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02/02/2015 00h21 | Atualizado em 01/02/2015 15h10

Museu do Pontal recebe primeira obra permanente de OSGEMEOS no Rio de Janeiro

Museu do Pontal recebe primeira obra permanente de OSGEMEOS no Rio de Janeiro

Da Redação

Por fora parece uma cápsula de sobrevivência em épocas de guerra. Quando a porta se abre, é exatamente isso: é revelada uma escultura em tamanho natural de um personagem melancólico pela situação em que se encontra, com suas anotações e desenhos nas paredes da cela. Em tempos de especulação imobiliária, faz um convite à reflexão para a resistência artística.

Essa é a obra O Bunker, da dupla Gustavo e Otávio Pandolfo, conhecida como OSGEMEOS, e reconhecida nacional e internacionalmente pelo trabalho colorido e expressivo do universo lúdico e imaginário iniciado com o grafite em São Paulo. Entre os trabalhos recentes dos irmãos estão a participação na Bienal de Vancouver e a pintura do avião que transportou a Seleção Brasileira durante a Copa do Mundo.

O Bunker é o primeiro trabalho de arte contemporânea instalado no Museu Casa do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio de Janeiro, especializado em arte popular e com um acervo tombado pela prefeitura do Rio de Janeiro que tem 8.500 peças de 200 artistas brasileiros.

A instalação d’OSGEMEOS no Museu do Pontal foi aberta ontem. A obra O Bunker tem 20 toneladas de concreto e foi feita a convite da Casa do Pontal para integrar o acervo permanente do museu. De acordo com os irmãos, o trabalho deles tem muita ligação com a arte popular brasileira.

?Isso de trabalhar nas ruas, de pegar as tintas e ir fazer, se deparar com artistas que não tem nem um nome, mas faz a mesma coisa. O cara que tem a necessidade de se expressar, não por ser famoso ou estar numa galeria. Nós vimos no museu essa energia que tem aqui, dessa necessidade espiritual de se expressar. A gente veio aqui e se sentiu em casa, a nossa casa parece esse museu, de tanta coisa que a gente coleciona?, disseram os artistas.

Sem identificar quem é Otávio e quem é Gustavo, os dois falam como se fossem um, ?eu penso e ele fala?, brincam, da mesma forma que trabalham totalmente integrados em um fluxo criativo único. OSGEMEOS explicam que O Bunker foi pensado como uma forma de resistência artística em meio à tomada das redondezas por várias obras de enormes prédios residenciais, colados ao museu.

?A primeira vez que a gente veio não tinha esses prédios ainda, depois viemos e vimos os prédios, é assustador. Quando a gente se ligou no que estava acontecendo, o processo criativo, foi tudo muito rápido. A gente nunca viu bunker no Brasil, porque a gente não tem guerra, apesar de muitas vezes parecer que estamos em uma. Isso aqui [o Museu do Pontal] é uma história, muita criança não sabe quem foi Mestre Vitalino. É muito importante preservar isso aqui?, dizem.

Os irmãos dizem que não gostam de rótulos para a arte e separações entre, por exemplo, grafite e arte popular. Para eles, tudo é arte e a arte tem o poder de mudar a sociedade.

?Vocês [o museu] estão nessa guerra tentado preservar isso aqui, e vão conseguir. O Bunker representa isso. A arte tem o poder de mudar tudo, a gente acredita na força da arte para vencer a guerra. Não é possível que se construa um prédio a um metro do museu, rachando o museu inteiro. O Bunker é uma forma de aletar o que nós temos aqui. É como se fosse um templo que alertasse as pessoas para a reflexão sobre a arte popular brasileira, os artistas, a arquitetura, prédios históricos que ficam abandonados. É importante a gente entender que isso faz parte de uma cultura e marcou uma época?.

A curadora do museu, Angela Mascelani, destaca o papel transformador da arte e diz que O Bunker será a primeira instalação permanente da dupla no Rio de Janeiro. ?A ideia de realizar essa parceria com OSGEMEOS foi a de trazer para o debate o papel transformador da arte e sua capacidade de mudar formas de ver e de antecipar questões. No caso, OSGEMEOS trazem para o Museu Casa do Pontal uma proposta intencionalmente crítica. Confrontá-la com a arte popular, que nasce na transição do rural para o urbano, é uma forma de discutir a cidade?.

Quanto à ocupação no entorno do museu e riscos de inundação no local, Angela diz que a situação está sendo acompanhada com atenção. ?Nossa atuação é preventiva. Nós trabalhamos com planejamento e por isso antecipamos questões de forma a conseguir resolvê-las a tempo. Buscamos uma saída e confiamos que ela será encontrada?.

Aberto há 35 anos, o Museu Casa do Pontal recebe cerca de 40 mil visitantes por ano, metade desse público de estudantes e 25% de estrangeiros. O local funciona de terça-feira a sexta-feira de 9h30 às 17h, e aos sábados, domingos e feriados entre 10h30 e 18h. O ingresso para a exposição permanente custa R$ 10, mas a obra O Bunker ficará nos jardins, com visitação gratuita.

Fonte: Agência Brasil