Empresa australiana compra 90% de fábrica na Bahia por R$ 1 para reduzir dependência da China
BCM assumirá participação na Sais Nordeste, em Feira de Santana, que produz sulfato de magnésio usado no projeto de terras raras Ema
Por Victor Hernandes.
Uma empresa australiana fechou acordo para adquirir 90% de uma fábrica de sulfato de magnésio localizada em Feira de Santana, na Bahia, por apenas R$ 1. A operação foi firmada pela Brazilian Critical Minerals (BCM), por meio da subsidiária brasileira Mineração BBX do Brasil, e faz parte de uma estratégia para reduzir a dependência de cadeias de fornecimento ligadas à China.

A empresa adquirida é a Sais Nordeste Indústria e Comércio, que está com as operações suspensas desde fevereiro deste ano, quando entrou em recuperação judicial após enfrentar dificuldades financeiras.
Segundo a CNN, apesar do valor nominal de R$ 1 pela participação de 90%, a operação envolve a reestruturação financeira e operacional da fábrica, além da negociação de passivos acumulados pela companhia.
Fábrica em Feira de Santana será usada para projeto de terras raras
A aquisição está relacionada ao projeto Ema, de terras raras, localizado próximo a Apuí, no Amazonas. O sulfato de magnésio produzido pela Sais Nordeste é apontado pela BCM como o principal reagente previsto para o processo de recuperação das terras raras do projeto.
Segundo a empresa australiana, assumir o controle da fábrica permitirá maior controle sobre a disponibilidade, a qualidade e a continuidade do fornecimento do insumo.
A capacidade inicial da unidade deverá atender a aproximadamente 50% da demanda de sulfato de magnésio do projeto Ema nos primeiros anos de produção. Com modificações na fábrica, a BCM estima que a capacidade poderá superar 100% da necessidade prevista.
Compra envolve passivos de aproximadamente R$ 15,3 milhões
Embora os 90% da Sais Nordeste sejam adquiridos por R$ 1, a operação também envolve passivos estimados em aproximadamente R$ 15,3 milhões. As obrigações tributárias federais e estaduais e outros débitos da companhia deverão ser negociados, com a maior parte prevista para pagamento ao longo de dez anos.
A fábrica funcionou até fevereiro, quando a Sais Nordeste entrou em recuperação judicial. De acordo com a BCM, a empresa enfrentava dificuldades financeiras mesmo diante da utilização elevada da unidade e da demanda pelos produtos fabricados.
Com o acordo, a companhia australiana passará a financiar e acompanhar o processo de recuperação financeira e operacional da fábrica.
A transferência formal dos 90% ainda depende do cumprimento das condições previstas no acordo, além de aprovações judiciais, regulatórias e societárias relacionadas ao processo de recuperação judicial. Os atuais acionistas permanecerão com os 10% restantes.
Empresa busca reduzir dependência da China
A aquisição também está inserida na estratégia da BCM de reduzir a exposição às cadeias de fornecimento ligadas à China no setor de terras raras. Segundo a empresa, ao longo de 2026, os controles de exportação chineses passaram a alcançar não apenas produtos finais, mas também equipamentos, consumíveis e capacidades técnicas necessárias para o desenvolvimento de novos projetos.
O projeto Ema prevê a utilização de uma solução de sulfato de magnésio para recuperar elementos de terras raras presentes em argilas de adsorção iônica. O material extraído deverá posteriormente ser processado em carbonato misto de terras raras, conhecido pela sigla MREC, produto intermediário destinado às etapas de separação e refino.
BCM negocia fornecimento de insumos na Bahia
Além da aquisição da fábrica em Feira de Santana, a BCM firmou acordos para garantir o fornecimento dos dois principais insumos utilizados na produção do sulfato de magnésio: óxido de magnésio e ácido sulfúrico.
O ácido sulfúrico poderá ser fornecido pela Unigel a partir do polo industrial de Camaçari, localizado a cerca de 80 quilômetros da fábrica. Já o óxido de magnésio deverá ser fornecido pela indústria de magnesita concentrada na região de Brumado, a aproximadamente 560 quilômetros de Feira de Santana.
A estratégia cria uma cadeia de fornecimento integrada para os insumos utilizados na produção do reagente necessário ao projeto Ema.
Segundo a BCM, o movimento é considerado estratégico para garantir a produção do MREC antes de uma eventual integração posterior das etapas de separação e refino de terras raras.
“Antes de podermos fornecer para a emergente indústria de separação e refino de terras raras fora da China, precisamos primeiro garantir que Ema possa produzir MREC de forma confiável”, afirmou Andrew Reid, diretor-executivo da BCM.

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