Mistério em Cemetery Road falha por não conseguir manter ritmo e roteiro inteligente inicial
Sem dúvidas, é um luxo poder acompanhar uma série com Emma Thompson, uma exímia artista, formada em literatura, que domina os palcos e as telas há mais de 40 anos. A presença de Thompson pode ser um motivo inicial para o público iniciar a série O Mistério de Cemetery Road e uma certeza de que algo bom estará presente na produção.
Obviamente, essa qualidade da intérprete se confirma desde a sua primeira aparição no ecrã, porém a obra é boa? A resposta é: inicialmente, sim. Com uma atmosfera que mistura histórias de Agatha Christie com Doctor Who, a ambientação dos primeiros quatro episódios da trama são firmes. Até o momento que Sarah Trafford (Ruth Wilson) está no comando da sua jornada e investiga a explosão em seu bairro, o roteiro permanece coerente.
No entanto, diversos subplots de personagens coadjuvantes são inseridos e a personalidade da protagonista, Sarah, perde-se. De uma mulher curiosa, inteligente, firme e um pouco atrapalhada, ela passa a ser somente a última característica. Já Zoë Boehm (Thompson), não ganha contorno algum. Aos poucos, a série se torna entediante porque ao invés de explorar cada vez mais as características das figuras dramáticas, elas são cada vez menos investigadas.
Ao mesmo tempo, a trama principal é esgarçada e os vilões começam a parecer trapalhões. Na realidade, essa é a grande questão do seriado, entre trazer momentos trágicos e cômicos, a graça ganha um peso maior e o impacto dos assassinatos e a curiosidade em desvendar o mistério diminui, por isso. Além disso, a própria direção vai ficando “preguiçosa”.
Gradualmente, a decupagem se transforma de refinada em confusa. Isto porque as marcações do elenco em cena, a planificação e a luz são, no início da temporada, o que não acontece em todos os episódios. À princípio, as temperaturas e texturas elevam o clima de suspensão, com muitos tons amadeirados, que passam uma impressão sensorial, inclusive.
O espectador quase sente o cheiro de móveis de escritório de detetive, por exemplo. Essa riqueza de detalhes e de atenção à mise-en-scène é o que faz o princípio da série ser instigante. Inclusive, a maneira como ocorre a morte de Joe (Adam Godley) é corajosa e até disruptiva, porque ele parece o braço direito de Sarah e o ponto de humanidade de Zoë.
Mas, essa é uma reviravolta não aparece apenas para impactar e seus resultados somem, este é um elemento que realmente mexe com o destino dos papéis principais do enredo e que vai impulsionar o caso criminal para frente. Neste sentido, as atuações de Thompson e Wilson carregam boa parte da qualidade da obra.
É bem provável que o consumidor veja tudo até acabar apenas para desfrutar do trabalho da dupla. Assim, O Mistério em Cemetery Road vale mesmo para quem for fã de Emma Thompson e/ou Ruth Wilson ou para quem seja obcecado com histórias de detetive. Caso contrário, é melhor que a plateia selecione outra produção, ainda mais na contemporaneidade, na qual existem tantas opções na “prateleira”.
*Este material não reflete, necessariamente, a opinião do Aratu On
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