Lula e Bolsonaro: a República entre a sunga e a cueca

No fim, o Brasil assiste a uma República desvestida. Sunga e cueca viraram estandartes de uma disputa que se recusa a sair de cena. A exposição total revela líderes dispostos a tudo — à vitalidade performada ou à dor encenada — para manter o engajamento.

Por Pablo Reis.

Lula e Bolsonaro: a República entre a sunga e a cueca

A política brasileira decidiu sair nua — ou quase.

Nestes dias recentes de Verão, despimos o protocolo e ficamos só com o essencial: pele, tecido mínimo e máxima mensagem política. De um lado, uma sunga preta que ofuscou o brilho do sol no litoral carioca. Do outro, uma cueca cinza engolida pela penumbra de uma cela da Polícia Federal. Em ambos os casos, pouca roupa. Mas sentidos opostos: vitalidade em desfile contra martírio em construção. No Brasil, até roupa íntima virou discurso.

Na Restinga da Marambaia quase deserta, Lula mergulha como quem responde a um dossiê sem palavras. O vídeo — estrategicamente publicado no perfil de Janja — não é lazer: é nota oficial em forma de braçada. O subtexto é claro para quem acompanha a geopolítica do etarismo: não sou Biden, não estou fora do jogo.

Todo mundo lembra que Joe Biden desistiu de disputar a reeleição porque era chamado de senil por adversários e protagonizou cenas de, digamos, desatenção pública (para ficar numa gentileza). Aos 80, o presidente brasileiro encena saúde como programa de governo. A água salgada lava, simbolicamente, a crítica da The Economist. A areia vira palanque. O corpo, argumento. 

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Há ali um cálculo fino. Ao exibir o shape de quem desafia o calendário (80 com corpinho de 70), Lula associa vigor físico à permanência no poder. O mergulho não é espontâneo; é semiótica aplicada. Direita e esquerda se encontram no mesmo mar, mas cada uma lê ondas diferentes. O resto fica por conta da imaginação — esse eleitor invisível que completa o sentido da imagem conforme suas crenças.

Do outro lado da moeda — ou do mesmo espelho trincado — Jair Bolsonaro encarna a estética oposta. Não a da leveza, mas a da vulnerabilidade estratégica, na imagem divulgada por Carlos Bolsonaro. É um senhor de 70 anos que, se já teve histórico de atleta, agora procura ostentar postura de moribundo: entre vômitos, soluços e um corpo que pede socorro. A cueca exposta não sugere descanso; funciona como prova material de sofrimento. Não é lazer. É laudo.

Aqui, o corpo não promete futuro; pede clemência. A cena serve a dois objetivos: o explícito, pavimentar o caminho da prisão domiciliar humanitária; o implícito, reacender a chama do injustiçado, do perseguido pelo “sistema”. A facada retorna como mito fundador, agora acompanhada de azia, isolamento e narrativa de martírio. A dor vira capital político.

Enquanto Lula flutua na ideia de fenômeno da natureza — o homem que desafia a idade — Bolsonaro se afunda na dramaturgia da cela e do corpo em colapso. São polos opostos de um país que, mesmo em trajes mínimos, insiste em girar ao redor dos mesmos personagens. A imagem de Lula aposta na aspiração: quem não quer estar naquela praia? A de Bolsonaro investe na identificação pelo sofrimento: quem nunca se sentiu esmagado pelo mundo?

Nesse teatro do corpo, as primeiras-damas assumem o papel de diretoras de cena. Janja, com seus 36% de imagem positiva, atua como guardiã da energia presidencial, humanizando Lula e embalando 2026 como horizonte possível. Michelle Bolsonaro, mais bem avaliada (44%), se consolida como voz da agonia, denunciando riscos de morte, desequilíbrio e injustiça.

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Uma cuida da vitalidade; a outra, da dor. Ambas sabem que emoção precede razão.

Os números confirmam o roteiro. Dados da Ativaweb mostram que o vídeo de Lula na praia foi um sucesso de viralização — um raro acerto da esquerda na gramática contemporânea das redes. Já a estratégia de Carlos Bolsonaro mira o coração do eleitor conservador, tentando converter condenações judiciais em empatia política para os herdeiros do bolsonarismo. O problema comum aos dois campos é o mesmo: rejeição acima de 50%. Pele exposta não cura, sozinha, as dermatites profundas da polarização.

O trocadilho é inevitável porque o país pede ironia: Lula quer provar que está com tudo em cima para enfrentar as urnas; Bolsonaro tenta convencer que está por baixo demais para suportar a prisão. A política brasileira reduzida à sua essência têxtil — onde o que se mostra importa tanto quanto o que se esconde. Janja e Carlos sabem: no tribunal das redes, a imagem certa vale mais que mil discursos errados.

No fim, o Brasil assiste a uma República desvestida. Sunga e cueca viraram estandartes de uma disputa que se recusa a sair de cena. A exposição total revela líderes dispostos a tudo — à vitalidade performada ou à dor encenada — para manter o engajamento. Resta saber se o eleitor, diante de tanta transparência, procura a verdade dos fatos ou apenas o conforto estético da própria bolha. Afinal, nem toda nudez é sinceridade. Algumas só distraem enquanto o poder troca de roupa. E algumas, como suporia Nelson Rodrigues, são até castigadas. 

 

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