'Duna: a profecia' mostra que é possível adaptar e com alta qualidade
É curioso observar como, desde o seu início, "Duna: A profecia" convoca na tela elementos visuais em oposição à sua obra original. Se nos dois longas-metragens de Denis Villeneuve, o público acompanha a quentura do planeta Arrakis e a jornada do herói Paul Atreides, na série, o ciano com preto e o ar de conspiração entre madre superioras imprimem outro tom, e complexifica o imaginário do universo ficcional de Duna.
Aqui, são dez mil anos de Paul e há muita diferença imagética, principalmente nas cores dos cenários, figurinos, maquiagens e luzes. Há mais frieza, cálculo de rota e menos urgência neste momento da história. É como se o terreno ainda estivesse sendo preparado para que algumas famílias ganhassem mais poder, outras perdessem e a revolta dos Fremen ainda estivesse para eclodir mais intensamente. No entanto, a atmosfera deste mundo “duniano” permanece.
É, de fato, impressionante, como há uma identidade visual e narrativa vindas dos livros originais de Frank Herbet, mesclado ao que foi criado por Villeneuve, que se espalha pelo ecrã do seriado da HBO. Um dos elementos centrais para esta sensação é o cuidado em criar ambientações novas para espaços ainda não mostrados, mas com elementos já conhecidos pela plateia, como é o caso da a ordem secreta Bene Gesserit e a inserção de personagens das famílias Harkonnen e Atreides.
As simpatias e antipatias vão se deslocando, à medida que a trama avança, mas quem assiste sabe de onde começar, pois compreende que há uma rivalidade entre os Atreides e os Harkonnen. Mesmo que alguém consuma apenas A Profecia, por exemplo, o prólogo ambienta o público, quando explica sobre as guerras com as máquinas auxilia nesse entendimento. Neste sentido, a tensão entre as famílias, juntamente com a briga pelo poder das casas, são os focos também neste enredo.
Desta maneira, o espectador continua torcendo e se irritando com uma trama semelhante, porém protagonizada por outros nomes e contextos. É aí que está a chave para a maior conexão com a construção de universo ficcional de Duna. Mas, a personalidade de A Profecia está presente também. Este azulado e preto, que preenche a tela na maior parte das sequências, é a pista de que os tempos são outros e a atenção deve se voltar para as ações das Bene Gesserit - afinal, esta é a paleta de cores delas.
Porque este é um universo no qual a intuição e a inteligência emocional serão armas. Logo, as batalhas são mais verbais e os conflitos físicos entram como um ápice deste jogo de movimentações psicológicas entre as personagens. Assim, a câmera brinca junto com as protagonistas, as irmãs Tula e Valya Harkonnen (Olivia Williams e Emily Watson, respectivamente). A direção dos episódios é inteligente ao comandar a decupagem a favor da dupla.
Seja pelo tempo de tela ou por serem as figuras que contam com planos mais fechados e estáticos, há uma centralização da condução da narrativa pelo olhar e atos da irmãs Harkonnen. Paralelamente, a entrada de Desmond Hart (Travis Fimmel) simboliza a quebra - ou a tentativa de quebrar com - do poder das duas. Desmond é solar, é físico nas ações e dialoga abertamente, sem jogos mentais.
Gradativamente, Hart vai assumindo esse espaço na tela, dividindo ele com as Harkonnen. O conflito argumentativo, tanto no sentido extra-obra como na diegese, vai se ampliando. Assim, qual a divergência o espectador deve abraçar? De classe ou de gênero? Há um limite para o “girl power” de Tula e Valya? Desmond é a ruptura do jogo de poder ou ele fomenta a desigualdade provocada pela sede de ser dono das especiarias?
Dentro do enredo, ao passo que a origem de Hart é desvendada, o ponto de partida da tensão original de Duna: Parte I e Parte II parece regressar. O conflito das famílias principais da história não se perde e a consciência sobre o universo Duna é firmado, quando as características visuais e verbais das casas e dos planetas são mantidos. Contudo, A Profecia é instigante para quem não se importa com o mundo ficcional “duniano” em si. Há uma elaboração de suspensão, desde a revelação das habilidades de Valya, passando pela vingança das irmãs, pelo futuro das Bene Gesserit até a questão do domínio do imperador.
A complexidade das personagens, na qual o maniqueísmo passa longe, funciona como catalisador da espectatorialidade contínua, empolgando o público a maratonar a produção. Desta forma, Duna: A profecia é um título que individualmente e como parte de uma história funciona por apresentar uma técnica apurada e consciente. Nesta perspectiva, olhar para as relações entre as personagens e as suas bases dramatúrgicas é um exercício interessante.
Isto porque é notável o cuidado em administrar no roteiro e na transformação dele em imagem as tensões presentes neste universo de Duna.
*Este material não reflete, necessariamente, a opinião do Aratu On
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