Enquanto a ponte que promete ligar Itaparica ao futuro não sai, relembramos o passado: Como eram as travessias antes dos ferries?
Enquanto a ponte que promete ligar Itaparica ao futuro não sai, relembramos o passado: Como eram as travessias antes dos ferries?
O projeto da construção da Ponte Salvador-Itaparica, vista com desconfiança por muitos baianos, voltou a ganhar fôlego na última semana. Em visita à China, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), colocou a papelada na mala e rumou para o oriente com o objetivo de, entre outros, convencer possíveis investidores internacionais a alavancar a tão falada obra.
A ponte é parte integrante do projeto do Sistema Viário Oeste (SVO) que, segundo a Secretaria do Planejamento do Estado (Seplan), vai estimular o crescimento socioeconômico dos municípios de Itaparica e Vera Cruz, além das regiões do Recôncavo e Baixo Sul, a exemplo do que teria acontecido com as localidades do Litoral Norte Baiano, após as construções da Estrada do Coco e da Linha Verde.
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A justificativa, porém, é controversa e na contramão deste pensamento estão muitos moradores da Ilha. O presidente da Colônia de Pescadores Z-8 (que atua de Gameleira à Barra Grande, em Vera Cruz) ? Emilio Vieira Alves, ou ?Milu? ? não acredita que a ponte seja o caminho por onde vão passar as melhorias que o município precisa.
Milu tem 62 anos e é nativo de Conceição, localidade de Vera Cruz. Filiado ao PDT, ele é também vereador do município. Apesar de estar em uma legenda da base aliada do governo estadual, o parlamentar reclama da falta de um ?olhar público? ao local. Ele ressalta que o desenvolvimento básico já poderia ter chegado, mesmo sem a construção da ponte.
?Aqui não tem um hospital, não tem faculdades, segurança, nem investimento no turismo?, ressaltou. O vereador disse que esteve, recentemente, na Seplan e constatou que o projeto não garante intervenções nesse sentido: ?ele serve, apenas, para resolver um problema de mobilidade urbana de Salvador e proporcionar o escoamento de grãos do sudoeste do estado?, avaliou.

Vereador e presidente da Colônia de Pescadores, Milu não acredita que a ponte levará desenvolvimento à Vera Cruz. Foto: Dinaldo dos Santos
DESENVOLVIMENTO VIA FERRY
Como contraponto a este exemplo vale lembrar que, há pouco mais de 40 anos, os moradores da Ilha passaram por um importante processo de melhoria na área do transporte. A implantação do sistema ferry boat, em dezembro de 1972 (ou seja, há quase 42 anos), resolveu um sério problema que afligia a população. Antes da chegada dos ferries era muito complicado o deslocamento para a capital baiana e, consequentemente, o acesso a serviços essenciais que os nativos não encontravam na região.
Naquela época, existiam algumas alternativas para fazer a travessia marítima, mas as embarcações eram em quantidades insuficientes para a demanda. Além do que eram desconfortáveis e realizavam poucas viagens por dia. Bastante diferentes dos ferries, que são capacitados para conduzir, além de centenas de passageiros – transportam em média 500 pessoas – um grande número de veículos dos mais variados portes, em viagens de aproximadamente uma hora, entre os terminais de São Joaquim (Salvador) e Bom Despacho (Itaparica).
A moradora de Conceição, Lindalva Ferreira, de 59 anos, lembra da dificuldade que era viajar para Salvador. ?A gente tinha as opções dos navios Maragojipe e João das Botas que atracavam em Itaparica ou, então, as lanchas: Gaivota e Joana Angélica que faziam a ligação Mar Grande Salvador e a Pelé, que saía da Barra do Gil?.

As lanchas Gaivota e Joana Angélica faziam a travessia Mar Grande-Salvador. Foto/Reprodução: Arquivo – Luís Pereira
Porém, muitas vezes a necessidade da travessia era uma emergência e nesses casos, os barcos dos pescadores eram a solução. ?Eu quando era menina presenciei o caso de uma senhora que ia ganhar neném. Foi uma correria, porque ela ia de barco à vela e a maré estava seca”, relatou Lindalva, acrescentando que foi necessária a ajuda de vários homens para empurrar a embarcação até um ponto de profundidade adequado para iniciar a navegação em direção ao Porto da Barra, de onde ela deveria seguir para algum hospital de Salvador.
A viagem de navio tinha também os seus inconvenientes. O marinheiro aposentado, Olivaldo Bartolomeu, de 60 anos, conduziu por vários anos o Maragojipe. Segundo ele, era uma viagem longa e muita gente passava mal no trajeto. ?O percurso da cidade de Maragojipe até Salvador, muitas vezes, dependendo do tempo, levava até quatro horas?.
A embarcação fazia o trajeto, apenas uma vez ao dia, no sistema ?bate e volta?. ?A gente saía de manhã cedo, por volta de 5h, e retornava às 15h?, relatou Bartolomeu. Saindo da capital, o navio passava por Itaparica, Salinas das Margaridas, Barra do Paraguaçu, Enseada do Paraguaçu, para finalmente chegar a Maragojipe.
Além da viagem cansativa, os passageiros que iam para a Ilha sofriam, também, após a atracação em Itaparica. ?Eles passavam por uma ponte de madeira e depois tinham que encarar uma estrada de barro, às vezes enlameada?, lembrou o marinheiro.
O vapor, ao longo de 35 anos – de 1962 até 1997 – foi de grande valia para a população de Itaparica, Vera Cruz e do Recôncavo Baiano. Inclusive, nos primeiros anos de existência do ferry boat, a embarcação continuou operando com paradas em Salvador. “Hoje é triste acreditar que o navio foi abandonado e está afundando, na baía de Aratu”, lamentou o marinheiro.
A PONTE E A CRIMINALIDADE
Parte da população concorda que o sistema ferry boat levou à Ilha o grande benefício do fácil deslocamento para Salvador, mas parou por aí. Lindalva, por exemplo, acredita que a ponte será mais um equipamento de reforço ao transporte local, mas não espera por outras formas de progresso. Pelo contrário, teme por um aumento da criminalidade. ?A gente houve muito falar que se essa ponte vier, vai piorar bastante a violência que hoje existe na Ilha?, ressaltou.
Entre alguns pescadores de Conceição e Barra do Pote, a preocupação com a criminalidade é unânime, mas a opinião sobre o empreendimento que o governo pretende realizar é um pouco divergente:
De acordo com Alexandre Bahiense, 58 anos, a tranquilidade do povo da Ilha vai se acabar com a implantação da ponte. Vítor José Filho, no entanto, acredita que ela pode contribuir na geração de empregos e ajudar a tirar os jovens do mundo das drogas. Para José Boaventura, a construção é bem-vinda se contribuir para o progresso da região. Confira o vídeo:
SEM PREVISÃO
Em meio a polêmicas e desconfianças, o governo do estado garante que o projeto da ponte visa o desenvolvimento regional, social e de infraestrutura urbana, envolvendo 45 municípios, localizados na Região Metropolitana de Salvador (RMS), Recôncavo e Baixo Sul, totalizando 4,4 milhões de habitantes. De acordo com a Seplan, o SVO prevê investimentos de R$ 7,5 bilhões para os 12 quilômetros de ligação entre Salvador e Itaparica mais 500 quilômetros de rodovias, com obras que devem ser realizadas no modelo de Parceria Público-Privada (PPP).
Enquanto Rui Costa esteve na China vendendo o seu peixe, o vice-governador, João Leão, visitou a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, para tratar do referido projeto com o ministro dos Transportes, Antônio Carlos Rodrigues. Porém, apesar da aparente pressa de fazer os carros atravessarem a Baía de Todos os Santos sem a ajuda dos ferries, o governo ainda não tem previsão para o início da obra.
A Seplan informou à nossa reportagem que o cronograma foi modificado em função da escala e complexidade do projeto e pela evolução da conjuntura da crise econômica mundial. Por isso, ainda não há prazo determinado para a licitação. No momento, o Governo da Bahia está empenhado na apresentação do projeto para grupos internacionais, como aconteceu na China, um dos potenciais interessados.
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