‘VIDA QUE SEGUE’: Após um ano, familiares tentam superar a dor da tragédia da Chapecoense

‘VIDA QUE SEGUE’: Após um ano, familiares tentam superar a dor da tragédia da Chapecoense

‘VIDA QUE SEGUE’: Após um ano, familiares tentam superar a dor da tragédia da ChapecoenseAratu Online

29 de novembro de 2016… terça-feira, 0h55, o voo CP-2933 da empresa boliviana LaMia cai no morro El Gordo, a 35 quilômetros do aeroporto de Medellin, na Colômbia. A bordo, estavam 68 passageiros e nove tripulantes de um voo charter contratado pela Associação Chapecoense de Futebol. A equipe, do interior do catarinense, acabava de realizar uma façanha: ia disputar a final da Copa Sul Americana contra o Atlético Nacional.

A partida nunca aconteceu…

A história ganhou um novo capítulo – e triste – a partir daquele momento. Um ano após a tragédia, que fez o mundo ‘chorar’, parentes das vítimas tentam se recuperar e seguir a vida, na medida do possível.

Para amenizar a dor que ainda se mostra latente, a ex-noiva de Artur Maia resolveu, por exemplo, prestar solidariedade ao próximo. Fernanda Abreu criou um projeto em homenagem ao meia alagoano, que começou a carreira no Vitória e estava na equipe catarinense por empréstimo.

Em seu instagram, Fernanda exibe com orgulho o “amor sobrenatural, que consegue ser ainda maior e mais forte!”

Chamado de Caminhando com Maia (@caminhandocommaia), o projeto é utilizado para ajudar instituições de caridade “com ações e qualquer manifestação cujo objetivo seja levar amor, alegria e quaisquer que sejam as necessidades existentes sejam elas materiais, afetivas, se entregar ao amor apenas”.

“Não existe forma melhor de eternizar o meu guerreiro que não seja essa, transformando dor em Amor, tristeza em alegrias e é essa a vontade dele, que eu espalhe o nosso amor, então que seja feita a sua vontade, irei espalhar de todas as formas, mesmo com toda a dor que existe no meu coração, mas ainda assim o nosso amor e missão é maior que tudo e será feito (sic.)”, diz Fernanda em um post, publicado no perfil oficial do projeto.

É o logotipo do projeto, que já possui pouco mais de 920 seguidores

Superar a ausência de Maia não é uma tarefa fácil. Afinal, o destino parecia conspirar a favor do casal. Com negociação acertada para o futebol japonês, o casamento já tinha data marcada: 22 de dezembro de 2017. Mas o sonho foi interrompido pelo acidente aéreo da Chapecoense.

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As postagens de Fernanda ganham coro no discurso do lateral esquerdo Ávine. Revelado pelo Bahia, o jogador ainda se mostra bastante fragilizado com a tragédia que abalou o país e vitimou um dos seus melhores amigos, o meia Ananias, 27 anos. “Ficaram as boas lembranças”, disse de forma sucinta.

A dupla foi criada e revelada na base do Bahia. Em 2010, o momento mais marcante dos dois amigos em campo: o acesso tricolor à Série A, após sete anos de calvário na segunda divisão. No filme/documentário ?Bahêa Minha Vida?, lançado em 2011, os dois jogadores aparecem juntos mostrando os bastidores do clube.

VEJA O VÍDEO:

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Nascido em São Luis, no Maranhão, Ananias foi revelado na base do time do Bahia e nutria pelo clube grande identificação, motivo pelo qual a cremação foi em Salvador. O jogador, que estava na Chapecoense desde 2015, deixou uma mulher e um filho. Bárbara Calazans Monteiro conta que está fazendo terapia, assim como o filho, para tentar lidar com perda do seu grande amor.

?Atrás do atleta Ananias, existia um ser humano exemplar, pai maravilhoso, marido, muito bom caráter. Um menino que saiu de casa em busca de um sonho, alcançou, conquistou respeito, admiração. A ausência do meu grande amor, pai, ser humano é devastador”, diz.

INSPIRAÇÃO

Apesar de “já ter falado muito a respeito” e agora “preferir o silêncio”, o ex-jogador Preto Casagrande enalteceu a memória do primo e ex-técnico Caio Junior, mais uma vítima da tragédia.

Quando assumiu o comando do Bahia em agosto deste ano, Preto revelou se inspirar no trabalho do paranaense, que já tinha acumulado passagens pelo comando da dupla Ba-Vi.

“Uma referência de vida para mim era o Caio Júnior. Meu primo, que eu tinha muita admiração, que eu aprendia muito nas conversas quando ele frequentava minha casa, dos treinamentos. É um cara que eu guardo com muito carinho, de tudo aquilo que ele me passou. É um dos caras que eu gosto de referenciar, porque é um anjo que a família tem. Sempre foi um cara exemplo”, afirmara Preto, atualmente auxiliar técnico de Paulo Cesar Carpegiani.

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Viúva do zagueiro William Thiego de Jesus, que teve passagem pelo Bahia, Suzi Ribas revelou ao portal UOL como a filha, a pequenina Nina, de 5 anos, tem falado sobre ausência do pai. “Esses dias, ela disse: ‘mãe, enterramos o pai e os passarinhos levaram para o céu'”, contou Suzi, que sacramenta: ” A saudade é imensa, não tem tamanho”.

Natural de Xique-Xique, no centro-norte da Bahia, o volante Sérgio Manoel, 27 anos, também, morreu no fatídico acidente. Solteiro e sem filhos, Sérgio era o filho do meio entre três irmãos.

Apesar de ser baiano, nunca jogou em um clube local. Saiu de casa aos 17 anos para iniciar a carreira no Nacional, de São Paulo. Jogou em times do interior paulista, passou ainda por Paysandu, Atlético-GO e Coritiba antes de chegar à Chapecoense, no início de 2016. Ele foi enterrado na cidade de Itapevi, no interior de São Paulo.

No elenco do time catarinense, ainda acumularam passagem pelo futebol baiano e morreram: o meia Cléber Santana e o volante Gil. Ambos atuaram pelo Vitória. Além deles, o ex-jogador Mário Sérgio, ídolo do Leão, também estava no voo. Ele era comentarista da TV Fox Sports e viajava para fazer a transmissão da final.

O jogador Demerson, que já atuou no Bahia, também faz parte do elenco da Chapecoense, mas não foi relacionado para a partida e ficou treinando na cidade de Chapecó.

INVESTIGAÇÃO

Em Santa Cruz de la Sierra continua a investigação para descobrir quem foram os culpados pela tragédia. Segundo o jornal boliviano “El Deber”, investigação do Ministério Público da Bolívia arrolou cinco pessoas como culpadas, mas a apuração ainda não foi encerrada.

São elas: Gustavo Vargas Gamboa, ex-gerente da LaMia; Joons Teodovich, ex-funcionário da Aasana; e o filho de Vargas, Gustavo Villegas, que chefiou o Registros de Licenças da DGAC (Direção Geral de Aeronáutica Civil).

Outros dois implicados são Marco Antonio Rocha, co-proprietário da LaMia; e Celia Castedo, a funcionária da Aasana que reviu o plano de voo da aeronave entre Santa Cruz de la Sierra e Medellín. Celia está refugiada no Brasil desde o final do ano passado. Ela vive atualmente em Corumbá e foi declarada foragida pela Justiça boliviana. Para voltar, quer garantias em relação à sua segurança.

O MPF (Ministério Público Federal) concluiu em outubro deste ano um inquérito civil no qual afirmou que a Chapecoense não foi negligente ao contratar a LaMia. A Procuradoria conduziu investigações a partir de dezembro de 2016, após reuniões com os Ministérios Públicos de Bolívia e Colômbia.

Entretanto, o MPF apontou a possibilidade de irregularidades em autorizações expedidas pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). Duas semanas antes do acidente com a Chapecoense, a seleção da argentina voou para o Brasil na mesma aeronave da LaMia. O destino foi Belo Horizonte, onde a Argentina enfrentou o Brasil pelas eliminatórias da Copa.

A investigação dos brasileiros também obteve elementos que mostram possíveis fragilidades no sistema de autorização de voos fretados pela agência. Segundo a Procuradoria, em outubro foram expedidos ofícios à Anac, ao Tribunal de Contas da União e à Secretaria Nacional de Avião Civil, que deveriam adotar medidas cabíveis.

APELO À JUSTIÇA

Viúvas de seis jogadores ?Gil, Ananias, Gimenez, Bruno Rangel, Canela e Lucas Gomes? foram à Justiça exigindo da Chapecoense a integração dos direitos de imagem aos danos morais e pagamento de pensão. O clube diz que não pode ser responsabilizado pelo acidente. “A Chapecoense me deu meu marido em um caixão se desfazendo. Ele saiu de casa vivo e voltou morto”, disse Valdécia Borges de Morais Paiva, viúva de Gil, à Folha de São Paulo.

O clube pagou as rescisões trabalhistas às famílias. Além disso, receberam seguros que a Chapecoense e a CBF tinham. Hoje, existem duas associações de vítimas. Uma delas recebe R$ 28,8 mil por mês do clube. Em março, a Chapecoense repassou R$ 40,2 mil (líquidos) para cada uma das famílias dos mortos, arrecadados em doações e no amistoso da seleção.

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