DOAÇÃO DE SANGUE: Por preconceito, gays reclamam dificuldades em exercer solidariedade
DOAÇÃO DE SANGUE: Por preconceito, gays reclamam dificuldades em exercer solidariedade
Por Da redação.
Com objetivo de fortalecer o alerta sobre a importância da doação de sangue, o Ministério da Saúde está realizando a Semana Nacional do Doador de Sangue, que pretende ganhar novos doadores e fidelizar os antigos. A campanha faz parte das celebrações do Dia Nacional do Doador de Sangue, festejado nesta sexta-feira (25/11).
Mas o que muita gente não sabe é que o problema vai muito além do baixo estoque nos bancos de sangue espalhados pelo Brasil. Muitos doadores, que são homossexuais, estão reclamando que não conseguem exercer esse ato de solidariedade por puro preconceito e muitas vezes má vontade de alguns atendentes e enfermeiros.
João Vitor, de 28 anos anos, é enfermeiro e doador de sangue, mas ainda não tem a ‘carteirinha’ da Fundação de Hematologia e Hemoterapia da Bahia. De acordo com ele, pelo fato ser homossexual já passou por situações constrangedoras e até já deixou de doar por conta desse tipo de atendimento dos profissionais que recebem esse público.
“Eu já doei para familiares, amigos e desconhecidos. Mas quando você chega lá e percebem que você é homossexual, eles perguntam se você já teve relações com pessoas do mesmo sexo e isso é constrangedor para qualquer um”, contou ele em tom de revolta.

Ainda segundo ele, por conta desse tratamento e vontade de ajudar alguém que esteja precisando das doações, muitas pessoas omitem que tiveram relações recentemente. “A pessoa tem que mentir para ter como fazer o bem”, comentou.
O enfermeiro acredita que esse tipo de triagem é desnecessária, já que nos dias atuais as pessoas tem acesso a informação e sabem que a prevenção com camisinha na hora do sexo é importante. Além disso, ele revela que antes do sangue do chegar no paciente passar por diversos exames, por isso o modelo de entrevista deveria ser alterado.
“O julgamento que eles fazem é errado e fica parecendo que ser homossexual torna seu sangue impuro. Ser gay não difere o sangue de ninguém, até porque um hétero pode não ter um sangue tão saudável como um gay”. concluiu.
A estudante de administração, Camila Olivia, de 23 anos, é heterossexual e conta que notou a dificuldade vivida pelos gays quando sua irmã, Rafaela Souza, de 23 anos, que morreu vítima de leucemia, precisou de doações para continuar o tratamento contra o câncer.
Segundo ela, alguns dos seus amigos que são gays não conseguiram fazer a doação, outros nem tentaram, pois já sabiam das dificuldades que passariam.

“Um dos meus amigos não pôde doar pelo simples fato de ser gay e isso é terrível. Por sorte, minha irmã teve muitas outras doações”, contou.
Camila diz ainda que se fosse ela a situação seria ainda pior, uma vez que a maioria dos seus amigos são gays. “É um absurdo, se fosse comigo eu estava em uma situação ainda mais delicada. Tenho muito amigos gays”, concluiu.
JUSTIÇA
O Presidente da Comissão da Diversidade Sexual e Enfrentamento à Homofobia OAB, Filipe de Campos Garbelotto, explica que existem determinações específicas que vedam a doação de sangue por homens que tenham praticado sexo com outros homens nos últimos 12 meses. São elas: art. 64, IV, da Portaria nº 158/2016 do Ministério da Saúde e do art. XXX, alínea ?d?, da Resolução da Diretoria Colegiada nº 34/2014 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária ? ANVISA.
Segundo ele, a negação da doação não é direcionada a ‘homossexuais’, mas homens que fazem sexo com outros homens e que não estejam em abstinência há 12 meses.
“Essas vedações se baseiam em suposta tentativa de aumento na prevenção de transmissão de doenças sexualmente transmissíveis pela doação de sangue e tem a ver com a suposta impossibilidade técnica de se identificar algumas doenças em virtude da ‘janela’ de tempo entre a contaminação e o momento em que se torna detectável em exames de sangue”.
Ainda de acordo com Filipe, o Conselho Federal da OAB através da Comissão Especial da Diversidade Sexual, tem se manifestado contra as situações que dificultam a doação de sangue. Ele aconselha que ao passar por algum tipo de constrangimento procure a justiça.
“Devem sim efetivar seus direitos, buscando um advogado particular, o Centro de referência LGBT na Av. Oceânica, o MP ou a Defensoria Pública”, concluiu.
HEMOBA
Através de nota, A Fundação de Hematologia e Hemoterapia da Bahia respondeu a produção do Aratu Online, e explicou como realiza o atendimento. Confira a nota na íntegra:
A Fundação Hemoba segue rigorosamente a legislação vigente (Portaria MS nº 158/2016) para atendimento a todos os seus doadores, sendo esta legislação aplicada em todo o país. Assim, não há necessidade de tratamento diferenciado ou treinamento específico da equipe para o atendimento ao grupo de doadores em questão, pois o referido atendimento é padrão para todos os candidatos à doação de sangue.
O candidato à doação realiza um cadastro, em primeiro lugar, depois segue para triagem clínica e hematológica. Após averiguação das condições de saúde, o candidato considerado apto nas duas triagens referidas anteriormente, segue para a doação de sangue. Você poderá observar as condições básicas no nosso site (www.hemoba.ba.gov.br). Caso tenha maiores dúvidas, você poderá acessar a Portaria MS n° 158/2016, também disponível no site.
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