Bahia é o terceiro estado do Brasil que mais mata pessoas trans
Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), entre 2017 e 2025, foram registrados 104 assassinatos de pessoas trans na Bahia; país tem média de 140 mortes por ano
Por Liven Paula.
Celebrado em 31 de março, o Dia Internacional da Visibilidade Trans é marcado não apenas por reconhecimento, mas principalmente por reflexão sobre os desafios enfrentados diariamente por travestis, mulheres transexuais, homens trans e pessoas não binárias na Bahia e outros estados do Brasil.
Os dados revelam a gravidade desse cenário: entre 2017 e 2025, foram registrados 1.261 assassinatos de pessoas trans no país, uma média de 140 mortes por ano, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra),. O dossiê mais recente sobre assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras também evidencia a distribuição desigual desses crimes pelo território nacional.
No ranking por estados, São Paulo lidera com 155 mortes ao longo da série histórica. Em seguida aparecem Ceará (115), Bahia (104) e Minas Gerais (100). Também figuram entre os estados com maiores índices Rio de Janeiro (96), Pernambuco (83), Paraná (59), Pará (51), Paraíba (47) e Goiás (43).
O Nordeste concentra parte significativa desses casos: apenas Ceará, Bahia, Pernambuco e Paraíba somam 349 assassinatos. O perfil mais recorrente das vítimas, segundo a ANTRA, é de jovens, negras e nordestinas, o que evidencia a interseção entre transfobia, racismo e desigualdade social.
Diante desse cenário, políticas públicas de acolhimento e promoção de direitos se tornam essenciais. Em Salvador, o Centro Municipal de Referência LGBT+ Vida Bruno tem papel estratégico nesse enfrentamento, atuando como espaço de escuta, proteção e reconstrução de trajetórias.
O centro oferece atendimento psicológico, jurídico e social, além de ações educativas e articulação com a rede de proteção. Também presta suporte para denúncias de LGBTfobia e atua na promoção do acesso a direitos básicos. Em 2025, por exemplo, foram realizadas gratuitamente 81 retificações de nome e gênero para pessoas trans, travestis e não binárias.
Além disso, a política pública tem avançado no campo institucional. Milhares de servidores municipais já passaram por processos de formação e sensibilização, e diversas secretarias implantaram núcleos internos de combate à LGBTfobia, ampliando o alcance das ações na gestão pública.
As demandas mais frequentes atendidas pelo serviço incluem questões de saúde mental, violações de direitos e situações de vulnerabilidade socioeconômica. Muitas pessoas chegam ao centro após experiências de rejeição familiar, exclusão escolar e dificuldade de inserção no mercado de trabalho, fatores que contribuem diretamente para o ciclo de violência e marginalização.
À frente do Departamento de Política e Promoção da Cidadania LGBT da Secretaria Municipal da Reparação (Semur), representando o Centro de Referência, a ativista e ex-vereadora Léo Kret do Brasil reforça que a data precisa ser entendida como um chamado à responsabilidade coletiva: “O dia da visibilidade, acima de tudo, é um dia de reflexão. Reflexão sobre quantas trans ainda precisam lutar diariamente pelo básico, por respeito, dignidade e o direito de existir.”
Ela destaca ainda que visibilidade não se limita à exposição, mas envolve garantir direitos a quem permanece invisibilizado. “Falar da visibilidade trans não é só falar de quem está aparecendo, é falar de quem ainda está invisibilizado, de quem foi silenciado, de quem ainda tem medo de ser quem é", afirma.
Segundo ela, o acolhimento é um dos pilares fundamentais dessa política. “Acolher a população LGBT+ é salvar vidas. É garantir acesso à saúde, à educação, à cidadania e, principalmente, ao respeito.”
A representante também chama atenção para a exclusão no mercado de trabalho, uma das principais barreiras enfrentadas pela população trans. “A população trans ainda é uma das mais vulneráveis do nosso país, principalmente pela falta de oportunidades. A gente está sempre buscando caminhos, indicando pessoas, mas ainda é muito difícil", destaca.
Por fim, ela reforça que a visibilidade precisa vir acompanhada de compromisso social e institucional. “Não basta enxergar, é preciso respeitar, incluir e garantir direitos. Existir é um ato político, resistir é um ato de coragem. E viver com dignidade é um direito de todas as pessoas.”
Neste Dia Internacional da Visibilidade Trans, os dados e relatos evidenciam que, embora haja avanços, ainda há um longo caminho a percorrer, e que iniciativas como o Centro Vida Bruno seguem sendo fundamentais para transformar realidades e garantir cidadania à população LGBTQIA+.
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