Mais divertido e maduro, O Diabo Veste Prada 2 entrega resultado surpreendente
Ah, o bom e velho jornalismo… Ele está morrendo, respirando por aparelhos. Todos os dias, o querido é drenado pela falta de formação dos profissionais, pelas big techs, por empresários e políticos que amam a desinformação e por pessoas desinteressadas.
De certa forma, este é o centro das atenções em O diabo veste Prada 2. Claro que a moda está lá, com seus desfiles e roupas de grifes, mas existe uma grande diferença na sequência da famosa adaptação do livro de Lauren Weisberger: a crise da imprensa!
E este debate ronda a trama durante toda a exibição, com uma defesa da profissão e uma utopia sobre a mesma, que é de dar inveja. Essa lógica segue um costume em continuações: uma tradição do mocinho de se juntar ao vilão quando o perigo é ainda maior e atinge ambos os lados.
Voilá! Esse é o ponto elementar de Prada e é impressionante notar os avanços e retrocessos entre o filme de 2006 e o de 2026. Mas, para acalmar os ânimos dos leitores, que ainda se interessam em ler críticas na contemporaneidade, o veredito principal é: a sequência estrelada por Meryl Streep vale a pena ser assistida!

Neste sentido, como os pontos altos são mais numerosos que os baixos, esta breve análise começa falando do que há de melhor na obra. Primeiro, a força do elenco é inegável. Em uma era de influencers de conteúdos vazios e uma vilanização/desvalorização do conhecimento, ver atores estudados e experientes na telona é um bálsamo aos olhos e ouvidos.
Há anos que Meryl Streep não entregava um papel com tantas nuances. Principalmente em termos vocais, Streep elevou inclusive o nível de sua primeira construção de Miranda Priestly. Existem mais gradações na modulação de voz e tipos de gestuais com dinâmicas diferentes agora.
E o que isso significa? Há mais camadas da personagem sendo mostradas. Miranda não é apenas uma chefe diabólica (é também), mas uma mulher com sonhos e medos. No primeiro filme existe a sequência do “melt down” de Paris. Mas, ali é uma linha reta. Aqui, existem altos e baixos, além das emoções serem imbricadas também.
Já Anne Hathaway e Emily Blunt repetem a qualidade de seus papéis. Talvez, elas elevem mais a potencialidade das cenas do que as personagens em si. Mas, a experiência com a profissão é nítida quando há um domínio da contracena. A intimidade da dupla ajuda na elaboração do jogo cênico. As intérpretes não jogam fora nenhuma pausa e sabem como usar as falas interpostas.E o que há de mais especial no trabalho de Stanley Tucci nessa sequência é como ele conseguiu criar ainda mais camadas no relacionamento entre Nigel e Miranda. É como se, mesmo que os atores não estejam se olhando, eles estivessem se comunicando quase que telepaticamente.
Isso porque Streep e Tucci têm um domínio grande sobre a história, sobre atuar e criar enredos implícitos. Assim, eles aumentam as camadas narrativas. Por isso, subtextos são criados, fazendo com que o público costure mentalmente os possíveis acontecimentos dos últimos vinte anos.
Juntamente com essa lógica, o material de Aline Brosh McKenna se mostra amadurecido. Apesar de manter elementos presentes no livro de Weisberger e do próprio longa anterior, McKenna parece mais sábia, confiante e livre para escrever. A autora consegue mesclar a dinâmica de comfort film com produções políticas e panfletárias, com programas de moda e beleza.
Toda essa junção dentro da história ilustra com profundidade a complexidade do jornalismo e, mais, do mundo feminino. Entre batalhas diárias para fazer o que se acredita, lutar contra opressões e se manter em pé, tanto o jornalismo quanto as mulheres necessitam bravamente ir de encontro ao patriarcado branco, que deseja minar tudo que não pode controlar.
De fato, essa comparação é um pouco exagerada, porém, ao sair do cinema, essa que vos escreve sentiu uma vontade intensa de salvar o jornalismo utópico, com todo o empoderamento feminino que existe no planeta. Essa emoção aflorada só foi um pouco cortada por um ponto incômodo na obra: os floreios!
Se o enredo convoca uma oponente, ele precisa ir até o fim sem medo. A escolha da vilã do subplot é inteligente e mais elaborado do que não personificar em uma figura humana os males da sociedade. Essa é uma discussão longa, mas se implicar como parte do problema também é importante.
No entanto, ao criar uma sequência final que desfaz os objetivos da própria antagonista, quebra essa coragem. Esse detalhe não arruína a sessão inteira, mas reduz o resultado total. Todavia, o retorno de McKenna ao mundo de Diabo veste Prada é acertado.
A volta de David Frankel na direção também. O cineasta consegue mesclar quadros grandiosos com íntimos. De um lado, planos gerais, com panorâmicas, travellings e uso de drones, que revelam toda uma nova iorque mágica, presente no cinema hollywoodiano. Do outro, câmera fixa, seguindo uma estética tradicional e intimista, enquadramentos médios e close-ups.
Frankel é quase como dois diretores em um. O artista sabe utilizar seu olhar para investigar as personagens e retirar delas vulnerabilidade. Mas, ele também consegue mobilizar a perspectiva da plateia para que ela enxergue toda o glamour e “chiqueza” do mundo da moda.
E ainda tem a cereja do bolo que é a trilha sonora do longa. É muito inteligente manter as canções mais marcantes da produção anterior, bem como as músicas originais de Theodore Shapiro. Um exemplo é o emocionante tema de Andy Sachs, “The new look of Andrea”.
Essa conexão e nostalgia faz com que quem assiste se sinta mais próximo da história e evoque sensações semelhantes ao filme anterior. Desta forma, é notável o teor complexo de O diabo veste Prada 2, que não traz um trabalho preguiçoso apenas para ganhar um dinheiro facil.
Aqui a esperança pelo jornalismo e pelo cinema faz morada no coração. Ainda que os boomers e Xers não sejam eternos, talvez o Y, Z, Alphas etc. consigam se sensibilizar e resgatar importantes elementos que vêm se perdendo na atualidade.
Ao mesmo tempo, é revigorante ver em Prada 2 os discursos feministas, políticos e sociais bem progressistas. Assim, o melhor dos mundos se encontram no filme, gerando uma projeção agradável e boas para as vistas dos que procuram pelo apuro técnico!
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