Fim da escala 6x1? Veja como funciona a jornada de trabalho pelo mundo
França, Alemanha, Japão e China adotam regras distintas para a carga horária semanal
Por Isabela Cardoso.
A jornada de trabalho varia entre países conforme a legislação, os acordos coletivos e as práticas de cada mercado. Enquanto algumas nações adotam limites legais menores, outras convivem com longos expedientes e horas extras frequentes.

No Brasil, a discussão sobre a redução da carga horária voltou ao centro do debate com a proposta de acabar com a escala 6x1. Nesta quarta-feira (14), o Senado analisa uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso e sem diminuição salarial. A proposta também prevê uma transição gradual para o novo limite.
A discussão brasileira acompanha um debate presente em diferentes partes do mundo: como organizar o tempo de trabalho, garantir períodos de descanso e atender às necessidades das empresas sem ampliar excessivamente a jornada dos trabalhadores.
Brasil: jornada de até 44h e debate sobre a escala 6x1
No Brasil, a jornada normal de trabalho prevista na Constituição é de até oito horas diárias e 44 horas semanais, ressalvadas regras específicas para determinadas categorias. A distribuição pode ocorrer em cinco ou seis dias, conforme o regime de trabalho e as normas aplicáveis.
A escala 6x1, em que o trabalhador atua por seis dias e folga um, tornou-se um dos principais pontos de discussão sobre a organização do trabalho no país. A PEC em análise no Senado prevê a adoção de uma jornada de até 40h semanais e dois dias de descanso remunerado, sem redução de salário.
A proposta não significa que todos os trabalhadores brasileiros cumpram atualmente a mesma escala. A jornada efetiva depende da atividade, do contrato, de acordos coletivos e das regras específicas de cada profissão.
América Latina reduz jornadas em etapas
Os países latino-americanos adotam caminhos diferentes para definir o tempo de trabalho. Em alguns, a redução da jornada ocorre de forma gradual, com prazos estabelecidos em lei para que empresas e trabalhadores se adaptem às novas regras.
No Chile, o limite semanal caiu de 45 para 44 horas em 2024 e passou a 42 horas em 26 de abril de 2026. A legislação prevê uma nova redução para 40 horas em 2028. A mudança é implementada de forma progressiva, com regras para distribuir as horas reduzidas ao longo da semana.
No México, uma reforma publicada em 2026 estabeleceu um cronograma para reduzir a jornada semanal de 48 para 40 horas até 2030, sem diminuição dos salários. A transição prevê limites de 46 horas em 2027, 44 em 2028 e 42 em 2029, antes de chegar às 40 horas em 2030.
Esses exemplos mostram que a redução da jornada não precisa ocorrer de uma só vez. O calendário de implementação e as regras de transição são definidos pela legislação de cada país.
França tem jornada legal de 35h semanais
A França é uma das referências internacionais quando o assunto é jornada reduzida. Desde 2000, a duração legal do trabalho em tempo integral para empregados adultos do setor privado é de 35 horas semanais.
Esse limite não impede a realização de horas extras, desde que sejam respeitadas as regras aplicáveis. Por isso, a jornada legal não deve ser confundida com o total de horas que todos os trabalhadores efetivamente cumprem.
Na União Europeia, as normas gerais estabelecem que o tempo médio de trabalho não deve ultrapassar 48 horas por semana, incluindo horas extras. A legislação europeia também prevê períodos mínimos de descanso diário e semanal e pelo menos quatro semanas de férias anuais remuneradas.
Alemanha combina limites de jornada e períodos de descanso
Na Alemanha, a legislação estabelece regras para limitar a duração do trabalho e proteger a saúde dos empregados. O sistema considera a jornada diária, os intervalos e os períodos de descanso entre expedientes.
A organização do tempo de trabalho também pode variar conforme a atividade, os acordos coletivos e as regras específicas de cada setor. Assim, a carga horária contratual nem sempre corresponde a um único padrão para todos os trabalhadores do país.
Estados Unidos: hora extra após 40h, mas sem férias federais obrigatórias
Nos Estados Unidos, a legislação federal não estabelece um limite geral que proíba jornadas superiores a 40 horas semanais. Para trabalhadores abrangidos pelas regras de horas extras, o trabalho que ultrapassa 40 horas em uma semana deve ser remunerado com adicional de pelo menos 50% sobre a taxa regular.
O país também não possui uma lei federal que obrigue todos os empregadores a oferecer férias anuais remuneradas. Esse benefício depende de políticas empresariais, contratos e, em determinadas situações, de regras estaduais.
A diferença em relação a países que garantem férias remuneradas por lei mostra que a comparação entre jornadas exige observar não apenas as horas trabalhadas, mas também os direitos associados ao descanso.
Japão e Coreia do Sul enfrentam desafios com horas extras
No Japão, a jornada legal padrão é de oito horas diárias e 40 horas semanais. A legislação permite horas extras sob condições específicas, com acordos trabalhistas e limites previstos nas normas do país.
Apesar do limite legal, o país é conhecido pelo debate sobre expedientes prolongados e pela pressão profissional em determinados ambientes de trabalho. O desafio é fazer com que as regras de proteção sejam cumpridas também na prática.
Na Coreia do Sul, a jornada regular é de 40 horas semanais, e o limite geral, incluindo horas extras, pode chegar a 52 horas. A regra busca restringir expedientes excessivos, embora a aplicação varie conforme as condições de trabalho e as exceções previstas na legislação.
China e a escala 996: jornadas de até 72h
A China tem um limite legal de oito horas diárias e uma média de 44 horas semanais. Ainda assim, parte dos trabalhadores enfrenta jornadas extensas, especialmente em determinados segmentos da economia.
Um dos exemplos mais conhecidos é a chamada escala 996, expressão que descreve o expediente das 9h às 21h, seis dias por semana, totalizando 72 horas. O modelo ganhou notoriedade em empresas de tecnologia e startups.
A prática foi declarada ilegal por tribunais chineses em 2021, mas a aplicação das regras continua sendo um desafio. Em 2025, os trabalhadores de empresas no país registraram uma média de 48,5 horas de trabalho por semana, segundo dados oficiais chineses.
A média registrada supera a jornada legal padrão e indica a distância que pode existir entre as regras formais e a rotina de parte dos trabalhadores.
Jornada legal não é o mesmo que jornada efetiva
Comparar a carga horária entre países exige distinguir três aspectos: o limite estabelecido em lei, a jornada prevista no contrato e o número de horas realmente trabalhadas. Horas extras, acordos coletivos, diferenças entre setores e condições de fiscalização podem alterar a experiência de cada profissional.
Também é necessário considerar férias, descanso semanal e remuneração adicional. Um país pode estabelecer um limite semanal menor, mas isso, isoladamente, não permite concluir que todos os seus trabalhadores tenham jornadas mais curtas ou melhores condições profissionais.
No Brasil, a discussão sobre o fim da escala 6x1 coloca essas questões em evidência. A proposta em análise no Senado busca reduzir a jornada semanal e ampliar o descanso, enquanto a experiência internacional mostra que mudanças desse tipo podem seguir diferentes calendários e modelos de implementação.
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