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A Bahia é o câncer do Brasil? O mau caratismo de Rodrigo Constantino é uma doença

Essa terra é berço de Rui Barbosa, Castro Alves, Jorge Amado, Glauber Rocha, João Gilberto e do geógrafo Milton Santos. E foi essa patológica unidade da federação que deu ao Brasil a sua primeira santa nascida no país, Irmã Dulce, canonizada em 2019.

Por Pablo Reis.

A Bahia é o câncer do Brasil? O mau caratismo de Rodrigo Constantino é uma doençaPromptgrafismo: Matheus Carvalho

“A Bahia é o câncer do Brasil.” A frase poderia ter sido dita em uma mesa de bar, mas foi pensada, proferida, gravada e, finalmente, publicada por alguém que se apresenta como economista, comentarista, escritor e jornalista. Está em um video vomitado no perfil de Rodrigo Constantino, poucas horas depois da apuração de domingo. Ele vai além e classifica Salvador como “um lixo”. Os baianos, ressalvadas as “boas exceções”, seriam uma vergonha para o país. Nós, os baianos sujos, abjetos, ignorantes, primitivos…

O motivo declarado está nas urnas. Jerônimo Rodrigues foi reeleito governador no primeiro turno, com mais de 55% dos votos válidos. Jaques Wagner e Rui Costa ficaram com as duas vagas da Bahia no Senado. O governador já prometeu providência na Justiça. De quebra, supostamente, esses votos todos no PT, e em Lula (mais de 5,6 milhões aqui no estado), determinaram que o Bolsonaro da vez não ganhasse a presidência em 1° turno. Pobre, Constantino.

O direito à crítica

Convém separar o joio do trigo, porque aqui há trigo. Criticar o voto de um povo é direito de qualquer um. Com essa reeleição, o PT chega ao sexto mandato seguido no governo da Bahia, num ciclo aberto por Wagner em 2007. Há quem veja nisso fadiga democrática, e o argumento é legítimo: alternância de poder costuma fazer bem à saúde de qualquer instituição: da governadoria, ao cargo de síndico do prédio.

Só que Constantino não criticou a escolha. Ofendeu quem escolheu. E aí mora uma ironia. Salvador, o tal lixo, deu vitória a ACM Neto. A cidade que ele xingou votou contra o governador que ele critica.

Mais de três milhões e seiscentos mil baianos optaram por ACM Neto. Com habilidade de hermenêutica de um orangotango, Constantino transforma esse contingente numa nota de rodapé: “boas exceções”. É um inédito e curioso modo de defender seu posicionamento ideológico: insultando o eleitor da oposição junto com o do adversário, no mesmo pacote e pelo mesmo preço. Constantino: “jênio”…

Eu já cheguei a ler e até assistir conteúdos produzidos por ele. Talvez, se antes tivesse percebido que o formador de opinião utiliza argumentos tão convincentes, teria me vacinado antes. A prova apresentada, ele mesmo chamou de “evidência anedótica”: gente num bar, numa cidade do interior, numa segunda-feira, às 11h30 da manhã, com violão e cerveja. Nenhuma vergonha sobre esta faceta da Bahia. Apenas não dá para chamar isso de toda A Bahia. 

O cidadão veio a uma feira literária e voltou falando de cerveja. É como visitar o Louvre e só lembrar da longa fila para ver a Monalisa. Um economista sabe, ou deveria saber, que uma mesa de bar não é amostra estatística. É, no máximo, um “regue”, uma “agoniazianha, um “frete”. Constantino, no máximo respeitinho aí, desce aí a saideira…

Vamos a algumas outras “evidências anedóticas”, então. O primeiro petróleo do Brasil jorrou em Lobato, aqui em Salvador, em 1939. A primeira escola de Medicina do país nasceu aqui, em 1808, menos de um mês depois da chegada da corte portuguesa. Foi na Bahia que a Independência deixou de ser só um grito e virou vitória, no Dois de Julho de 1823.

Essa terra é berço de Rui Barbosa, Castro Alves, Jorge Amado, Glauber Rocha, João Gilberto e do geógrafo Milton Santos. O Terreiro da Casa Branca foi o primeiro templo de matriz africana tombado como patrimônio nacional, em 1984. E foi essa patológica unidade da federação que deu ao Brasil a sua primeira santa nascida no país, Irmã Dulce, canonizada em 2019.

Isso não é prontuário de tumor. É atestado de vitalidade para boa parte daquilo que o Brasil chama de seu.

A democracia do espelho

No fim, o vídeo não parece muito retratar a Bahia, nem mesmo uma Bahia particular, vista pelo olhar sorumbático de um homem que diz estar exilado da pátria, vivendo nos EUA desde 2015 (com passaporte brasileiro cancelado desde 2022). É sobre uma ideia de democracia em que o voto só vale quando confirma a própria opinião. Quem só respeita a urna quando vence não respeita a urna. Respeita o espelho. No caso dele, imagino que tolera o espelho.

Mas o mais grave não é a grosseria, que tangencia xenofobia, preconceito, crime mesmo. A Lei 7.716, de 1989, pune a discriminação. O próprio Constantino adiantou a auto acusação de xenofobia no vídeo e disse não se importar. Quem já antecipa o diagnóstico costuma conhecer os sintomas.

O mais grave é a palavra escolhida. A ensaísta americana Susan Sontag, que também enfrentou o câncer, escreveu em 1978 um livro sobre isso: A doença como metáfora. O alerta dela: quando a política chama alguém de câncer, está abrindo a porta para a violência. Sontag lembra que a propaganda nazista comparou os judeus da Europa a um câncer a ser eliminado.

Porque câncer não se convence. Extirpa-se. Quem trata o eleitor adversário como tumor não está promovendo debate. Está requisitando um bisturi.

Uma última informação, que não é detalhe. Rodrigo Constantino enfrenta, desde o início de 2025, um linfoma raro e agressivo. Passou por quimioterapia e transplante de medula nos Estados Unidos, onde vive.

A resposta da Bahia não pode ter o mesmo rancor do vídeo. Desejamos, sinceramente, que ele se recupere.

Até porque a santa que esta terra deu ao mundo passou a vida cuidando de enfermos e acamados. E Irmã Dulce nunca - nunca mesmo - perguntava aos seus doentes em quem eles tinham votado.

 

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