Mudança do Garcia une irreverência nas fantasias e protesto no Carnaval
Movimento chama atenção nesta segunda-feira de carnaval, com participação popular e de lideranças da esquerda
Por, João Tramm e Bruna Castelo Branco.
A Mudança do Garcia voltou a ocupar as ruas de Salvador reafirmando sua essência popular, crítica e bem-humorada. Prestes a completar 96 anos de história, o movimento reuniu diferentes gerações no Circuito Riachão, que liga o Largo do Garcia ao Campo Grande, ao som de blocos percussivos, charangas, minitrios e muita criatividade.
Conhecida por transformar o Carnaval em espaço de manifestação política e cultural, a Mudança levou para a avenida, mais uma vez, pautas sociais e reivindicações trabalhistas. Entre as bandeiras levantadas por sindicatos e coletivos estiveram o fim da escala 6×1, o combate ao feminicídio e críticas a temas do cenário político nacional — incluindo pedidos de responsabilização dos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro.
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Neste ano, o tema central foi o “Respeito à Mudança, respeito às pessoas e respeito ao povo que faz o Carnaval acontecer”.
Fantasia como protesto
Em entrevista ao Aratu On, André Dalas — que foi Rei Momo em 2018 — destacou que participa todos os anos com fantasias de protesto. Em 2026, ele escolheu representar a “Vaca Profana”, uma metáfora crítica sobre privilégios e uso de recursos públicos.
Segundo ele, a fantasia traz a ideia de “mamar nas tetas do governo”, mas com um detalhe bem-humorado: os bicos não aparecem. “Um deputado mamou demais e arrancou um, um senador arrancou o outro”, brincou.

Para Dalas, o simbolismo vai além da sátira. Ele afirmou que o “peito segue duro e sempre gordo”, numa crítica à percepção de que, apesar dos sucessivos escândalos revelados ao longo dos anos, o país continua movimentando grandes recursos.
Veterano da Mudança, ele contou que já levou outras fantasias marcantes, como a de uma privada, em referência ao que chamou de “reservatório da educação brasileira”. Para ele, as fantasias funcionam como obras artísticas abertas à interpretação. “Eu me programo o ano todo para estar aqui. Me divirto, mas também passo minha mensagem”, afirmou.
Movimento em família e de bairro
Morador do bairro há 47 anos, Jorge Canário é outro exemplo da força comunitária da Mudança. Ele contou que começou a participar ainda criança e acompanhou toda a transformação do movimento ao longo das décadas. Há três anos, decidiu criar o próprio minitrio.
A ideia surgiu de forma simples: pegou emprestado o carrinho do neto e começou a montar estruturas em cima. Com talento para ilustração e modelagem, foi aprimorando o projeto. O que era pequeno cresceu e hoje já se tornou presença aguardada na festa.
“Eu sou carnavalesco, não aquele retado, mas sou. Enquanto eu aguentar, vou estar aqui”, disse, emocionado. Para ele, participar da Mudança é manter viva uma tradição que mistura pertencimento, arte e resistência cultural.
Toni Campista também reforçou o caráter plural do evento. Para ele, a Mudança do Garcia é um espaço onde a criatividade nasce dentro de casa e ganha a rua.

“É um clamor à diversidade. A gente improvisa, cria, quer alegrar as pessoas. Mostra que tudo é possível, inclusive brincar e ser feliz”, afirmou. Segundo Toni, a arte permite que as mensagens circulem de forma leve, mas potente.
Presença política
O movimento também foi marcado pela presença de lideranças políticas, especialmente de partidos de esquerda. Entre elas, o presidente do PT na Bahia, Tassio Brito, e a vereadora Eliete Paraguassu.
Em entrevista ao Aratu On, Eliete afirmou que colocou seu nome à disposição como pré-candidata a deputada federal nas eleições de 2026. Segundo ela, pretende levar ao Congresso pautas relacionadas às águas, à defesa dos territórios quilombolas, ao enfrentamento do racismo ambiental e às desigualdades sociais.
Questionada sobre a importância da Mudança do Garcia, a vereadora destacou que o movimento popular vivo nas ruas: “A Mudança do Garcia é a expressão do povo na rua. A gente se diverte, mas também denuncia as injustiças e diz que a cidade pode e precisa ser melhor. É cultura, é resistência e é luta”.

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