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Premiada série da Netflix, 'O Monstro em Mim' impacta pela qualidade da protagonista

Enoe Lopes Pontes
Colunista On: Enoe Lopes PontesPesquisadora, jornalista e crítica de cinema e séries
Série O Monstro em Mim, da NetflixDivulgação/Netflix

Em uma trama na qual a tensão é trabalhada progressivamente, o público consegue ter tempo de conhecer e refletir sobre a personalidade de cada personagem. É assim que "O Monstro em Mim" estabelece mocinhos e vilões, mas inserindo tantas nuances que a série se torna instigante. Existe um parâmetro aqui, no qual duas pontas de caráter são estabelecidas.

De um lado, existe Shelley (Natalie Morales), a ex-esposa da protagonista, Aggie Wiggs (Claire Danes). Do outro, Nile Jarvis (Matthew Rhys). No meio, entre eles, existem diversos tipos de caráter sendo representados. Até Aggie, com todo senso de justiça e moral, escorrega durante sua jornada de heroína.

Nesse sentido, as ações de cada figura dramática podem ser questionadas por quem assiste, criando teorias de fãs, pois elas teriam o potencial de interferir diretamente nos crimes trazidos pelos autores. É difícil confiar nas ações dos coadjuvantes e do antagonista, quando todos se desdizem e fomentam os nós da narrativa.

Dentro dessa lógica, um grande destaque, para que essa estratégia surta efeito, é a presença de Martin Jarvis (Jonathan Banks). Seja pela atuação de Banks ou pela própria maneira como sua personagem foi escrita no roteiro, Martin entrega mais complexidade ao enredo. Ele performa um pai corrupto, sem escrúpulos, mas que não é um psicopata, como seu filho.

Para convocar essa composição para a cena, Banks trabalha nas suas retenções. Um traço que já é clássico em suas interpretações é a forma como ele profere, em tom baixo e suave, barbaridades. Essa característica está posta em seu Martin. Mas, aqui, o que ele traz a mais é a postura corporal tensa e as expressões faciais de choque.

Este homem, que é uma péssima pessoa, possui um limite. Em termos de enredo, a figura de Martin catapulta a impressão que o espectador tem de Nile. Ele vai além de um homem branco, rico e mimado; ele é doente e sem horizonte algum para o segurar. São nessas bifurcações de caráter e saúde mental – o luto de Aggie e Shelley é um exemplo – que o seriado pauta a sua elaboração de suspensão.

Nessa lógica, a grande estrela da produção é, de fato, Claire Danes. Ainda que quase todo o elenco esteja afinado, Danes vai além com seu papel. Os tons que a atriz dá ao seu texto são especiais porque criam níveis de emoções plurais. Aggie demonstra coragem e medo, tristeza e alívio, saudosismo e fúria em poucos segundos, no rosto, na voz e no corpo.

Em diversas sequências, para realizar tal intento, Claire diz algo com a tonalidade vocal e imprime outro sentimento com a face. Dessa forma, sua Aggie sempre cria uma vantagem em relação aos que a cercam – porque tem dicotomia de sentidos em suas expressões –, porém, ao mesmo tempo, entrega vulnerabilidade. Por esse motivo, o que Claire Danes faz nesta obra é genial.

Contudo, nem só de resultados incríveis vive "O Monstro em Mim". A figura de Madison Ingram Jarvis (Leila George) é equivocada. A atriz não consegue demonstrar verdade em sua fala e, muito menos, em suas movimentações e construção de partituras. Leila revela esforço, mas um esforço extremamente visível.

Quando isso ocorre com um ator, geralmente, é porque ele não está pensando e agindo em relação às verdadeiras intenções daquela personagem. De qualquer jeito, com uma equipe tão coesa e boa, as falhas de Leila ficam mais aparentes. Todavia, a direção ajuda a aliviar a vergonha alheia que Ingram Jarvis passa quando está atuando.

Através do uso de ângulos e tipos de enquadramento é que a decupagem transmite os veredictos das sequências. Mais do que utilizar movimentação, o jeito como o elenco é filmado é que define as respostas de cada mistério. A angulação retrata quem está em vantagem dentro da história.

Além disso, toda a espetacularização que Nile faz para abafar a sua psicopatia fica mais nítida. Para elevar ainda mais as ideias dos diretores, as equipes de arte e fotografia subvertem, de leve, a ideia de luz quente e fria, deixando que Aggie domine as temperaturas azuladas e as sombras.

É quase como se os privilégios do patriarcado branco fossem escancarados em formato de cores na tela. Há luminosidade e calor estampados em Nile, mas seu poder esconde seus crimes. Há melancolia e sentimento de impotência em Aggie, porém ela procura abafar essas emoções.

Assim, os elementos de "O Monstro em Mim" estão coordenados e funcionam elegantemente para contar esta história. Talvez o único reparo necessário para uma maior qualidade de seu resultado final fosse cortar algumas cenas. O tensionamento se esvai um pouco, porque algumas questões se estendem demasiadamente.

Um exemplo é a relação do agente Brian Abbott (David Lyons) com a detetive Erika Breton (Hettienne Park). Porque, além de adiar o desenlace da trama, são situações que não elevam o potencial do enredo. Essas extensões deixam a série mais cansativa, e seria melhor se a temporada tivesse seis episódios. Mas, ainda assim, "O Monstro em Mim" é um bom título da Netflix (algo cada vez mais raro para a plataforma).

Confira o trailer abaixo:

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Enoe Lopes Pontes

Enoe Lopes Pontes

Doutora e mestre em Comunicação, formada em Artes Cênicas e em Comunicação Social, Enoe Lopes Pontes é pesquisadora, jornalista e crítica de cinema e séries. É membro da ABRACCINE e do Coletivo Elviras. Cinéfila desde os 6 anos, sempre procurou estar atenta a todo tipo de produção, independentemente do gênero, classificação ou fama. Do culto ao pipoca, busca observar as projeções com cuidado e sensibilidade. Filmes preferidos: Hiroshima Mon Amour e Possession.

Enoe integra a equipe do Coisas de Cinéfilo , como crítica.

Instagram: @enoelp

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