OPINIÃO: Torcida única no Ba-Vi é falência das arquibancadas do futebol
OPINIÃO: Torcida única no Ba-Vi é falência das arquibancadas do futebol
A história didática invariavelmente precisa de grandes marcos fundadores para demarcar a existência de processos. Mera formalidade inspirada na figura do mito fundador. A bem da verdade, as transformações nascem bem antes como gérmen de mentalidades progressistas ou — infelizmente — retrógradas.
O 14 de julho indica o início da Revolução Francesa apenas no papel. A insatisfação de camponeses e da burguesia perdurava há tempos e eclodiu na tomada de um símbolo do regime aristocrático. Nossa Bastilha particular, na Bahia, é a decisão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em determinar torcida única no clássico Ba-Vi. Serão quatro disputados numa sequência de 10 dias — a começar por esta quinta-feira (27/4), pela semifinal do Campeonato do Nordeste.
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Nunca o clássico coexistiu com ameaça semelhante em tamanha profusão. Passar a ser disputado em torcida única em quatro jogos seguidos pode transformar a essência da rivalidade, da forma como nos comportamos nos estádios, nosso grau de civilidade com amigos e vizinhos, da tolerância no cotidiano — transformar, diga-se, no papel. O desejo de assepsia já existe e se manifesta de maneira recorrente, desta vez encarnada e encampada pelo promotor público Olímpio Campinho, do Ministério Público da Bahia. Partiu do órgão a recomendação para que os clubes vendessem ingressos apenas de mandante formando um cordão de isolamento com suas próprias biografias.
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Pioramos tanto nas últimas décadas que, basta dizer, há 20 anos, Bahia e Vitória disputavam clássicos com torcidas mistas. Algo naturalizado para nós, mas uma ilha de espanto no resto do país já povoado por guerras entre organizadas e mortes no trajeto até o estádio. Em 20 anos, perdemos esta condição sem nos dar conta da escalada da violência que nos cercava. Perdemos a torcida mista, reduzimos o espaço dos visitantes a protocolares 10% exigidos por Estatuto do Torcedor, assistimos mortes, acirramento da rivalidade entre Bamor (do Bahia) e Os Imbatíveis (Vitória), gritos machistas, homofóbicos e de exaltação da violência, transformamos o nome “estádio” em “arena” e, num último suspiro, ao tentar retomar a zona mista, em iniciativa celebrada pelos dirigentes este ano, percebemos o quanto andamos numa linha involutiva acelerada, num Darwin reverso, nos transformando de homos sapiens a primatas.
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Bem sintomático dizer que, no primeiro Ba-Vi de 2017, com volta da torcida mista em 15% do estádio, os principais jornais, sites e programas televisivos estamparam isto como “novidade”, “manchete”, “inovação”. Um ótimo termômetro para medir a doença que nos acometeu. Em 20 anos, aceitamos perder algo absolutamente natural, parte da nossa cultura de rivalidade flexível e condescendente, para transformá-la em manchete de jornal — pelo critério de ser algo singular, esquisito e raro.
Se o discurso que cerca tamanho cuidado para estabelecer torcida única é nobre, seu remédio ataca um espírito basilar da civilidade e do esporte: o estímulo à tolerância. O MP baseia-se no modo como a violência desembestou nos últimos tempos. No último encontro entre Bahia e Vitória, o jovem Carlos Henrique Santos de Deus, de 17 anos, torcedor do Bahia, foi morto no pós-jogo. Outros 40 torcedores dos dois times foram presos após uma guerra campal nos arrabaldes da Fonte Nova. A violência se faz presente, de fato, mas resolvemos combatê-la tardiamente sem pesar as consequências de uma medida exagerada e desconectada com seus desdobramentos.
Ter Bahia e Vitória com torcida única é a falência das arquibancadas de todo Brasil. O antes celebrado estado da tolerância sucumbe a um modelo asséptico, com soluções demagógicas pensadas por burocratas tementes à opinião pública. Estamos assistindo a um Kubrick rebobinado na cena inicial do clássico “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Na nossa versão, migramos de uma estação espacial tecnológica para nos tornarmos um pedaço de osso nas mãos de homúnculos brutais e sanguinolentos — tudo celebrado pela CBF, entidade que deveria zelar pela essência do nosso desporto.
É bem provável que, num par de anos, o Ba-Vi do dia 27 de abril de 2017 seja lembrando como o primeiro, num caminho sem volta, de como perdemos a batalha pela violência. O marco entre os Ba-Vis com torcida única que determinou nossa tendência totalitária daqui para frente. Será mais um mito fundador falho. Nossa Bastilha charlatã, que servirá apenas ao didatismo.
A mentalidade asséptica sempre existiu… E, seja ou não no futebol, existirá.
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