BONS FRUTOS: Detentos cultivam produtos orgânicos no presídio e vendem em feira no Cabula
BONS FRUTOS: Detentos cultivam produtos orgânicos no presídio e vendem em feira no Cabula
Corre, que é dia de feira!
São quase 9h e o movimento é bom! Aliás, a vendagem começou faz um tempinho! De repente, um furgão chega e estaciona a poucos metros das barraquinhas. Atrasados, dois homens, de idades um tanto avançadas, mas com vigor de jovens trabalhadores, descem do carro e correm carregando seus produtos. A ideia é não perder tempo e arrumar logo a mercadoria, pois precisam vender os frutos da labuta do dia a dia.
A feira é livre, mas os feirantes que acabaram de chegar estão em privação de liberdade: João Pinheiro dos Santos, de 62 anos, e Cícero Alves de Souza, 60 anos, foram condenados, respectivamente a 12 e 16 anos de prisão, inicialmente em regime fechado. Hoje, concluem o cumprimento de suas penas, em sistema semiaberto, no presídio Lafayete Coutinho, em Salvador.
Os dois garantem que foram acusados de crimes que não cometeram. No entanto, já estão mais próximos da liberdade definitiva do que antes. João está preso há sete anos e Cícero tem dez que começou a sua penitência. Atualmente, na unidade prisional, eles dedicam a maior parte do tempo aos cuidados de uma horta, onde cultivam produtos orgânicos com qualidades comprovadas e controladas.
O cenário descrito nesta narrativa inicial foi verificado na manhã do último dia 30 de novembro em um espaço que fica ao lado da quadra de esportes do campus da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), no bairro do Cabula.
O veículo que fez o transporte dos dois detentos era uma viatura da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap). O evento foi a Feira Agroecológica que acontece no local, há pouco mais de um mês, sempre às quintas-feiras, das 7h às 13h.
Confira a chegada dos internos no vídeo abaixo:
Integrante do Centro Acadêmico de Educação do Campo e Desenvolvimento Territorial da Uneb ? um dos departamentos responsável pela realização da feira ? o professor e agroecólogo, Eduardo Guimarães, ressalta que todos os alimentos são produzidos sem agrotóxicos e fertilizantes químicos.
?A ideia é fazer com isso aqui se torne a feira do Cabula e que o morador do bairro tenha a oportunidade de consumir um produto que alimente sem provocar doenças?, enfatizou, chamando a atenção para o avanço do número de casos de câncer que hoje é uma realidade por conta dessa prática.
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Participam desse projeto, produtores de cooperativas, associações e de movimentos sociais, além dos internos do sistema prisional. Segundo Eduardo Guimarães, todos são acompanhados pela Uneb, no sentido de garantir a qualidade dos alimentos produzidos. ?A cada quinze dias, tem um técnico da universidade que visita a horta do presídio, realizando consultorias e oficinas que orientam no cultivo dos produtos?, citou, como exemplo, o professor.

Além dos internos, participam da feira, produtores de cooperativas, associações e membros de movimentos sociais. Foto: Dinaldo dos Santos
COMUNIDADE ACADÊMICA APROVOU
Os preços na feirinha são bem “em conta” e a qualidade dos produtos ofertados agrada, ainda, mais. Funcionárias do serviço médico da Uneb, a psicóloga Mirela Uzeda e a fisioterapeuta Vânia Fonseca aproveitaram um momento de folga no trabalho e deram uma fugida para fazer uma comprinha.
?Gosto muito dessas coisas naturais: do cheiro, do gosto. Precisamos saber valorizar isso!?, exclamou a psicóloga. ?Vi um molho pesto maravilhoso e maracujás belíssimos, coisas como eu não via há muito tempo?, acrescentou. Vânia, também, não deixou de elogiar e disse, simplesmente, que a feira é fantástica. ?O problema é só eu lembrar que é toda quinta pra não perder a oportunidade!?, comentou, sorridente.

Funcionárias do departamento médico da Uneb, Vânia e Mirela elogiaram a Feira. Também servidora, Luzinete já é freguesa. Fotos: Dinaldo dos Santos
Outra servidora da universidade, Luzinete Gama, já virou freguesa. Disse que conheceu o evento em uma divulgação no Facebook. Já havia ido ao local, uma vez, aprovou e voltou de novo. Ela procura sempre por verduras e cheiro verde. ?A qualidade é muito boa! Claro que é um produto ‘menorzinho’, porque não tem agrotóxico, mas é outra coisa!?, disse satisfeita.
INCLUSÃO SOCIAL
A participação dos internos do sistema prisional na feira orgânica foi possível graças à intervenção do Instituto Popular Cárcere e Direitos Humanos José Pereira Conceição Júnior (IPCDH), organização que atua no âmbito da concretização dos direitos humanos dentro do sistema prisional.
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?Nós auxiliamos essa relação institucional com o intuito de fazer com que a sociedade considere essas pessoas como seres humanos e trabalhadores capazes de gerar renda?, pontuou a coordenadora do Núcleo de Formação e Trabalho do IPCDH, Marcele do Valle.
Segundo a ativista, a partir do momento que foi identificado que havia plantações dentro do presídio e que essa atividade não era considerada como trabalho, o instituto decidiu tomar uma atitude. ?A gente viu que havia uma contradição forte, e uma ilegalidade, porque se trata de um trabalho e teria que ser considerado como tal?, ressaltou.
Ainda de acordo com a coordenadora, o primeiro passo foi buscar o espaço onde poderia ser vendido esses produtos. Inicialmente aconteceu uma parceria com a Ufba que, por ora, está suspensa. “Lá conhecemos o pessoal da organização do evento agroecológico da Uneb, oportunidade que proporcionou essa participação”, relatou.

Atividades na horta orgânica da unidade prisional. Fotos: IPCDH
Ao todo, dez internos da Lafayete Coutinho fazem parte do projeto da horta orgânica. São eles que cuidam dos procedimentos de plantio e colheita das hortaliças. ?É lógico que existe uma supervisão, a partir de parcerias com alguns agrônomos?, salientou Marivaldo Oliveira, diretor adjunto da unidade, em entrevista ao Aratu Online.
A cada semana, os ?feirantes? se revezam em duplas ou trios nas atividades do evento no Cabula. A arrecadação de tudo que é vendido é repassada para a administração da Lafayete e, depois, é dividida, mensalmente, em dez partes iguais. Os valores são depositados nas contas que foram abertas para eles no Banco do Brasil.
?É um dinheiro que serve para a compra de alguns utensílios pessoais e até mesmo para ajudar a família?, ressaltou Marivaldo, lembrando que, durante as feiras, são os próprios internos que lidam com o movimento do caixa. ?É preciso ter essa confiança. A gente não pode criar um mecanismo de reintegração social do ser humano e estar a todo momento naquele processo de vigiar e punir?, destacou.

Entre João Pinheiro e Cícero Alves, Marcele do Valle participa da Feira. Ao lado, Joselita Gavião (em prisão domiciliar) expõe sua mercadoria. Fotos: Dinaldo dos Santos
EGRESSOS
Os egressos do sistema prisional também são assistidos pelo IPCDH. Joselita Gavião, 58 anos, sentenciada em 18 anos de reclusão, cumpriu dois anos e nove meses no presídio feminino do Complexo Penitenciário da Mata Escura. Atualmente, está em prisão domiciliar, beneficiada pelo direito da remição de pena que obteve, graças ao seu bom comportamento e participações em atividades laborais.
A feira orgânica da Uneb funciona, também, como um espaço de inclusão social e, dessa forma, abre precedentes para a comercialização de outros produtos. Costureira e bordadeira ‘de mão cheia’, Joselita tem levado suas confecções ao local, tentando gerar renda para a sua subsistência.
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