ESPECIAL VIDAS ADAPTADAS: O caso da mulher que não consegue lembrar os rostos dos filhos
ESPECIAL VIDAS ADAPTADAS: O caso da mulher que não consegue lembrar os rostos dos filhos
O Aratu Online iniciou na última terça-feira (25/7) uma série especial sobre doenças misteriosas e as vidas adaptadas dos seus portadores. Levamos em consideração enfermidades que fogem ao senso comum e mudam a forma de percepção de quem precisa conviver com ela.
No primeiro episódio contamos a história de Rômulo Alessandro, de 37 anos. Ele sofre com parosmia traumática. Traduzindo: não consegue sentir o cheiro das coisas.
LEIA MAIS: ESPECIAL VIDAS ADAPTADAS: O curioso caso do homem que não sente o cheiro da esposa há sete anos
Neste segundo episódio contamos a história de Eliete Souza. A aposentada sofre de prosopagnosia. Traduzindo: não consegue memorizar o rosto de ninguém. Nem quem conhece há longas datas.
“Eu era vista como a ‘duas caras’, ou então, a esnobe. Pois, eu falava, conversava com uma garota num dia, no outro já não lembrava mais dela”

A história da vida de Eliete e como conseguiu se adaptar à doença você confere nas próximas linhas
Boa leitura!
***
“Certa vez, fui madrinha de um casamento. Tirei fotos com os noivos, participei da festa, foi maravilhoso…. No dia seguinte, fui passear no shopping e o noivo me encontrou. Ele falou comigo por alguns minutos, perguntou o que eu tinha achado da festa, agradeceu-me pela presença… Sem graça, abri o sorriso e dizia que tudo tinha sido ótimo. Para meu desespero, eu não sabia de quem se tratava. Foi muito angustiante”
O relato descrito é apenas uma parte drama constante vivido pela aposentada Eliete Souza. Ela sofre de prosopagnosia. Ainda pouco conhecida, a condição neurológica é uma espécie de ?cegueira para feições?. Indivíduos afetados podem ver o rosto dos outros quase sempre tão bem quanto qualquer pessoa, mas não conseguem retê-los na memória e reconhecê-los.
Assim que a pessoa sai do campo de visão, o rosto é automaticamente esquecido. Para quem sofre deste transtorno todo mundo é um desconhecido.
LEIA MAIS: QUADRO INSTÁVEL: Conheça 10 doenças muito loucas que você nem sabia que existia
Em conversa com a reportagem do Aratu Online, por telefone, a ex-servidora pública do estado conta que se fecha os olhos não consegue visualizar o rosto de ninguém. “Já experimentei, tentando lembrar. Lembro do corpo, do caminhar, do cabelo, do riso e da voz, principalmente. Mas do rosto, não?, detalha.

Eliete vive o drama de não conseguir memorizar o rosto de ninguém
“Eu não percebia que tinha essa essa dificuldade de memorização. Na adolescência, eu era vista como a ‘duas caras’, ou então, a esnobe. Pois, eu falava, conversava com uma garota num dia, no outro já não lembrava mais dela e, indiretamente, a ignorava. Diziam que eu vivia no mundo da lua”, relembra.
Até pouco tempo, neurologistas acreditavam que apenas pessoas que sofreram lesões cerebrais poderiam ter o problema (prosopagnosia desenvolvida). No entanto, pesquisas recentes do neurocientista inglês, Brad Duchaine, e do geneticista alemão, Thomas Grüter, publicadas no Centro de Pesquisa de Prosopagnosia na Universidade de Harvard, revelaram que há casos nos quais a pessoa apresenta ?cegueira para feições? desde a infância, sem ter nenhum dano no cérebro (prosopagnosia congênita).
LEIA MAIS: OUVIDORIA SURDA: Testamos! Canais públicos não funcionam como deveriam na Bahia
“No meu caso, eu descobri que tinha prosopagnosia graças a uma amiga minha, que, curiosamente, também tem. Ela viu um artigo científico e começou a se interessar sobre o assunto. Depois, procurou um neurologista que confirmou sua condição. E aí, conversando comigo, ela viu que eu me deparava com o mesmo ‘dilema'”, explica, sem antes enumerar outras situações constrangedoras que teve que enfrentar.
“Certa vez estava com minha filha e uma colega do trabalho passou por nós e nos cumprimentou. Ela começou a conversar e eu fiquei sem jeito. Disfarçadamente, perguntei a minha filha de quem se tratava e aí, passei a agir como se nada tivesse acontecido, mas, é claro, que ficou um clima esquisito”, conta.
TÁTICAS
Segundo a neurologista Adriele Ribeiro, quem convive com a prosopagnosia se vale de algumas técnicas para reconhecer as pessoas mais próximas, os familiares, por exemplo. “O paciente acaba se apegando aos sinais óbvios como cabelo, voz, postura, jeito de andar e sobrancelhas”, explica.
“Meu marido (Adelson) e meus quatro filhos (Ricardo, Aline, Anderson e Cíntia) sabem tirar de letra a situação. Mas, é aquela coisa, como são pessoas que tenho o convívio diário é mais fácil eu ‘gravar’ seus rostos. Pelo cheiro e, principalmente, pela voz. Agora, é óbvio que já troquei um filho por outro. Mas eles mesmos corrigiram meu ato falho”.
E, se tudo isso falhar?
“Uso meu jogo de cintura. Quando encontro alguém que eu não possa conhecer, eu geralmente projeto o nível de amizade que seria aceitável para amigos de infância ou estranhos completos. É uma linha bem tênue. Sou bastante extrovertida e aí uso o jogo de cintura”.
Apesar da condição neurológica, a ex-servidora revela que encara a vida com naturalidade. “Quando exercia minha profissão, ministrava muitos cursos, tinha contato com muita gente e fazia o meu trabalho naturalmente. Nunca sofri nenhum problema no âmbito profissional por conta da prosopagnosia”. Ainda não existe cura para a doença.
O único “tratamento” é o portador aprender a driblar suas dificuldades. E, assim, tocar a vida.
HISTÓRICO
“A prosopagnosia foi descoberta no front de batalha. Precisamente, no ano de 1944, em plena 2ª Guerra Mundial. Durante um bombardeio russo, um soldado nazista se fere ? alguns estilhaços de bomba atingem sua cabeça, causando lesões cerebrais. Ele é tratado pelo neurologista alemão Joachim Bodamer, que faz uma operação para remover os estilhaços e depois aplica um teste para avaliar o estado do paciente. O médico pede que a esposa do soldado vista um uniforme de enfermeira e fique entre enfermeiras de verdade.
Veja vídeo de dona Eliete falando sobre a prosopagnosia:
Aí pergunta ao doente: ?Percebe algo de diferente nessas mulheres?? O soldado diz que não. Ele simplesmente não reconhece mais a esposa. Bodamer faz mais testes e constata o que aconteceu: o paciente está normal, só que não consegue mais identificar rostos. Nenhum deles. Para batizar esse estranhíssimo sintoma, o médico cria o termo prosopagnosia: uma junção das palavras gregas prosopo (?rosto?) e agnosia (?sem conhecimento?).
No livro Barba Ensopada de Sangue, de 2012, escrito pelo paulista Daniel Galera, o personagem principal sofre de prosopagnosia. A doença se torna um pano de fundo para mostrar um mundo inóspito, onde a capacidade de adaptação do ser humano é posto à prova a todo momento. Eliete que o diga.
Siga a gente no Insta, Facebook, Bluesky e X. Envie denúncia ou sugestão de pauta para (71) 99940 – 7440 (WhatsApp).