Projeto cultural aumenta socialização de jovens através da dança na Boca do Rio
Projeto cultural aumenta socialização de jovens através da dança na Boca do Rio
Lúdica e terapêutica, a dança faz bem ao corpo e a alma. Já é cientificamente comprovado que a arte de dançar ajuda, não só, exercitar o corpo, mas rejuvenesce o espírito. Além disso, faz muito mais! Quem a pratica, normalmente, não está sozinho. Sendo assim, ela funciona, também, como elo entre pessoas e importante instrumento de socialização.
Foi com o pensamento de fazer uma celebração à arte que a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), instituiu há, exatamente, 36 anos, o Dia Mundial da Dança. A data ? 29 de abril ? homenageia o aniversário de nascimento de Jean-Georges Noverre, um mestre do balé francês, que viveu entre os séculos XVIII e XIX.
Longe de ter o talento ou a menor habilidade artística do famoso parisiense, Luís Américo, um educador de 46 anos, não fica por baixo. Ele conhece perfeitamente a magia da dança e o poder que ela pode exercer sobre as pessoas. Branco Falcão, como é conhecido, realiza um trabalho importante com crianças e jovens da Boca do Rio, bairro que, entre outros tantos de Salvador, abriga comunidades que convivem com dificuldades socioeconômicas.
Há 18 anos, um projeto cultural inspirado na dança ajuda a mudar a vida de dezenas de jovens da região da Boca do Rio e adjacências. Atualmente, cerca de 80 pessoas integram esse trabalho e, em grande número, se encontram para os ensaios que acontecem, de segunda a sexta-feira, em um espaço da Escola Municipal Luiza Mahim, que fica no Jardim Armação.

A Escola Municipal Luiza Mahim abriga ações do projeto.
Na última quinta-feira (26/4) nossa reportagem foi ver de perto as atividades do grupo e conhecer alguns atores sociais dessa empreitada. ?Tudo isso surgiu da necessidade da própria comunidade, que é marcada pela violência e a gente precisa dar ocupação a esses jovens?, informou Branco, idealizador do projeto, ao Aratu Online.
O líder comunitário trabalha com crianças e adolescentes entre sete e 20 anos e afirma que o seu principal objetivo é mantê-los afastados do mundo das drogas. ?É dando ocupação, através da arte que a gente consegue tirar eles das ruas?, acrescentou.
Nesse trabalho não existe discriminação ou preconceito com relação aos ritmos utilizados, mas há uma grande preocupação com o respeito e a moral. ?Hoje tem dança que denigre a imagem, tanto do homem, quanto da mulher, e eu fujo disso. Sempre deixo bem claro pra eles que a coreografia não é feita com a bunda?, salientou o coordenador.
A ?Companhia de Dança da Boca do Rio? e a ?Equipe Tá Quebrando? funcionam como duas escolas dentro do projeto. A primeira inclui uma variedade de estilos musicais e a outra é desenvolvida através do pagode baiano.
A diversidade permite que ao longo do ano sejam trabalhadas coreografias temáticas de acordo com cada ocasião. “O São João está se aproximando e já começamos a ensaiar a quadrilha junina, mas estamos esperando, com ansiedade, a chegada da Copa pra explorar o tema?, ressaltou Branco.
RECONHECIMENTO E VISIBILIDADE
Através do projeto, alguns jovens já conseguiram se profissionalizar e passaram a ganhar alguma grana com a dança. Algumas oportunidades surgem de bandas de pagode de Salvador. Outro incentivo importante é a parceria firmada com a coordenação da Fitdance. Segundo Branco, foram oferecidas, recentemente, bolsas integrais para que seis dançarinos participassem de um curso de formação de instrutores. “Quatro passaram. Isso é sinal de que há valorização com os meus meninos”, comemorou.

Vinícius e Larissa, orgulhosos por participarem do projeto.
Entre os formados pelo Fitdance está Larissa da Silva Paixão, de 22 anos. A menina chegou ao grupo, há seis anos, hoje é instrutora, além de estudante de Pedagogia. Ela dá aulas para crianças duas vezes por semana em uma instituição da Boca do Rio e ainda encontra tempo para desenvolver as coreografias do projeto. “Isso aqui foi um estímulo de vida pra mim. Vim do interior e esse projeto me abraçou”, confidenciou a jovem nascida em Cachoeira, no Recôncavo Baiano.
Para outros meninos, a chance de mostrar seus talentos, fora do grupo, chegou bem mais cedo. Em 2012, quando ainda eram crianças, Marcos Vinícius de Jesus, 18, e Aleif Oliveira, 16, dançaram com Léo Santana, durante apresentação do cantor no programa Universo Axé da TV Aratu. O momento dos pequeninos ao lado do gigante, até hoje é lembrado por eles, que não perdem oportunidade para elogiar o projeto.
“Isso aqui não é não só um passatempo, mas sim um aprendizado. Aqui muitos entram com pouca disciplina e acabam aprendendo a se comportar. Branco ajuda a formar cidadãos”, enalteceu Vinícius. Concordando com a declaração, Aleif lembrou que, desde os sete anos de idade iniciou no projeto, fazendo parte, àquela época, do grupo de dança Nova Pegada, que era da comunidade.
QUEBRADEIRA DO BEM
Prestigiando o pagodão baiano, os meninos da ‘Equipe Tá Quebrando’ sabem botar pra descer na hora da quebradeira, mas tudo acontece com muita alegria, já que a intenção é balançar o corpo e distribuir simpatia. Os meninos da ETQ reconhecem que sua atividade proporciona benefícios que extrapolam os limites do que é visto enquanto dançam:

Daniel, Róbson, Alisson e Aleif ‘quebram’ tudo na ETQ.
?É melhor está dançando, que estar na rua fazendo coisas erradas?, observou Daniel Santos, 15 anos. O reforço da autoestima, além do exercício físico, pela dança, foi pontuado por Róbson, de 16 anos. Já Alisson, 19, chama a atenção para o efeito terapêutico e social: “a dança tira o meu estresse e não me deixa ficar com a cabeça livre pra pensar besteiras?, considerou o jovem.
APOIO MATERNAL
A presença de mães durante os ensaios não é incomum. Aliás, existem integrantes do grupo que são ainda crianças e alguns desses dançarinos mirins são paparicados de perto pelas genitoras. Esse é o caso de Isabel Araújo. Ela é professora da rede estadual e mãe de Maria Eduarda, de 10 anos, há três no projeto. A pequena passa grande parte do tempo longe da mãe, que dá aulas em Teofilândia, a 203 km de Salvador.
A professora relatou que por conta do seu trabalho, “Duda” está morando com o avô. Porém, ela já teve oportunidade de levá-la para o interior, mas a filha não pretende se afastar do projeto. Devido a situação, tudo que a mãe deseja, neste momento, é conseguir uma transferência para trabalhar em Salvador e aproveitando a oportunidade ela espera que, através do Aratu Online, esse seu pedido chegue à secretaria de Educação da Bahia.

Mães acompanham filhas aos ensaios do projeto.
Outra mamãe presente no local tinha uma razão um pouco diferente. Dona Mauricéia acompanhava a filha Sara, 14 anos, que entrou no grupo há poucos dias e, curiosamente, elas não são da região da Boca do Rio. Moram em Cajazeiras. A mãe saiu de tão longe para realizar um sonho da adolescente.
De acordo com a diarista, sua filha gosta de dançar desde pequena, mas ela não tem condições de pagar um curso ou academia para Sara desenvolver seu talento. Recentemente, Mauricéia encontrou um amigo que não via há muito tempo e foi ele quem indicou a Companhia de Branco. Feliz com a oportunidade, a menina de Cajazeiras quer se enturmar rapidamente no projeto, pensando em atingir seu objetivo.
Veja momentos do ensaio:
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