Fãs do BTS denunciam baiana por possível golpe em compra coletiva de produtos para show; prejuízo ultrapassa R$ 460 mil
Às vésperas dos shows do BTS em São Paulo, centenas de fãs denunciam um possível golpe envolvendo uma compra coletiva de Army Bombs
Por Bruna Castelo Branco.
Às vésperas dos shows do BTS em São Paulo, centenas de fãs denunciam um possível golpe envolvendo uma compra coletiva de Army Bombs, o bastão de luz (lightstick) oficial usado pelo público durante as apresentações do grupo. A organização da chamada CEG (Compra em Grupo) ficou a cargo de uma fã de Salvador identificada apenas como Natália, conhecida nas redes sociais como Bibbikoo.

Segundo as vítimas, cerca de mil pessoas participaram da compra, organizada em abril deste ano. Cada Army Bomb custou, em média, entre R$ 400 e R$ 500, além do frete internacional. Uma planilha disponibilizada pela própria organizadora aponta que ela recebeu mais de R$ 460 mil ao longo da negociação.
Os produtos, no entanto, nunca foram entregues. As participantes afirmam que começaram a questionar a situação depois que as encomendas permaneceram por semanas com o status de “em trânsito”. Natália teria alegado posteriormente que também foi vítima de um golpe aplicado pela vendedora estrangeira, que mora nas Filipinas, responsável pelos produtos. Veja, abaixo, os valores dos produtos apresentados por Natália em abril deste ano:



Até o momento, segundo as vítimas ouvidas pela reportagem, não houve reembolso.
Fãs confiaram na experiência anterior da organizadora
Uma das participantes da CEG é Brenda, de São Paulo, fã do BTS há 11 anos. Este será primeiro show do grupo que ela acompanhará presencialmente.
Ela conta que conheceu Bibbikoo por meio do Twitter, onde a organizadora já teria realizado outras compras coletivas de produtos relacionados ao BTS, como photocards.
“Por se tratar de CEG, as pesquisas normalmente são feitas no Twitter, então as meninas pesquisaram o nome dela e viram que ela já tinha feito CEG de photocards, então confiaram nela para comprar as Army Bombs, apesar de ser uma conta de 2025, ela era ativa, sim”, relatou Brenda.

A confiança inicial fez com que os problemas demorassem a ser interpretados como um possível golpe.
“Então, sobre ser um golpe, demorou um pouco pra gente perceber. Algumas meninas estavam recebendo os produtos, então não gerou nenhuma desconfiança”, afirmou.
Segundo ela, o cenário mudou quando parte das encomendas permaneceu por mais de 40 dias sem chegar. “O problema foi quando essas Army Bombs simplesmente ficaram como ‘em trânsito’ por mais de 40 dias, o que não é normal. Nós perguntávamos e ela dizia que a seller (vendedora estrangeira) estava tomando conta da situação, mas nunca tinha uma comprovação de nada”, detalhou.

Cronograma previa envios e entregas antes dos shows
Mensagens compartilhadas no grupo da CEG mostram que, inicialmente, a organizadora informava aos participantes que as Army Bombs seriam enviadas ainda em junho, quatro meses antes do show.
Em 18 de junho, Natália afirmou que os produtos seriam enviados nos dias 18, 19 e 22. Ela também explicou que havia definido com a vendedora estrangeira o envio de 30 Army Bombs por caixa.
Na ocasião, a organizadora escreveu: “Essa divisão não foi feita de forma aleatória. Eu e minha seller definimos essa quantidade com base na experiência que ela já tem com envios internacionais e na logística que estamos utilizando para essa remessa”.

Ao longo de julho e agosto, novas atualizações foram divulgadas no grupo. Em 20 de julho, Natália afirmou que praticamente todas as caixas estavam em trânsito e manteve a previsão de entrega para julho e agosto.
Ela também escreveu: “Reitero o meu compromisso de acompanhar todo o processo e fazer o possível para que as Army Bombs sejam entregues com segurança. O nosso planejamento continua o mesmo. As entregas seguem previstas para julho/agosto, conforme o planejamento realizado com base nos envios anteriores e nos prazos estimados de transporte. Todos nós queremos receber as Army Bombs para os shows, então o cronograma foi pensado justamente considerando esse objetivo. Neste momento, precisamos aguardar as etapas que dependem da transportadora, da Aduana, Correios e transportadora. Assim que houver qualquer atualização concreta sobre movimentação, chegada ao Brasil, tributação, liberação ou novas postagens, eu aviso vocês por aqui”.
Cobrança de R$ 25 mil aumentou desconfiança
De acordo com Brenda, o momento que provocou maior desconfiança entre as participantes ocorreu quando surgiu uma suposta cobrança de aproximadamente R$ 25 mil. “Até um dia ela aparecer com uma suposta taxa de 25k e dizendo que teríamos que dividir esse valor, todo mundo começou a questionar ela sobre essa taxa”, contou.
Segundo os relatos reunidos pelas vítimas, a justificativa apresentada era de que a vendedora estrangeira recebeu uma cobrança relacionada ao grande volume de produtos enviados simultaneamente.
A quantia seria dividida entre os participantes de determinadas caixas, ficando em torno de R$ 40 a R$ 50 por pessoa.
As participantes passaram a solicitar documentos que comprovassem a cobrança. “Ela dizia que era uma multa que a seller havia tomado por enviar muitos produtos ao mesmo tempo, nós pedimos documentação comprovando e ela apagou a mensagem e disse que a seller arcaria com o custo, entretanto, nós nunca recebemos nenhuma comprovação da existência dessa multa”, afirmou Brenda.
A linha do tempo elaborada por uma das participantes registra que, em 24 de agosto, os integrantes das caixas 16 a 42 foram informados sobre a suposta cobrança. Segundo o relato, prints de conversas teriam sido apresentados, mas nenhum documento que comprovasse o valor teria sido disponibilizado.
Organizadora afirma que é vítima
Após os questionamentos, Natália teria informado que a vendedora estrangeira havia aplicado um golpe contra ela.
Brenda afirma, porém, que a organizadora não respondeu individualmente às participantes: “A justificativa dela foi que ela tomou golpe da seller, mas ela não chegou a responder ninguém, apenas fez um post no Twitter e sumiu, e não, ela não reembolsou ninguém até o momento”.
As vítimas também questionam a sequência de informações apresentadas ao longo dos meses sobre o paradeiro das encomendas. Em diferentes atualizações, a organizadora teria informado que as caixas estavam em trânsito, em processo de liberação ou em análise aduaneira no Brasil.

Pix foi feito para nomes de familiares
Segundo Brenda, as participantes também tiveram dificuldades para identificar os responsáveis pelos recebimentos porque os pagamentos via Pix teriam sido realizados em nomes de diferentes pessoas.
“Sobre o nome dela, a gente descobriu depois que entramos em contato com a seller, e, a partir disso, descobrimos que ela já havia dado golpe outras duas vezes. Como ela usava Pix em nome de familiares, foi difícil descobrir quem ela é”.
Ainda de acordo com Brenda, Natália seria a pessoa responsável pela CEG, mas, após cobranças das compradoras, uma familiar identificado como Cleize se apresentou como responsável pelas operações.
“Ela usava o CNPJ de um familiar chamada Cleize, que se apresentou no grupo como a responsável, mas a própria Bibbi (a pessoa responsável pela CEG) se chama Natalia, entretanto, a Cleize que fica responsável por tudo, como ela mesma disse em áudio que enviou no grupo”.

A vítima afirma ainda que os pagamentos teriam sido direcionados a diferentes nomes: “Pelo que as meninas relataram, foram entre 3 ou 4 nomes de familiares diferentes para quem elas fizeram Pix”.
Essas informações, segundo as fãs, fazem parte de um material que está sendo reunido para uma futura ação judicial. Com a repercussão no X (antigo Twitter), o caso chegou a páginas estrangeiras:
🚨 WARNING TO ALL ARMY: LIGHTSTICK SCAM ALERT 🚨
— Hyeri Services 혜리트레이딩컴퍼니 (@HyeriServices) September 15, 2026
Reports indicate around 900 fans were recently scammed while trying to purchase the Lightstick Ver. 4 from a fraudulent supplier operating between the Philippines and Brazil.
We know everyone is eager to secure their…
Outras compras são alvo de denúncias
As acusações não se restringem às Army Bombs. Participantes afirmam que também tiveram problemas com compras de álbuns, produtos de merchandising e capas para o lightstick.
“Infelizmente, não foi só de Army Bombs, ela deu golpe de álbuns, de merchs e até de capinha para Army Bomb. Tem gente que teve mais de 2k de prejuízo”, disse Brenda.
Segundo ela, o grupo que reúne as vítimas não representa sequer metade das pessoas que teriam sido prejudicadas: “O nosso grupo não tem nem metade das pessoas que tomou golpe, mas é desesperador ver a tristeza das meninas por lá”.
Diante dos prejuízos, as participantes estão reunindo comprovantes de pagamento, conversas e outros documentos relacionados às compras.
“Nós temos todos os comprovantes com relação a essa situação, prints dos Pix, as conversas com ela, as mensagens que ela mandou e, inclusive, a comprovação dela já ter aplicado golpe outras vezes. Tudo isso nós juntamos pensando em um processo”.
Segundo Brenda, parte das vítimas já registrou boletim de ocorrência e contestou os pagamentos junto aos bancos. “As meninas estão se organizando para fazerem um processo coletivo, algumas já fizeram boletim de ocorrência e contestação no banco alegando golpe”.
Fãs correm atrás do prejuízo
Com os shows do BTS se aproximando, algumas participantes conseguiram comprar o acessório em outros lugares. Outras, entretanto, afirmam que não têm condições financeiras para fazer uma nova compra depois do prejuízo.
“E algumas meninas até conseguiram comprar em outro lugar, mas algumas não têm mais condições justamente por conta do golpe”, explicou Brenda.

O Aratu On entrou em contato com Bibbikoo para questionar sobre as denúncias e pedir um posicionamento sobre o caso, mas, até a publicação desta reportagem, não havia recebido resposta. Segundo relatos das vítimas, a última vez que ela, representada por Cleize, falou com as compradoras pelo WhatsApp foi no dia 11 de setembro.
Ouça o útimo aúdio enviado por Cleize para o grupo da CEG:
Os shows do BTS no Brasil acontecem nos dias 28, 30 e 31 de outubro no estádio Morumbis, em São Paulo, e, até então, as quase mil fãs prejudicadas continuam sem respostas — mas sabem que isso está longe de acabar. Ou, como diz J-Hope, do BTS, no último verso de "Come Over": "It's not over".
O que é Army Bomb?
A Army Bomb é o bastão de luz oficial (lightstick) usado pelos fãs do BTS. Uma Army Bomb oficial do grupo (geralmente a Versão 4 / Special Edition) custa entre R$ 650 e R$ 900 no Brasil, já considerando as taxas de importação, frete internacional e o lucro de lojistas especializados em K-pop que revendem o produto no país. Oficialmente, o produto é vendido no loja do Weverse, plataforma da Hybe Corporation, empresa responsável pelo gerenciamento e negócios do BTS.
Veja vídeo:
Durante os shows, o acessório se conecta via Bluetooth ao sistema do evento, permitindo que a produção controle as cores de todas as luzes do estádio em conjunto, criando efeitos visuais que acompanham as músicas.
Na moeda original ou comprada presencialmente lá na Coreia do Sul, a lightstick sai por volta de ₩ 40.000 a ₩ 50.000 (cerca de R$ 180 a R$ 200), mas o valor final sobe quando a gente adiciona o frete de importação da Coreia para o Brasil e os impostos alfandegários, chegando a R$ 900.

Como funciona uma CEG?
Organização: uma pessoa responsável, chamada de GOM (Group Order Manager ou Gerente de Pedido em Grupo), organiza a compra dos objetos — muitas vezes vindos da Coreia do Sul ou de outros países.
Divisão de produtos: o GOM compra um lote grande ou um conjunto completo de objetos e repassa para os participantes do grupo.
Custos compartilhados: o valor do frete internacional e eventuais impostos de importação são divididos proporcionalmente entre todas os participantes.
Siga a gente no Insta, Facebook, Bluesky e X. Envie denúncia ou sugestão de pauta para (71) 99940 – 7440 (WhatsApp).