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Lula conseguirá governar com Congresso de direita? Veja os desafios do novo mandato

PL terá a maior bancada da Câmara e do Senado; sem maioria própria nas duas Casas, presidente precisará construir alianças para avançar na agenda do governo

Por Victor Hernandes.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais de 2026 não encerra os desafios políticos do próximo mandato. A partir de 2027, o presidente eleito terá de negociar com um Congresso Nacional em que o Partido Liberal (PL), principal legenda da oposição, terá a maior bancada tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal.

Lula terá de negociar com partidos de diferentes espectros políticos para aprovar projetos no Congresso Nacional a partir de 2027

O PL contará com 121 deputados federais e 28 senadores. Já o PT terá 70 deputados e dez senadores. A composição indica que Lula não terá maioria própria nas duas Casas e precisará buscar apoio de outras legendas para aprovar projetos e implementar as propostas do governo.

O cenário, no entanto, não significa que todas as iniciativas do Executivo serão barradas. A capacidade de articulação política, os interesses envolvidos em cada votação e a formação de maiorias em torno de propostas específicas serão determinantes para o andamento da agenda presidencial.

Como Lula pode construir uma base de apoio no Congresso?

A vitória de Lula na disputa presidencial abre espaço para que os partidos de esquerda se articulem em torno do governo federal. Segundo o cientista político Eduardo Grizenti, antes da definição do resultado eleitoral, as federações e bancadas de esquerda também precisavam considerar a possibilidade de atuar como oposição a um governo de direita, diante da perspectiva de um Congresso com forte presença do PL.

Com a eleição do petista, essas siglas passam a ter a possibilidade de negociar apoio ao Executivo. “Eu acho que agora essas federações à esquerda acabam tendo uma maior margem de negociação”, avaliou Grizenti ao Aratu On. 

Na análise do especialista, a presença de Lula na Presidência pode favorecer a organização de uma bancada governista. Essa aproximação, porém, não garante apoio automático em todas as votações nem é suficiente, por si só, para assegurar maioria parlamentar.

O governo também precisará buscar apoio entre partidos de centro e centro-direita. Essas legendas podem ser decisivas em votações importantes, embora seus parlamentares não necessariamente atuem de maneira uniforme em todos os temas.

Poder do Congresso sobre o Orçamento é outro desafio

Além da composição partidária, Lula terá de lidar com a influência do Legislativo na definição dos gastos públicos. O avanço das emendas parlamentares e das regras que ampliaram a participação de deputados e senadores na destinação de recursos aumentou o peso do Congresso nas decisões sobre o Orçamento federal.

Grizenti chama atenção para esse cenário ao relacionar o poder dos parlamentares sobre os recursos públicos às dificuldades de articulação do governo. Mesmo com Lula na Presidência, a construção de uma base governista terá de considerar a influência do Congresso na distribuição de verbas e na definição de prioridades orçamentárias.

Na prática, as negociações sobre recursos, projetos e interesses regionais podem ser determinantes para garantir apoio. O governo também poderá precisar fazer concessões políticas para reunir votos suficientes, especialmente em propostas que enfrentem resistência da oposição.

Centrão pode definir votações importantes

Com uma base governista sem maioria própria, partidos de centro e centro-direita ganham relevância nas negociações com o Palácio do Planalto. O chamado Centrão reúne legendas com diferentes interesses, que podem apoiar o governo em determinados assuntos e divergir em outros.

Uma das estratégias possíveis para Lula será ampliar o diálogo com essas siglas, negociar espaços na administração federal e construir acordos em torno de projetos prioritários. O desafio será transformar essas negociações em apoio efetivo, sem depender exclusivamente de alianças pontuais.

A oposição, por sua vez, poderá usar sua força parlamentar para alterar propostas, dificultar a tramitação de projetos ou estabelecer prioridades diferentes das defendidas pelo Executivo. O resultado de cada disputa dependerá da capacidade dos diferentes grupos de reunir votos e negociar com parlamentares que não estejam alinhados permanentemente a nenhum dos blocos.

Eleição para comandar Câmara e Senado será decisiva

A relação entre Executivo e Legislativo também será influenciada pela escolha dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Os comandos das duas Casas têm papel importante na definição das pautas, na condução das sessões e no ritmo de tramitação das propostas.

As eleições para essas presidências, previstas para o início de fevereiro de 2027, serão um dos primeiros testes da articulação política do novo governo. O resultado poderá indicar o espaço que Lula terá para negociar com as lideranças parlamentares e a disposição do Congresso para votar matérias de interesse do Executivo.

A construção de uma base governista, portanto, não dependerá apenas da união dos partidos de esquerda. Será necessário estabelecer diálogo com outras bancadas e negociar apoio para cada iniciativa, levando em conta a distribuição de forças e os interesses envolvidos.

Congresso de direita pode impedir Lula de governar?

A força de partidos de direita no Congresso não significa que todas as iniciativas presidenciais serão rejeitadas. O Executivo mantém competências próprias para administrar o governo e implementar políticas dentro das regras vigentes, mas depende do Legislativo para aprovar leis e mudanças que exigem autorização parlamentar.

O grau de dificuldade varia conforme o tipo de proposta. Projetos de lei seguem regras de votação próprias, enquanto uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) precisa ser aprovada em dois turnos, por pelo menos três quintos dos votos, tanto na Câmara quanto no Senado. Esse quórum corresponde a 308 deputados federais e 49 senadores, o que exige uma articulação mais ampla.

A presença de Lula no Executivo pode favorecer a organização e a negociação dos partidos que apoiam o governo, mas não elimina a influência do Congresso sobre o Orçamento e a agenda legislativa.

O desafio do próximo mandato será transformar a vitória presidencial em capacidade de governar. Para isso, Lula precisará conciliar as prioridades apresentadas ao eleitorado com a composição do Congresso, construir alianças e reunir apoio suficiente para cada proposta. A força da oposição será um fator importante nesse processo, mas não determina, isoladamente, o resultado das votações.

 Luiz Inácio Lula da Silva durante evento político; presidente precisará negociar com o Congresso Nacional para avançar na agenda do governo em 2027

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