muda. Você trabalha melhor, escolhe melhor, se preserva mais.

Talvez a tal felicidade no trabalho não esteja em amar cada segunda-feira. Talvez esteja em não precisar se abandonar para continuar trabalhando. Talvez o trabalho funcione melhor quando volta a ser parte da vida, e não o centro absoluto dela. Depois do Carnaval, quando a música diminui e o ritmo desacelera, a pergunta que fica não é como manter a festa o ano inteiro, mas como não guardar sua vitalidade numa gaveta. Como continuar dançando, mesmo que a música seja outra. Como não se perder de si enquanto trabalha.

Esse já é um bom começo. Que todo dia seja carnaval por aí.

*Este material não reflete, necessariamente, a opinião do Aratu On

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Salim Khouri

Salim Khouri

Salim Khouri é executivo, empresário, palestrante, professor, mentor e coach. Administrador, comunicólogo, especialista em Recursos Humanos e mestre em Administração pelo Insper, construiu uma carreira marcada pela capacidade de unir estratégia, sensibilidade e impacto humano. 

Com mais de 25 anos de experiência em desenvolvimento de pessoas e cultura organizacional, atua hoje como Diretor de Talentos & Cultura Brasil e Head Global de Diversidade, Equidade e Inclusão na Syngenta. Antes disso, liderou grandes movimentos de transformação em empresas como Vale, Ford e Odebrecht, sempre guiado pela crença de que não existe transformação organizacional sem transformação humana.

Reconhecido três vezes como um dos executivos de RH mais admirados do Brasil e um dos maiores influenciadores de Diversidade do país, Salim leva para o palco o mesmo espírito que o move nas organizações: provocar consciência, inspirar coragem e despertar o prazer de viver e trabalhar com propósito.

Instagram: @salimgkn / @atopsicologia

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