‘ESPECIAL SOTERRADOS’: Sem esperança, moradores de 60 bairros de Salvador vivem a iminência de uma tragédia anunciada
‘ESPECIAL SOTERRADOS’: Sem esperança, moradores de 60 bairros de Salvador vivem a iminência de uma tragédia anunciada
O Aratu Online publica nesta sexta-feira (29/4) o quinto episódio do especial ?Soterrados?, em homenagem aos mortos da tragédia que hoje completa um ano em Salvador.
Naquela manhã chuvosa, 15 perderam suas vidas em duas localidades diferentes. No Barro Branco, no Alto do Peru, próximo à Avenida San Martin, foram 11 mortos. No Marotinho, em Bom Juá, outros cinco ? todos da mesma família.
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Dois bairros unidos pela tragédia, pela pobreza, pelas ocupações irregulares e, sobretudo, pelo descaso do poder público.
Boa Leitura!
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Palco de lutas pela independência da Bahia no século XIX, o Alto do Cabrito não abandonou as características de berço. O lugar hoje serve de tablado íngreme para a peleja travada diariamente pela população que dribla a falta de estrutura, improvisa atalhos pelas encostas e convive com a morte como se fosse uma vizinha próxima, quase íntima.
É um campo minado. Qualquer passo em falso e tudo pode desmoronar sob os pés. Viver na região periférica de Salvador não é tarefa fácil. A paisagem de casas amontoadas e o medo da destruição acompanha os moradores das encostas, principalmente com a chegada da chuva e a possibilidade de deslizamentos.
Dos seus 54 anos de vida, Amadeu de Jesus tem mais de 30 no Alto do Cabrito. Para ele, há muito, as esperanças foram levadas deste pedaço de terra. A morte é, mais que tudo, uma questão de tempo — do tempo, do clima, e da chuva.
“Toda vez que chove o barro cede. A prefeitura condenou uma casa aqui em frente a minha. Condenaram o imóvel, mas disseram que a encosta fica por conta dos moradores?, reclama.
Estão, literalmente, à beira do abismo.
Em resposta, a Defesa Civil de Salvador (Codesal), órgão da prefeitura, diz que precisa saber a localização exata de cada região para avaliar os riscos e tomar providências cabíveis. Se escudam em números. Segundo mapeamento do órgão, Salvador possui 433 áreas de risco de deslizamento de terra.
As informações são baseadas no Plano Diretor de Encostas da Prefeitura, do ano de 2004. Ou seja, há 12 anos — o planejamento foi elaborado no último ano de mandato de Antônio Imbassahy, sucedido por João Henrique e ACM Neto.
Pelo documento, no total, são 60 bairros na cidade que possuem ao menos alguma área de risco. São 92 situações de altíssimo risco, 149 de alto risco, 143 de médio risco e 49 de baixo risco.
Cruzando dados, o Aratu Online contabilizou que, das 433 áreas em iminência de tragédia em Salvador, nas gestões de ACM Neto e Rui, em apenas 22% dos bairros foram feitas obras de contenção.
O medo se prolifera em outros locais não muito distantes. Na Rua Lígia Maria, em Marechal Rondon, ao menos um barranco recebe cuidado em meio a outros tantos. Cercados por encostas, os moradores rezam para não viver horrores de um passado não muito distante. ?Desmoronou tudo e só agora estão fazendo a contenção. Desde setembro que está nessa aí?, conta Silvestre Pereira de Jesus, 60 anos.
A obra foi orçada em mais R$ 3,8 milhões e foi iniciada em setembro do ano passado, em parceria entre os governos federal e estadual. A previsão de entrega é o segundo semestre deste ano — ou seja, depois do período mais crítico, que são as chuvas de abril.
A Defesa Civil de Salvador afirma ainda que “vem realizando uma série de ações preventivas para minimizar os estragos feitos pela chuva”. Entre essas, além de obras de encostas e contenção, “preparar a população para o período de chuva” — o que inclui ações de evacuação em caso de risco.
Voltamos ao Alto do Cabrito, agora rua São João. Lá, o deslizamento de terra é uma possibilidade mais que real. O espaço é estreito. Apenas motos se arriscam a transitar pelo local. ?A prefeitura nos ofereceu uma borra de cimento. Não é isso que nós merecemos?, questiona Maria de Lourdes, 55.
Há aproximadamente um ano, a rua viveu um momento triste. Um barranco cedeu com o temporal. Com ele duas casas desmoronaram e duas famílias ficaram sem abrigo. Quis o destino que ninguém se ferisse na tragédia, considerada anunciada pelas circunstâncias de ameaça que se encontravam as casas de reboco.
Com o próprio suor os moradores encontram alternativas para se proteger da chuva. Alguns homens se reuniram para retirar a vegetação das encostas, limpar a área e retirar o barro que dá sinais de possível deslizamento. ?Tememos por nossas vidas, pelas casas e pelas crianças que brincam na rua?, diz Valdete Bonfim, 58 anos.
Outro problema é a rede de esgoto a céu aberto no local. ?O cheiro é insuportável. O risco de contaminação é grande. Eu já tive dengue, zika e chikungunya, até hoje tenho a sequela?, conta Valdete.
No lugar, cada passo que se dá é possível sentir uma picada de inseto. Na falta de brinquedos, caçar tanajuras é o recreio favorito das crianças.
Quando chove não existe brincadeira, só realidade. ?As pessoas não dormem, sofrem, sentem medo de desabar tudo. A rua está condenada, mas não temos para onde ir. Estamos entregues nas mãos de Deus?, diz Maria de Lourdes.
Lona sobre lona é o que eles tem de proteção sobre a encosta. Há dois meses, a Defesa Civil forneceu o material. É a solução provisória para aplacar a força da natureza.
Distraídos pela inocência, meninos usam o barranco coberto de plástico como espaço perfeito para empinar pipa. Enquanto o pedaço de papel voa nos ares, voa a imaginação. É a solução provisória para a falta de esperança.
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