Homem é detido após chamar agente da Transalvador de “macaco” no Santo Antônio Além do Carmo
Agente da Transalvador foi alvo de ofensa racista durante ocorrência de trânsito na noite desta segunda (7); veja o caso
Por Liven Paula.
Um agente da Transalvador foi alvo de uma ofensa racista durante uma ocorrência de trânsito no Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador.

Segundo a Polícia Militar, um homem de 51 anos, que não estava envolvido na ocorrência, chamou o servidor de “macaco” após se irritar com o congestionamento provocado por um acidente envolvendo o carro de um jogador do Bahia.
Agente da Transalvador é alvo de ofensas durante ocorrência
O episódio aconteceu na noite de segunda-feira (7), enquanto equipes da Transalvador trabalhavam no registro de uma colisão no bairro. De acordo com o órgão, o homem ficou preso no congestionamento causado pela batida e começou a discutir com os servidores que estavam no local.
Durante a confusão, além das agressões verbais, o suspeito teria utilizado uma expressão de cunho racista contra um dos agentes. O servidor acionou policiais militares que estavam nas proximidades, e o homem acabou sendo levado para a Central de Flagrantes.
Segundo a PM, o homem foi apresentado na Central de Flagrantes, onde foi registrado um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO). Após o procedimento, ele foi liberado e vai responder ao caso em liberdade.
Em nota, a Transalvador repudiou o episódio e destacou que os agentes devem ser respeitados durante o exercício das funções. O órgão afirmou que “não serão tolerados atos de violência, racismo ou qualquer outra forma de desrespeito contra os profissionais em serviço”.
A autarquia também reforçou que os servidores atuam diariamente na organização e segurança do trânsito de Salvador e que agressões físicas ou verbais contra as equipes não serão aceitas.
Relatos expõem racismo persistente em Salvador
Salvador, capital com o maior número de pessoas pretas no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ainda registra casos frequentes de racismo em diferentes espaços da cidade. O total de 34,14% da população da capital se declara preta (825.509 pessoas) e 49,07% parda (1.186.416), somando mais de 2 milhões de moradores negros, de acordo com dados do Censo de 2022.

Na Bahia, em 2024, foram registrados 1.642 casos de racismo e intolerância, em levantamento que analisou cerca de 4,5 mil ocorrências no período. Os dados são do relatório Quando a cor da pele define o alvo – Racismo, território e desafios para a sociedade baiana (2022–2024), realizado pelo Instituto de Segurança Pública, Estatística e Pesquisa Criminal (ISPE).
O estudo indica ainda que as ocorrências se concentram principalmente em bairros de áreas centrais e de classe média alta, caracterizados pela maior circulação de pessoas e presença de espaços comerciais e de serviços. Entre os locais com maior número de registros estão Caminho das Árvores (9,6%), Pituba e Itapuã (ambos com 7,8%) e Barra (7,1%).
O advogado Bruno Moura, que atua em casos do tipo, afirma já ter atendido, apenas em 2026, quatro situações envolvendo racismo, injúria racial e intolerância religiosa. “Infelizmente, esses casos de racismo ainda continuam muito presentes na nossa sociedade. Nesse ano de 2026, eu já fui procurado quatro vezes para tratar desses assuntos”, afirmou.
Segundo ele, não há um perfil econômico específico entre as vítimas. “Já atendi desde pessoas mais simples até pessoas de classe média e alta que também passaram por situações de racismo”, disse.
Um dos pontos que mais chama atenção, de acordo com o advogado, é o local onde os casos acontecem. “Todos os casos de racismo ocorreram em ambientes públicos”, destacou.
Moura aponta ainda que o medo de retaliações faz com que muitas vítimas evitem denunciar. “Essas pessoas ficam receosas em processar por medo de retaliações”, afirmou.
Para ele, o apoio de quem presencia situações de racismo é essencial. “As pessoas precisam se colocar à disposição para coibir o ato e também servir como testemunha no processo”, disse.
Na avaliação do advogado, o aumento no número de registros não significa, necessariamente, mais casos, mas sim maior conscientização. “O que eu percebo não é o aumento dos casos, e sim o aumento da coragem das pessoas em registrar, filmar e procurar a delegacia e o advogado”, concluiu.
Além dos atendimentos profissionais, o advogado relata também ter sido vítima de racismo. Segundo ele, a situação mais grave ocorreu durante uma abordagem policial. “Um policial apontou um fuzil para o meu carro de forma agressiva, sem motivo. Depois, outros vieram também apontando armas e começaram a questionar o que eu estava fazendo ali e a afirmar que o carro não era meu”, contou.
A postura dos agentes mudou após sua identificação. “Só depois que eu apresentei a carteira da OAB foi que o tratamento mudou”, afirmou.
Mesmo com a população negra sendo maioria em Salvador, casos de racismo continuam sendo registrados. Neste sábado (21), Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, os dados e relatos reforçam que a prática ainda está presente no cotidiano e segue desafiando o enfrentamento efetivo do problema.
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