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24/08/2018 13h10 | Atualizado em 24/08/2018 20h53

Especial Afogados – Sobreviventes contam detalhes da tragédia que parou a Bahia

Especial Afogados – Sobreviventes contam detalhes da tragédia que parou a Bahia

Especial Afogados – Sobreviventes contam detalhes da tragédia que parou a Bahia Foto: arte/César Galvão/Aratu Online
Jean Mendes

“Pedro saiu no seu barco
[…]
Não veio na hora do sol raiar
Deram com o corpo de Pedro
Jogado na praia
Roído de peixe
Sem barco sem nada”.

Parece que Dorival Caymmi já previa, no século passado, as histórias de 19 “Pedros” que se perderam afogadas na Baía de Todos os Santos há um ano. Todas elas estavam na embarcação Cavalo Marinho I, da CL Transportes, que saiu de Vera Cruz com destino a Salvador, mas jamais atracou na capital baiana por conta de um acidente.

24 de agosto de 2017 é uma data que poderia ser apagada da história. Contudo, seria muito simples se fosse assim. Seria encarar a vida como um eterno navegar em mar calmo, esquecendo os contornos e nuances que deixam cicatrizes em todos nós. Apresentamos nesta reportagem dramas contidos nas biografias de pessoas que abriram suas casas  para a nossa equipe e, muito além disso, reviveram memórias que, no final do dia, não podem e não devem ser esquecidas. Memórias que passaram a fazer parte de suas vidas e que ajudam a definir aquilo que, hoje, elas são.

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Ana Paula Monteiro ? A afogada que perdeu um dos seus bens mais preciosos

NADA MUDOU – AUTORIDADES, O QUE FAZER?

Você vai perceber ao longo das entrevistas que, para as vítimas, parece que a tragédia foi ontem. As imagens que marcaram aquele dia rondam as memórias das pessoas que embarcam nas lanchinhas. Hoje, muito da serenidade no semblante de uma maioria que precisa realizar a travessia é reflexo da resignação de quem tem poucas escolhas.

Depois de um ano, o medo continua presente nessas viagens. Nossa equipe de reportagem teve essa constatação quando seguiu de Salvador para Mar Grande, onde foi conversar com os sobreviventes. Uma manhã de sol e condições favoráveis à navegação, certamente, não são mais ingredientes suficientes para uma viagem tranquila. Pelo menos, em um rápido bate-papo com alguns passageiros, deu para notar como é grande a preocupação.

Paulo

Paulo Pimenta, 56 ? O afogado acostumado com tragédias, mas sem protagonismo

MEDO E INSEGURANÇA

Na companhia de uma neta e um casal de bisnetos, Dona Altamira, 68, se acomodava na proa da lancha Costa do Sol, que pertence à empresa CL. Assustada, a pequena Maria Luísa debruçava a cabeça, o tempo todo, no colo da bisavó.

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Dona Altamira com os bisnetos. Foto: Tainá Reis/Aratu Online

?Ela viu tudo que aconteceu pela televisão e agora tem muito medo de viajar?, comentou Luciana, 27 anos, mãe da garotinha. A jovem reside em Salvador, mas acompanha a avó, moradora da ilha, de vez em quando.

Luciana admitiu que depois da tragédia também ficou com muito medo e lembrou que, inclusive, já tinha viajado na embarcação que naufragou. “Não achei que teve melhoria nenhuma. Pra mim está a mesma coisa! A gente entra aqui e ninguém oferece, nem orienta como os coletes devem ser usados?, reclamou.

Contudo, ela explicou que a necessidade de utilizar o transporte se dá pela economia nas despesas. ?Como minha avó mora em Mar Grande, não é preciso pegar uma condução do outro lado pra chegar à casa dela?, mencionou, diante da opção menos arriscada, a do ferry-boat, que faz o desembarque em Bom Despacho.

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Juvenilde Santos, 68 ? A afogada que viu a morte de perto

A bordo da Costa do Sol, identificamos a presença de um ex-gestor do município de Vera Cruz. Antônio Crispim, 70 anos, foi presidente da Câmara de Vereadores e, por força da legislação, exerceu um mandato-tampão, em 2003, quando o prefeito foi afastado do cargo por questões judiciais.

Além de sua vivência política, Crispim é nativo da Gamboa, uma localidade da Ilha, e habituado, desde criança, à vida no mar. Em relação ao acidente foi taxativo. ?Eu e muita gente falava que algo poderia acontecer àquela embarcação, porque ela já não tinha um equilíbrio como essa aqui, por exemplo?, comparou.

O ex-político disse que a empresa Vera Cruz, outra concessionária que realiza a travessia, é mais organizada em relação à CL. ?Não sei como são os contratos delas junto à Agerba [Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Transportes da Bahia]?, pontuou, na intenção de tentar entender a sua observação.

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Antônio foi prefeito e diz que a tragédia era anunciada. Foto: Tainá Reis/Aratu Online

A Cavalo Marinho I foi bastante criticada pelo passageiro. ?A embarcação era muito mal feita. Digo, mesmo sem ser carpinteiro ou engenheiro náutico. É preciso ter mais responsabilidade para cuidar da coisa pública. O povo paga uma passagem relativamente cara pra quem vai e vem todos os dias?, avaliou.

Crispim acrescentou, ainda, que não viu progresso algum do período que aconteceu o acidente pra o que se tem, hoje, em termos de segurança. ?Aqui nessa lancha, as bancadas laterais eram pra ter uma proteção e não têm. Se nós baixarmos algumas dessas bandeirolas que estão aí para fazer a proteção contra a ação do vento e da chuva, vamos perceber que elas deixam muito a desejar?, apontou.

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Jocimeire Santos, 47 ? A afogada que ?se virou? para pagar um aluguel que não podia 

TURISTAS DESCONHECEM A TRAGÉDIA

A travessia feita pelas lanchinhas, apesar de tudo, proporciona a oportunidade de uma navegação atrativa pela Baía de Todos os Santos e é uma forma rápida de se chegar à Vera Cruz e Itaparica, já que a viagem demora 45 minutos.

Por esta razão, não é rara a presença de turistas dentro dessas embarcações. No entanto, apesar de o acidente ter sido noticiado em todo o Brasil e no mundo, muitos deles se habilitam ao passeio desconsiderando a informação.

Em férias na Bahia, o casal paulista Túlio e Natália desconhecia a situação. “Não te afirmo que isso me faria mudar de planos, mas, pelo menos, pesquisaria melhor. Antes de embarcar, a gente verificaria com a Marinha se está tudo ok, porque sei que eles são bem rigorosos”, disse Túlio.

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Casal paulista desconhecia a tragédia. Foto: Tainá Reis/Aratu Online

O visitante, ainda, chamou a atenção para um velho problema. “A legislação não obriga os passageiros a usarem os coletes. Ela só exige que a embarcação tenha um número de assentos limitados e uma quantidade [de coletes] compatível com a lotação”, observou, acrescentando que, em sua opinião, se os usuários da Cavalo Marinho I estivessem com o equipamento, o número de mortos teria sido bem menor.

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Elen Santos, 21 ? A afogada que quase não embarcou por causa de um casaco

A informação sobre o acidente foi, também, surpresa para o francês Batista. Bem tranquilo, ele estava acomodado na proa, protegendo o carrinho onde o seu bebê, o pequeno Samuel, dormia. “Foi em um barco como esse?”, perguntou, em inglês, o estrangeiro, depois de informado pela nossa reportagem sobre o objetivo desta matéria.

Ainda que não esboçasse sinais de medo, quis saber mais. “Quantas pessoas morreram?”. “Acontecem muitos acidentes desse tipo aqui?”. Mesmo assim, Batista afirmou que, se tivesse a informação, não desistiria de fazer o passeio, considerando que o acidente só havia acontecido uma vez na história da travessia.

Esse subtítulo da reportagem especial tinha o questionamento: “o que fazer?”. Os inquéritos da Polícia Civil e Marinha do Brasil, concluídos em meados de 2018, não levaram sequer uma pessoa para a cadeia.

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Fonte: Dinaldo dos Santos, Tainá Reis e Jean Mendes