ESPECIAL ‘ELAS POR ELAS’: A história da mulher que abdicou da própria vida para cuidar do pai com alzheimer
ESPECIAL ‘ELAS POR ELAS’: A história da mulher que abdicou da própria vida para cuidar do pai com alzheimer
O Aratu Online iniciou no último domingo (6/3) uma série de três capítulos para homenagear as mulheres. Serão três histórias contadas até a próxima terça-feira (8/3), data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher.
Histórias de vida de três mulheres contadas por três repórteres mulheres.
Daí, a série intitulada ?Elas por elas?.
Veja a primeira história aqui: ESPECIAL ?ELAS POR ELAS?: Mãe de bebê com microcefalia, mulher de ?mil faces? faz do drama um tributo à vida
Boa leitura!
* * *
Abnegação. Esta é uma história de fé, amor e dedicação.
Atrasei-me um pouco, bati na porta errada. Enfim, acertei! Vi uma mulher no portão preto da casa nº 3 com um sorriso tímido. Era ela, entramos. Na sala uma senhora muito simpática se levantou para conferir a comida que preparava.
Sentei no sofá, olhos verdes e brilhantes, molhados pela prévia emoção. Eu olhava profundamente e enxergava a alma abnegada, doada totalmente para outra vida. No seu rosto as marcas da vida, das batalhas, da satisfação de ter feito o que pode e a tristeza da saudade pela perda de seu pai — seu Wilson.
MISSÃO DE FÉ
De família católica, Débora Alencar, 42 anos, é contadora, mulher, filha, irmã, tia e generosa. Aprendeu com o pai, Wilson Alencar, a respeitar as pessoas. Ele era diácono ? pessoa encarregada de executar o “serviço do ministério de Deus”, deixando de ser um simples leigo e passando a pertencer ao grupo do clero.

Um canto de oração na sala. Bíblia aberta em Matheus, capítulo 8. A leitura do livro sagrado é diária.
Ele se dedicava muito às coisas da igreja, já estava aposentado. Nós começamos a perceber que ele apresentava algumas limitações, esquecia algumas coisas?, conta Débora sobre o início dos sintomas.
?Seu Wilson?, como era conhecido, conviveu seis anos com o Alzheimer ? doença neuro-degenerativa que não tem cura. A doença se agrava progressivamente até levar à morte. Geralmente é diagnosticada em pessoas com idade superior a 65 anos, mas pode, sim, ocorrer mais cedo.
Logo que percebeu que algo estava diferente, Débora levou o pai para tratamento neurológico. Em um determinado momento seu Wilson caiu e quebrou o fêmur. A partir daí outros sintomas se desencadearam.
?Você vai percebendo que a pessoa está perdendo as forças, perdendo tudo e a gente não pode fazer nada. Claro que tudo que a gente podia fazer a gente fazia, o que o médico dissesse a gente corria atrás. O difícil, o mais duro é ver a pessoa ali, o caminho que vai ser. A perda dos movimentos, da lucidez…?.
Este é um momento delicado. Débora relembra a dor. No verde da piscina dos seus olhos, eu mergulho na história e percebo que tenho muito para aprender com ?seu Wilson? e suas lições póstumas.
Cama hospitalar, aspirador, novas medicações, novas orientações. Assim era a rotina entre uma internação e outra. Até que ele foi perdendo os movimentos e tudo foi sendo adaptado pela família. A casa, a rotina, os passeios e principalmente a vida de Débora que agora era compartilhada, não pertencia mais somente a ela. Mas todas as alterações alimentavam a esperança de que o pai tivesse um pouquinho mais de tempo de vida.
[Pausa] Os soluços da lembrança de Débora provocam silêncio.
Foram momentos muito complicados até a morte. ?Minha mãe estava sempre presente e pela preparação que a gente tem e a fé em Deus, isso ajudou muito. A gente entendia que essa doença veio para ele, não vem para todo mundo. Meu pai tinha uma missão ali?, explica.
Para Débora, os ensinamentos transpuseram os quatro cantos da casa e chegaram para outras pessoas. ?A gente sabia que ele estava ali, mas ensinando a gente de alguma forma. E ela [Dona Terezinha] não saia de perto. Minha mãe também tem as limitações dela e procurávamos cuidar dela também?, lembra.
SOBRE O AMOR:
Uma das definições mais difíceis, talvez seja sobre o que é o amor.
E amar é uma escolha.
São cinco irmãos. Duas mulheres e três homens. Cada um foi seguindo seu caminho e Débora foi ficando, entrou para a faculdade, fez pós-graduação e levava uma vida considerada normal — sem grandes sobressaltos.
Nos finais de semana costumava sair com amigos, ia ao shopping, cinema, festinha em família. Tudo no script.
Até que ela foi abdicando de algumas coisas e entendendo que elas poderiam ser feitas depois. Pois aquele momento deveria ser com o pai. ?Algumas pessoas pensam que depois que se tornam adultas precisam viver suas vidas, eu também preciso. Só que eles [seus pais] fazem parte dela e não posso abandoná-los?.
“Eu fiz essa escolha e não me arrependo, é muito gratificante”.
?O pessoal brincava ?você é a queridinha dele?, não era isso. É porque eu era quem convivia com ele?, conta.
Chegar do trabalho e ouvir de seu pai: ?Oi, amor! Que bom que você chegou?, ou coisas desse tipo era o que justificava toda dedicação. ?Era muito gratificante estar perto dele?, relembra.
No quadro da sala uma pintura feita por um artista. Na imagem estava a família reunida. Os irmãos sempre apoiaram e ajudaram Débora e dona Terezinha a cuidar do patriarca da família. União foi uma das coisas que ele ensinou enquanto convivia com a doença.
Ela diz que se houver a necessidade de fazer tudo igual com a mãe, ela fará também. Hoje ela tem a satisfação em dizer: ?tudo que eu pude fazer e o que eu vivi com ele foi muito bom?.
Feita para o amor, da cabeça aos pés.
DEDICAÇÃO NÃO É SACRIFÍCIO:
?Passeios, encontros. Nem contem comigo?.
Existem casos em que as pessoas abandonam as outras por acharem que estão se entregando, mas Débora recebeu apoio dos amigos, achavam legal o que ela fazia pelo pai. Até no trabalho contou com a compreensão dos seus colegas.
Débora conta que já teve alguns relacionamentos, claro, mas em algum momento da vida ela deixou isso de lado e decidiu caminhar de acordo com a necessidade que eles tinham para dar atenção aos seus pais. ?Os namorados acabaram ficando para trás?, diz.
?É como se eu tivesse na minha cabeça que eu deveria aproveitar ao máximo todos os momentos que eu pudesse com ele. E o resto eu deixava para depois?.
E deixou.
Seus irmãos construíram seus núcleos familiares. Débora ainda não. Não tem filhos. Preferiu inverter os papéis. Cuidar dos pais.
A cada duas ou três horas ela tinha que dar alimentação, remédio — entre outros cuidados. ?Às vezes eu chegava em casa e sentava, esquecia, ai levantava e pensava que não era momento de sentar, eu precisava ficar de pé e fazer as coisas para ele?, relata.
De manhã era a hora do banho, seu irmão que mora em cima da casa dos pais ajudava nesta tarefa. ?Não abríamos mão desse momento. O que a gente pudesse fazer com ele e por ele nós fazíamos, não tinha porque contratar alguém para fazer?, afirma
A hora do banho era uma vergonha para seu Wilson pelo fato de ser banhado pela filha mulher. Depois era a vez do mingau e a missão da fase um estava completa.
?Os médicos falam que quem cuida sofre mais. Pois a gente vê a pessoa decaindo, decaindo aos poucos?, diz, emocionada.
Cada fase que enfrentava era difícil, mas a família se fortalecia na fé.
?A fase final foi terrível porque ali a gente percebeu que estava chegando o fim (chora). Então da última vez que ele se internou o médico conversou com a gente: ?Não tem mais o que fazer?, relembra.
?A gente só queria ficar perto dele, isso é difícil de decidir. Enquanto a gente vê que ele tá passando mal e tem a alternativa de levar no hospital, ou qualquer outra coisa para que ele ainda fique a gente quer fazer?.
?É difícil dizer que quer deixar ele ali para morrer, é horrível?.
ORAÇÃO AO TEMPO:
Tudo ainda está muito recente. Seu Wilson faleceu em 17 de janeiro deste ano. ?Eu ainda não consegui mudar a rotina. Tudo era voltado para ele. Se a gente vai à cozinha, lembra que quando estávamos lá ele nos acompanhava na cadeira de rodas, quando estamos na sala lembramos que ele estava no banco dele sentadinho e quando a gente brincava, quando ele ainda falava, brincava também?, diz, saudosa.
?Agora tem um vazio (chora). Um vazio muito grande, mas a gente tem se conformado por conta da fé que a gente tem em Deus e de alguma forma te prepara para esse momento. Mas é claro que nunca a gente quer que esse momento chegue e quando chegou graças a Deus a gente ficou bem. Eu só não consegui ainda fazer planos. Eu sei que tenho que caminhar, a vida continua, mas por enquanto eu estou muito preocupada em como minha mãe está?.
Ela espera o tempo passar para ir se acostumando com a ideia de que não tem mais o pai, que precisa fazer novos planos, até a vaidade esquecida precisa ser lembrada. Precisa voltar a sair e lutar de novo, mas agora de outra forma. ?Quero fazer outras coisas, uma ação social, algo que me faça sentir útil para a sociedade?, finaliza.
MULHER, MULHER:
Em tempos de empoderamento há uma visão distorcida sobre o que é a mulher. Estamos acostumados a contar grandes histórias de ascensão, conquista de espaços, como se a ?nova mulher? só fosse poderosa por ter que deixar seu filho em casa e ir para a batalha. A presidente de uma grande multinacional bem sucedida. Isso é bacana. Mas não único exemplo. Podemos contar a história de uma grande mulher que dedica sua vida para o amor.
Débora Alencar é supervisora financeira na maternidade de referência e se desdobrou entre os cuidados com o pai e o trabalho.
?Na empresa que eu trabalho existem muitas mulheres na chefia e cargos de alta gestão, mas eu entendo que ainda há um problema de equiparação salarial, de valorização da mulher. É o que ainda enfrentamos?, avalia Débora.?O mínimo que você puder fazer, mesmo que por uma só pessoa, você já tá fazendo o bem?, ensina.
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