Curiosidades sobre Santa Dulce: veja histórias que revelam um lado pouco conhecido da santa
De cinemas em bairros de Salvador ao primeiro contrato artístico de Raul Seixas, trajetória de Irmã Dulce reúne episódios que vão além da atuação religiosa e social
Por Victor Hernandes.
A história de Santa Dulce dos Pobres é marcada não apenas pela dedicação aos mais necessitados, mas também por episódios que revelam uma faceta menos conhecida da religiosa. Antes de se tornar a primeira santa brasileira, Irmã Dulce transitou por diferentes espaços de Salvador, aproximou-se da cultura, ajudou a criar cinemas em bairros periféricos, incentivou apresentações musicais e manteve contato com pessoas que estavam à margem da sociedade.

Muito além das obras de caridade, a trajetória de Irmã Dulce reúne histórias que ajudam a compreender a dimensão de seu trabalho e a maneira como ela utilizava diferentes ferramentas para alcançar seus objetivos.
Entre as curiosidades sobre Santa Dulce dos Pobres estão a participação na construção de três cinemas em Salvador, a assinatura do primeiro contrato artístico de Raul Seixas e as visitas a presídios da capital baiana.
Santa Dulce e os cinemas de Salvador
Ao lado do frei Hildebrando Kruthaup, Irmã Dulce participou da idealização e implantação do Cine Roma, Cine Plataforma e Cine São Caetano, três espaços construídos em bairros periféricos de Salvador.
A iniciativa tinha uma finalidade que ia além do entretenimento. Os cinemas também eram utilizados para arrecadar recursos destinados à manutenção das obras sociais desenvolvidas pela religiosa. Os espaços contribuíram ainda para ampliar o acesso à cultura em regiões mais afastadas do centro da capital baiana.
O Cine Roma, inclusive, entrou para a história da música brasileira. Em 1965, Roberto Carlos realizou um de seus primeiros shows na Bahia no local.
Foi também no Cine Roma que Irmã Dulce assinou o primeiro contrato artístico de Raul Seixas, então à frente da banda Raulzito e os Panteras. O acordo permitiu que o grupo realizasse apresentações de rock no espaço.
Irmã Dulce visitava presos em Salvador
A atuação de Irmã Dulce também alcançava os presídios da capital baiana. Antes de ser reconhecida oficialmente como santa, a religiosa costumava visitar detentos e levar alimentos, medicamentos e assistência.
A música era uma das ferramentas utilizadas durante essas visitas. Tocando sanfona e cantando modinhas, Irmã Dulce buscava proporcionar momentos de conforto e aproximação aos presos.
Entre as pessoas visitadas por ela estava Volta Seca, um dos integrantes mais conhecidos do bando de Lampião. O ex-cangaceiro recebeu visitas da religiosa durante o período em que esteve preso.
A relação de Santa Dulce com o futebol
A relação de Irmã Dulce com a cultura popular de Salvador também passava pelo futebol. Desde criança, ela acompanhava o pai e os irmãos ao Campo da Graça para assistir às partidas do Esporte Clube Ypiranga, tradicional clube baiano conhecido pelo apelido de “O Mais Querido da Bahia”.
As histórias mostram uma Irmã Dulce que, além da atuação religiosa e social, esteve ligada a diferentes aspectos da vida cultural de Salvador.
Entre cinemas, música, futebol e visitas aos presídios, a trajetória da religiosa revela episódios que ajudam a compreender uma personagem que construiu seu trabalho social utilizando os recursos e as relações que encontrou ao longo da vida.
A fé que movia as obras de Irmã Dulce
A trajetória de Irmã Dulce também foi marcada pela capacidade de transformar projetos em realidade por meio da fé e da mobilização de pessoas.
Quem explica alguns desses episódios é Márcio Didier, um dos gestores das Obras Sociais Irmã Dulce (OSID). Segundo ele, a freira tinha uma habilidade única para mobilizar pessoas e transformar encontros em oportunidades para suas obras.
Um dos exemplos ocorreu durante a construção do prédio do Círculo Operário, espaço destinado a receber salas de alfabetização, datilografia e capacitação para mulheres.
Na época, Irmã Dulce insistiu na construção imediata da fachada, mesmo sem a fundação do imóvel.
Segundo Didier, a religiosa conseguiu convencer o profissional responsável pela obra a iniciar a construção.
“O engenheiro disse assim: ‘Não tem como’, porque se você perguntar hoje a qualquer engenheiro, precisa primeiro da fundação do imóvel e ela não tinha. No entanto, ela conseguiu convencer o trabalhador que fez a obra. Anos depois, ele se tornou um dos maiores empresários do ramo e fundou uma das maiores empresas de engenharia.”
O encontro de Irmã Dulce com Paulo Coelho
A capacidade de acolhimento de Irmã Dulce também aparece em uma história envolvendo o escritor Paulo Coelho. Segundo o gestor da OSID, Márcio Didier, o escritor procurou a religiosa em um dos momentos mais difíceis de sua vida e pediu ajuda para retornar ao Rio de Janeiro. De acordo com o relato, Irmã Dulce não fez julgamentos e perguntou o que ele precisava.
“Ele chega e vem, e ela não faz nenhum julgamento, só faz uma pergunta: ‘O que você quer de mim, meu filho?’. ‘Quero voltar para o Rio’. Ela pega um bilhetinho e escreve: ‘Este jovem quer voltar para o Rio de Janeiro, ajudem ele’. Logo em seguida ele consegue ajuda e retorna para sua casa.”
Para Didier, o episódio demonstra o impacto que um gesto aparentemente simples podia ter na vida de alguém.
O gestor também destacou que Paulo Coelho teria guardado o bilhete escrito por Irmã Dulce durante décadas.
“E aí o que eu acho sensacional dessa história é que esse jovem, cheio de problemas naquele momento, com droga, com tudo, ele guarda esse bilhete até agora.”
As histórias relatadas por quem conheceu ou conviveu com Irmã Dulce mostram uma personagem cuja atuação ultrapassava os limites da assistência aos pobres. Seja na construção de espaços culturais, nas visitas aos presídios, na relação com a música e o futebol ou no acolhimento de pessoas em momentos de dificuldade, Santa Dulce dos Pobres deixou episódios que ajudam a compreender a dimensão humana de sua trajetória.
Programação da festa de Santa Dulce
A Festa de Santa Dulce dos Pobres começou no último dia 1º, em Salvador. O festejo reúne uma programação religiosa e cultural que segue até o dia 13 de agosto.
Neste ano, a celebração traz como tema "Santa Dulce dos Pobres nos educa na paz pela força da Graça Sacramental". Promovido pelas Obras Sociais Irmã Dulce (OSID), com apoio da Prefeitura de Salvador, o evento contará com missas, trezena, procissões, shows, quermesse e ações solidárias, além de reunir milhares de fiéis, devotos e turistas durante os 13 dias de programação.
Segundo o reitor do Santuário Santa Dulce dos Pobres, Frei Ícaro, a festa é um momento de agradecer pela trajetória da primeira santa brasileira.
"Vão ser dias de muita fé, de muita devoção e celebração em honra a Santa Dulce, agradecendo a Deus por ter nos dado a primeira santa brasileira, aqui da nossa terra e da nossa cidade. Convidamos a todos para celebrar conosco a festa de Santa Dulce", afirmou.
O ponto alto da festa será em 13 de agosto, data litúrgica de Santa Dulce. Ao longo do dia, a programação de encerramento contará com uma série de atividades religiosas e culturais.
"Vamos ter as celebrações religiosas pela manhã e à tarde. Na praça haverá eventos, bandas católicas e shows em honra a Santa Dulce. E no dia 13, o grande dia da festa, teremos a missa solene às 17 horas, programação durante todo o dia e, depois, a procissão", disse Frei Ícaro.

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