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HISTÓRIAS OLÍMPICAS: “Diziam que eu tinha boa ‘mãe de santo’ para ter ido às Olimpíadas”, conta Alberto Leguelé

HISTÓRIAS OLÍMPICAS: “Diziam que eu tinha boa ‘mãe de santo’ para ter ido às Olimpíadas”, conta Alberto Leguelé

HISTÓRIAS OLÍMPICAS: “Diziam que eu tinha boa ‘mãe de santo’ para ter ido às Olimpíadas”, conta Alberto LegueléNestor Carrera - Aratu Online

A contagem regressiva se aproxima do fim. Agora, faltam apenas 11 dias para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. E nesta segunda-feira (25/7), o Aratu Online embarca na  série ?Histórias Olímpicas?? que traz breves relatos resgatando o valor de cada competição, de cada conquista dos atletas baianos que participaram direta ou indiretamente de uma Olimpíada.

Quem abriu a série foi o ex-nadador Edvaldo Valério, responsável por fechar o revezamento 4×100 m livre, em Sydney, na Austrália, nos Jogos de 2000.

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O  treinador de boxe, Luiz Dórea, referência nacional e mundial quando o assunto em pauta é a nobre arte, deu continuidade.

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Agora, será a vez de Alberto Raimundo Marques, mais conhecido como Alberto Leguelé. Aos 63 anos, o ex-meia nascido em Santo Amaro da Purificação despontou no Bahia sob o comando do então técnico Zezé Moreira em 1973. Três anos depois integrava a seleção brasileira olímpica, que disputou os Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976, no Canadá.

Este texto foi transcrito pelo repórter Diego Adans a partir do relato de Alberto Leguelé.

Aproveite e? Boa leitura!

* * *

“Gratificante, foi um alicerce para nossa carreira… eu digo que foi minha grande divisão de base.

Pois é, esse é um resumo de como ficou marcado para mim a experiência de ter disputado os Jogos Olímpicos. Adiantei demais a história, não é? Vamos lá:  meu nome é Alberto Raimundo Marques. Sou casado (com Graça Marques) e tenho dois filhos: Taís e Ricardo. Apesar de a Olimpíada de Montreal, no Canadá, ter sido em 1976, minha relação com ela teve início bem antes por volta de 1970.

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Eu jogava na base do Bahia, mas ainda no juvenil. Na época, não tinha essa história de Sub-20, Sub-17… Nada disso. Só tinha dente de leite, juvenil e profissional. Eu estava me destacando no Juvenil e me botaram já no profissional, devia ter uns 19, 20 anos. Nunca vou deixar de agradecer aos meus companheiros de times: o Roberto Rebouças (zagueiro), Sapatão (zagueiro), o Zé Oto, o Amorim (volante). O Amorim foi meu grande amigo.

Ele me orientava muito… ‘o garoto é assim ó… não erre passe, toca com calma na bola’. Nessa época, no início da década de 70, o Bahia ganhava tudo aqui ( só não foi campeão estadual em 1972). Graças a todos estes título, acabei indo pra Seleção.

Foi até engraçado isso… Teve um dia que cheguei para treinar e o técnico Zezé Moreira (à frente do Bahia na época) chegou para mim e disse: ‘Moleque… Fica esperto que tem um observador da CBD (Confederação Brasileira de Desportos,  anterior à CBF) aqui, veio te observar’.

Rapaz, pense como fiquei numa ansiedade retada. Agora também, nunca corri tanto, marquei tanto, ataquei tanto como naquele dia.. A bola caia lá na ‘casa do chapéu’, eu ia lá, correndo pegar. Queria mostrar serviço. Deu certo.

Fui selecionado. O Jorge Campos (atacante) também foi convocado, mas se machucou e não pode ir. Antes da disputa efetiva das Olimpíadas, tivemos vários testes. Um ano antes, em 1975, disputamos o Pan Americano, no México.

Na final, encaramos justamente os mexicanos. Fomos campeões e levamos a medalha de ouro. Deste torneio teve um jogo em especial que me marcou: Brasil x Nicarágua. Rapaz, metemos um sacode nos caras… 14 a 0.

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Seleção olímpica em Montreal: o técnico Zizinho, Rosemiro, Zé Carlos, Tecão, Edinho, Chico Fraga e Batista. Agachados: Marinho, Alberto Leguelé, Jarbas, Erivelto e Santos. Crédito: reprodução site Terceiro Tempo

Em 1976, em janeiro, fomos disputar o pré-olímpico, em Recife. Lá, não fomos tão bem não. Ficamos com a medalha de bronze. Depois, partimos para um excursão lá na Europa, onde fizemos vários amistosos. Enfrentamos a Iugoslávia, França, Alemanha… O técnico era Zizinho.

Se a memória não me falhar o time era: Carlos, Rosemiro, Tecão, Edinho e Chico Fraga; Alberto e Mendonça (Luiz Fernando); Cremílson, Erivelto, Cláudio Adão e Santos (Tiquinho). Eu, entrava, no decorrer dos jogos, mas cheguei a ser titular em algumas partidas.

Agora, a grande história:

No pré-Olímpico, fui expulso num jogo contra a Argentina. Sabe como é argentino, né? cheio de história… não contei conversa (risos). O problema estava aí! Como fui expulso, estava suspenso pela FIFA e eu tinha que cumprir um jogo numa partida oficial da FIFA. ‘Quem vai convocar um jogador suspenso?’

Por isso, eu morria de medo de não ir para a Olimpíada. No Nordeste, eu era o único jogador. Acabou que mesmo suspenso fui convocado e aí, a gozação começou (risos). ‘Baiano, passa o número da sua mãe de santo! Baiano… qual foi o ‘trabalho’ que você fez? ‘ A brincadeira durou até o dia que nos juntamos para disputar os Jogos Olímpicos.

Muita gente me pergunta: e o frio lá no Canadá? Não senti muito. Afinal, como tínhamos ido para Europa antes, para Bogotá na Colômbia…disputar os amistosos, já estávamos acostumados. Era engraçado que o grupo estava muito unido também. Até mesmo os mais experientes, o Junior ‘Capacete’, o Edinho Nazaré… não ficavam de fora das resenhas. Eu sempre gostei de música, já tenho isso no sangue… aí, levei um timbau, um pandeiro e um reco reco. Aí, após os treinos com a autorização da comissão técnica, fazíamos um sambinha, uma roda de capoeira.

Alguns não saiam do lugar, tudo duro. Já o Junior, por exemplo, gostava da zoeira… ele tocava e cantava muito bem. Tanto, que em 1982, ele gravou sua tradicional música “Povo Feliz” ( mais conhecida como “Voa Canarinho”, que embalou o “Escrete Canarinho” no Mundial de 1982, na Espanha, quando Junior ainda jogava).

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No titulo estadual do Fla de 1978: em pé – Cantareli, Cláudio Coutinho (técnico), Leguelé, Manguito, Toninho, Eli Carlos, Moisés, Junior e Nielsen; agachados vemos Nelson, Rondinelli, Ramirez, Marcinho, Adilio, Tita, Cleber, Zico e Paulo Cesar Carpegiani

Outra grande resenha desta Olimpíada era o Tiquinho, que, na época era atacante do Botafogo (risos). O cabra era metido a namorador, ‘tirado’ a pegador. Certa feita, lá em Montreal, o elenco foi almoçar fora. Chegou lá num restaurante, só tinha os gringos. Poucos sabiam falar inglês, mas o Tiquinho não… olha a ‘onda’! Ele dizia que falava não só o inglês, mas, também, espanhol, francês… (risos).

Aí, chegou uma garçonete… loirona, olhos verdes, aquelas bem gringas mesmo e começa a falar. Eu não sei, mas devia estar perguntando o que iríamos comer. O Tiquinho toma a frente e começa a falar. Rapaz, que desespero! Ele  falava tudo e não dizia nada (risos). Embolava o português, o espanhol, o inglês… a gringa não entendeu nada e se mandou! Pense na gozação que os caras fizeram! Até o Zizinho (técnico da Seleção) pertubou ele.

Outra situação inusitada que passamos foi a comunicação com os familiares. Na época, não tinha essa facilidade de hoje em dia não. Internet, whatsapp… nada disso! Era à base do telex, telegrama. Teve umas cartas que mandei para meu familiares de lá e só quando voltei para o Brasil, chegaram. Imagine aí…

Quanto a competição em si, fizemos o nosso melhor. Mas, infelizmente, acabamos, somente com a medalha de bronze. Apesar de toda experiência que tivemos, amistosos, excursão à Europa… era complicado você atuar contra seleções que mandavam à campo jogadores profissionais. Nosso time, a maioria era formada por juvenil. Nossos adversários não. A base dos times tinha jogado dois anos antes na Copa do Mundo de Alemanha, em 1974. Acabamos perdendo para o México e ficamos com a medalha de bronze.

Mas, agora, a história é diferente e a regra também. Estou bastante confiante nesse time que vai disputar as Olimpíadas do Rio de Janeiro. Com o experiente goleiro Fernando Prass, o Neymar, o Wallace, o Gabriel Jesus… espero que eles possam, finalmente, exorcizar o ‘fantasma’ dessa medalha de ouro. É um fardo que temos e está na hora de acabar. Nós temos ainda a vantagem de atuar em casa, com  apoio da torcida e tenho fé e esperança que iremos ser campeões.

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