Morre engenheiro e um dos ícones da militância do PCB, Luiz Fernando Contreiras
Morre engenheiro e um dos ícones da militância do PCB, Luiz Fernando Contreiras
Por Da redação.
Morreu nesta sexta-feira (15/2), o engenheiro e militante do Partido Comunista Brasileiro, Luiz Fernando Contreiras de Almeida. Nascido em Mundo Novo, interior da Bahia, Contreiras faleceu aos 95 anos. O corpo será cremado às 17h, na capela B, do cemitério Jardim da Saudade, em Brotas. Em 2009, ele foi tema do livro “Contreiras, Camarada Engenheiro ? uma história de luta e coerência”, lançado pelo jornalista e escritor Elieser Cesar.
No prefácio, Elieser conta que a obra literária, publicada pela Editora Caros Amigos, nasceu de uma encomenda da família de Luiz Contreiras, para homenagear na época seus 85 anos de idade.
?Luiz Contreiras sempre foi um homem movido a paixões. Se como engenheiro ajudou a abrir estradas, construir pontes e prédios, como comunista convicto foi, além de tudo, um construtor de utopias, essa matéria impalpável que tem a mesma volatilidade dos sonhos. Viu ruir o projeto do socialismo democrático, solapado pelo socialismo real, com a centralização burocrática do poder estatal e o Estado policialesco, sobretudo na antiga União Soviética e nos Estados satélites do Leste Europeu. Testemunhou a queda do Muro de Berlim e a extinção da URSS. Porém, jamais abdicou da crença no socialismo democrático e nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, tributários da Revolução Francesa?, diz o escritor, na introdução do livro.
Em sua longa caminhada, Luiz Contreiras enfrentou três vezes os cárceres. A primeira prisão aconteceu por organizar em 28 de fevereiro de 1948, aos 25 anos de idade, um histórico comício na Praça da Sé, em comemoração do centenário do Manifesto Comunista de Marx e Engels e pela legalização do PCB, cassado pelo governo Dutra. A segunda prisão ocorreu durante a campanha ?O petróleo é nosso?, em fevereiro de 1953. Aos 30 anos de idade, passou 15 dias trancafiado na Casa de Detenção, antigo Forte de Santo Antônio.
Mas, a mais violenta prisão aconteceu durante a ditadura militar de 1964. Torturado com eletrochoques pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, chegou a sofrer uma tentativa de assassinato por parte do delegado Sérgio Fleury, num sítio chamado pelos militares de ?fazendinha?.
O jornalista e militante político Emiliano José, também, prestou homenagem a Luiz Fernando Contreiras.
“Contreiras, Quixote. Homem de dois séculos. Comunista. E com que orgulho, né meu velho? Atravessa os tempos de lança em punho, só que contra monstros muito reais. Nunca se dobra, matou torturadores de raiva. Voz suave, não precisava elevá-la – pra quê, bastava-lhe a força do argumento. Sempre, na melhor tradição comunista, tinha lado – o da classe trabalhadora. Foi um dos dirigentes da campanha de Carlos Marighella a deputado federal constituinte em 1946, jovem, jovem, ao lado de Ana Montenegro. Preso pela Operação Radar, que matou duas dezenas de dirigentes do PCB, esteve frente a frente com o criminoso-torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, e, como Marighella, não teve tempo para ter medo. Era o ano de 1975. É do panteão dos nossos grandes. Homem de convicção, discreto, e por décadas dirigente do PCB. Estou escrevendo isso porque li o que sua notável companheira Amabília escreveu, dizendo que ele estava partindo, que talvez não passasse de hoje, e Bisa, filha, também me confirmou. Tristeza e ao mesmo tempo uma certeza: viveu intensamente, e a favor da população trabalhadora sempre. Semeou esperanças, guardaremos seus sonhos”.
LUIS CONTREIRAS, PRESENTE!
“Conheci o Dr. Luis Contreiras no final do ano de 1992, uns dois meses depois de iniciar o namoro com Bisa Almeida, minha companheira desde então. Ele tinha, à época, 69 anos e se aproximava de uma aposentadoria compulsória como engenheiro dos quadros do DNOCS. Era, no entanto, um homem ainda muito ativo, principalmente quando se tratava da área de atuação pela qual fora apaixonado por toda a vida: a política. Paixão que despertou no início da década de 40, quando chegou em Salvador, vindo de Rio de Contas, para estudar no antigo Ginásio da Bahia. Foi ali que tomou conhecimento da existência do hoje histórico político baiano, Fernando Santana (?um perigoso comunista?, conforme descrição da época), e dos textos de Marx, aos quais teve acesso pelas mãos de Josué Almeida, um amigo e colega de colégio, que já se adiantava na doutrina.
Daí em diante é tudo História, contada, inclusive em sua biografia, publicada há algum tempo. Não pretendo aqui fazer uma descrição da atividade política de Luis Contreiras. Todos os seus conhecidos sabem de sua trajetória de décadas como militante do PCB, militância que se confundiu sempre com sua própria vida. A silhueta longilínea, aparência moura, nariz avantajado e adunco, a magreza extrema, davam-lhe ares de um Dom Quixote tropical, sempre lutando em favor de causas impossíveis.
Por conta desta luta, esteve preso três vezes, chegando, a ficar trancafiado por quase 2 anos, na década de 70, durante a ditadura militar. Apesar de todas as dificuldades pessoais e familiares que essas experiências certamente lhe acarretaram, Contreiras nunca perdeu o desejo, nunca perdeu a coragem. Queria porque queria viver em um mundo mais justo, mais igualitário, mais decente. Jamais abandonou sua utopia.
Quando o conheci, não me deu muita ousadia. Eu era um rapaz de 28 anos, músico, petista e adversário dos ?reformistas do partidão?, como alguns grupos de esquerda costumavam denominar o povo do PCB. Além do mais, minha forma de ser, meio tirado a engraçado ? perco o amigo mas não a piada… ?, meio iconoclasta, certamente lhe causavam alguma estranheza, o que tornou um pouco mais difícil uma aproximação. Afinal, o velho Contreiras era REALMENTE um homem preocupado com as ?grandes questões?. Seu bordão, para dar início a qualquer conversa, costumava ser ?Aleksei, e essa crise aí, hein??.
Convivemos por um pouco mais de 26 anos. Aprendemos, pouco a pouco, a gostar um do outro e descobrimos que tínhamos mais coisas em comum do que imaginávamos quando nos conhecemos. Fui, na qualidade de genro, presença habitual em sua casa nessas duas últimas décadas, tendo, portanto, a grande oportunidade de conviver de perto com Luis Contreiras, o Ser Humano.
Muito gentil com todos os que lhe frequentavam; extremamente educado, jamais o vi fazer uma grosseria com alguém; tinha um coração enorme, verdadeiramente capaz de sentir compaixão pelos que precisam. Um humanista. Um homem que possuía, repito, uma UTOPIA!
Nos últimos anos, enquanto ele ia, progressivamente, abandonando a vida social, sempre que pude me pus ao seu lado para ouvir, com muita atenção, as ricas histórias que contava. Nunca cansei de ouvi-lo falar, por exemplo, sobre a chegada da Coluna Prestes em Rio de Contas, quando ele era ainda uma criança, ou de como conseguiu construir uma barragem no sítio do diretor da Casa de Detenção, onde estava preso, sem nem ao menos visitar o local, ou de como foi caminhando do porto até o Castro Neves, em Brotas, onde ficaria hospedado, no dia em que chegou em Salvador, para estudar no ginásio, tendo como única companhia um jovem que carregava suas bagagens.
Creio que acabei me tornando, com o tempo e a convivência, principalmente nos seus últimos anos, alguém por quem o velho Contreiras passou a ter afeto e respeito. E mais: depois de muito tempo, ele aprendeu, finalmente, a achar graça nas minhas irreverências e palhaçadas. Conquistei também o seu sorriso… Poucos meses atrás, diante da cada vez mais clara possibilidade de vitória de Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais, Dr. Luis, que conheceu o coronel Brilhante Ustra ? ídolo do atual presidente ? na tortura, decidiu gravar, em vídeo, uma declaração em que afirmava que era contra a candidatura do capitão, porque não gostava de fascistas.
Fiquei extremamente feliz e orgulhoso! Não por razões partidárias, muito menos por motivos eleitorais ? ele jamais fora petista (como eu também já não sou) e as eleições já estavam decididas. Fiquei feliz porque o gesto trazia de volta, com toda sua inteireza, o Contreiras com quem convivi por muito tempo: o militante político, o cidadão em busca de justiça, o homem que não se omitia diante da desgraça iminente. Fiquei muito feliz porque, uma vez mais, Contreiras, nosso Quixote, o incansável lutador, abraçava uma causa perdida, em nome da dignidade humana. Mais uma vez, aos 95 anos, já com pouca energia vital disponível, o militante se dispunha a empregar suas derradeiras forças na luta contra interesses reacionários, reafirmando sua posição humanista.
Para mim, aquilo foi mais do que uma declaração política pública. Foi um abraço forte em todos aqueles que, como ele, pretendem viver em um mundo mais justo e mais igualitário. Foi como se ele, ainda que indiretamente, de forma cifrada, como deve ter feito tantas vezes em momentos de repressão política, estivesse pedindo àqueles que continuarão vivendo nesse país e se importam com a fome e a miséria: ?continuem carregando a nossa UTOPIA!?.
Foi, de fato, um Grand Finale para alguém que fez da esperança um estilo de vida. Viveu, até o fim, com extrema dignidade. Deixa-nos um legado inestimável. Descanse em paz, querido amigo Luis Contreiras”.
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