Dia do circo: entre tradição, desafios e paixão, a arte itinerante resiste na Bahia

Conheça desafios, a paixão dos artistas e os avanços recentes que fortalecem a arte circense na Bahia

Por Da redação.

Nesta sexta (27), é celebrado o Dia do Circo, e a data ganha contornos ainda mais especiais para os artistas e gestores do setor. Além das comemorações, o segmento celebra avanços importantes: o Protocolo de Intenções firmado entre a Funceb e a Fundação Nacional de Artes (Funarte) fortalece políticas públicas de ensino circense e cria referências pedagógicas. Além disso, o Circo de Tradição Familiar foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Salvador e outras cidades da Bahia recebem anualmente cerca de cinco ou seis circos de grande porte, segundo Laisa Ferreira, gestora pública com mais de 10 anos de experiência na área. “Os circos que vêm para Salvador são circos maiores. A maioria vem de outros estados e conseguem se instalar, muito porque a cidade tem poucos espaços e taxas mais altas do que a maioria das cidades da Bahia”, explica.

Segundo Laisa, os pequenos e médios circos enfrentam dificuldades para se instalar na capital. “Eles costumam itinerar mais pelas cidades menores, onde recebem mais apoio e encontram terrenos e condições mais favoráveis”, afirma. Ela destaca que algumas prefeituras oferecem incentivos como compra de espetáculos, isenção de taxas e até terrenos gratuitos, enquanto outras podem criar barreiras burocráticas.

A visão do artista: dificuldades e paixão

Quem vive o circo na prática sente de forma intensa essas dificuldades. Gisele, que trabalha há 33 anos na arte circense, conta: “Para mim, o que é mais difícil viver em circo é a falta de incentivo mesmo, principalmente do governo, dos municípios e do próprio público. O circo caiu muito no Brasil e cada dia que passa está piorando. A bilheteria está defasada, os impostos e a burocracia das prefeituras tornam tudo mais difícil”.

Apesar das adversidades, Gisele mantém o amor pelo circo como combustível. Hoje, ela lidera seu próprio ciclo, o Au Estrelar, e reflete: “Nosso circo cabe 300 pessoas, mas se tiver 15, 20, a gente trabalha para aquelas 15, 20 com o maior prazer. Só o sorriso e o aplauso já é um pagamento para a gente. O que me motiva a continuar é o amor”.

Ela critica a burocracia e altos custos para circos se instalarem nas cidades. “Se pelo menos as prefeituras recebessem o circo de braços abertos, sem cobrar tantas taxas, já ajudaria bastante. Um alvará aqui na Bahia chega a custar R$ 3 mil para um ciclo de 200 cadeiras”, conta.


Funceb Lucas Makult

Começo no circo e transmissão de conhecimento

Laisa Ferreira lembra que a carreira circense muitas vezes começa na infância, dentro de famílias ou circos itinerantes. “As gerações aprendem umas com as outras, e quem está fora desse ambiente precisa procurar cursos, oficinas ou até aprender por conta própria”, diz. Ela destaca que existem espaços de formação em Salvador, como o Picolino e núcleos de circo que oferecem oficinas pontuais, enquanto no Rio de Janeiro há a Escola Nacional de Circo, com curso técnico reconhecido pelo MEC.

A profissionalização varia de acordo com a modalidade escolhida. “O circo é multifacetado: malabarismo, aéreo, trapézio, palhaçaria. Cada linguagem exige habilidades específicas, e muitos artistas transitam entre mais de uma delas”, explica.

Funceb Andre Souza

Rotina e desafios da vida circense

A vida itinerante é intensa e exige logística complexa. Circos pequenos e médios geralmente são familiares, enquanto circos grandes podem ter até 100 integrantes. “A rotina é maravilhosa e desafiadora. Apesar das dificuldades, a paixão pelo circo é o que mantém essas pessoas na estrada”, comenta Laisa.

O circo se mantém principalmente pela bilheteria e pela venda de alimentos durante os intervalos, embora o apoio do poder público seja fundamental. “O Estado da Bahia vem aumentando gradativamente os recursos e criando políticas mais escutativas, mas sabemos que sempre haverá mais agentes de circo do que o apoio disponível”, afirma.

Políticas públicas e futuro da arte circense

Laisa Ferreira coordena políticas voltadas para a arte circense na Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), trabalhando para melhorar condições de instalação, formação e atuação dos artistas. Ela ressalta que cada cidade apresenta desafios diferentes, desde terrenos adequados e acessibilidade até questões burocráticas e educação das crianças.

“Se eu pudesse mudar algo, seria exatamente isso: tornar o trabalho desses artistas mais fácil, para que possam executar essa arte de forma digna e continuar encantando o público”, conclui.

Apesar das dificuldades, a experiência e dedicação de gestores e artistas mantém o circo como uma tradição viva, capaz de encantar novas gerações e resistir às barreiras da vida urbana moderna.Fuceb Andrre Souza

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