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PERFIL: Aos 80, Tom Zé inaugura exposição e contraria lógica cartesiana. O tempo não existe

PERFIL: Aos 80, Tom Zé inaugura exposição e contraria lógica cartesiana. O tempo não existe

PERFIL: Aos 80, Tom Zé inaugura exposição e contraria lógica cartesiana. O tempo não existeTom Zé, durante visita guiada da sua exposição. Fotos: André Uzêda

Nas próprias palavras, Tom Zé se define no trinômio “gaiato-sertanejo-falador”. Aos 80, mantém a verve criativa de quem compõe “com a virilha entrando pelo intestino” e dispara sua metralhadora tagarela implacável rememorando, entre cartuchos fragmentados, diferentes passagens de sua vida.

“Maria Bago Mole não aguentava ver um menino de 12 anos em Irará. Ela o cercava até que ele a comesse. Maria Bago Mole iniciou quase todos por lá. Eu comecei a ver aquilo com a divindade que merecia. Os gregos cultuavam a figura de uma deusa que iniciava os meninos até torná-los homens. Vejam vocês, Maria Bago Mole era uma deusa. Então fiz uma música só para ela”, canoniza, em riso frouxo, o octogenário tropicalista.

Na última terça-feira (5/7), vindo de São Paulo, Tom Zé recebeu a imprensa para uma visita guiada sobre a exposição que o homenageia. “Tom Zé 80 anos” está em cartaz na Caixa Cultural, na Avenida Carlos Gomes, no centro caduco de Salvador. Curador, o artista plástico André Vallias remontou a trajetória musical do cantor numa linha de tempo cronológica, revisitando sua obra e contextualizando, passo a passo, os 28 discos de sua faustosa produção.

Ao passo que a tentativa cartesiana é louvável, não deixa de se revelar um hipopótamo contrassenso. Tom Zé é o oposto desta racionalidade construída. Condensa a temporalidade em estilhaços saltitantes, juntando o púbere que iniciava os primeiros movimentos sexuais com o estudante, mais mocinho, da Escola de Música de Salvador. Em outro mergulho, já se transmuta no repórter foca (“explorado”) do extinto Jornal da Bahia.

“Eu tinha uma moral retada com o pessoal da Escola de Música. Eles nunca conseguiam emplacar nenhuma notícia das suas apresentações no jornal. Mas eu sabia como funcionava esse negócio de fazer jornal. Tinha trabalhado lá. Sabia que as informações mais importantes tinham que vir no começo e as menos importantes, depois. Aí eu já construía o texto todo nesse formato e já fazia uma foto que sabia os jornais iriam usar. Eles achavam que eu era um tipo de mágico quando viam as coisas lá, publicadas”, brinca.

A faceta de músico não poderia surgir sem um marco para estabelecer o início da mitologia.

“Roberto Santana, jornalista desses bons, disse que eu ia tocar em Salvador. Eu já tinha umas músicas feitas, mas não poderia tocar em Salvador com elas. Ninguém por lá queria saber de Maria Bago Mole. Então, fui na banca e comprei uns jornais. Aí fiz umas estrofes com músicas que falavam de uma notícia de forma positiva. Depois, fiz uma outra estrofe com jornais que falavam mal da mesma notícia. E fui me apresentar. Quando percebi o público rindo, pensei: ‘ganhei eles. Sou músico’. E aí foi indo… E tô indo até hoje”.

Tom Zé explica a exposição “Tom Zé 80 anos”

A canção inaugural foi batizada de ‘Rampa para o Fracasso’.

Um jornalista da TV Bandeirantes, que acompanha a exposição, saca a piada ali dando sopa e arremata: “Então, seu primeiro sucesso foi Rampa para o Fracasso?”

Tom Zé ri, bobo.

“Hahahaah… Boa essa! Meu primeiro sucesso foi Rampa para o Fracasso. Agora tô descendo de ré”.

TROPICALISMO, 50

Embora a metralhadora mantenha potência e precisão, vez ou outra, engasga em lapsos de memória. Quando a palavra foge, Tom Zé recorre ao interlocutor mais próximo. “Como é o nome mesmo daquilo?”. Se a resposta não vier a contento, repreende. “Não, não era isso. Cadê Neusa nessas horas? O pessoal em São Paulo diz que Neusa é meu Google“.

Neusa Martins, 75, é casada com o artista gênio desde 1960. Jornalista, o entrevistou pela primeira vez na terra da Garoa e dali mesmo desembocou o longevo romance. “Ela é a intelectual. Eu sou analfabeto. Neusa tem uma cabeça ótima. E, já eu, esqueço várias coisas”, pontua.

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Mas, quando o “sopro” é certeiro, Tom Zé acena com um sorriso para o bom samaritano que vem ao seu socorro. “Sou Libra com… Como é o nome daquilo mesmo?”… “Ascendente”, digo.

Ele me cumprimenta num sorriso. “Isso! Isso! Com ascendente em Leão”.

Ao lado de Caetano, Torquato Neto, Gil, Mutantes e Gal, Tom Zé é membro fundador do movimento Tropicalista. Em 2017, completa-se 50 anos do primeiro festival que definiu e moldou o caráter do movimento.

Tom Zé, durante entrevista na Caixa Cultural

“Os tropicalistas mostraram que dava pra juntar rock com as coisas daqui do Brasil. Eu ouvia muito Beatles e [Jimi] Hendrix nessa época. Quando ouvi os tropicalistas pela primeira vez pensei comigo mesmo: ‘puxa! Dá pra fazer rock com samba. Temos nossos próprios Beatles que são Os Mutantes’. Foi um momento especial para a música. Eles chegaram fazendo coisas novas num meio que tinha muita coisa velha”, pontua Armandinho, instrumentista e criador da Guitarra Baiana.

Da criação à desavença passaram-se um punhado de anos. Tom Zé pediu as contas. Já não se identificava tanto com os ideais defendidos pela turma e se afastou sob a alcunha e carimbo de ‘Trótski do tropicalismo’ — numa referência irônica ao líder russo, assassinado no México, e apagado posteriormente dos anais da Revolução de 1917 por ter adotado posturas contrárias ao levante.

Tom Zé foi redescoberto na década de 1980, pelas mãos e olhar de David Byrne, ex-líder da banda punk Talking Heads. Iniciou, a partir disso, uma profícua carreira internacional pelos Estados Unidos e Europa.

A internacionalização, no entanto, não demoveu um grama da identidade local da sua alma ‘Made In Irará’. Se na infância ele que habitava a cidade e se inspirava em seus cidadãos alegóricos, hoje a cidade mora nele edificando cada uma das suas representações.

“Qualquer lugar do mundo que eu vou, minha mulher diz que estou em Irará. Outro dia estava em Bruxelas [capital da Bélgica] e ela me disse que eu me achava em Irará. Achei tão bonito isso”, diz.

MACONDO SERTANEJA

Encravada no sertão da Bahia, a 128 km da capital, Irará mora, repito, em Tom Zé. Da exposição montada, as coisas que ele mais gostou, segredou mais tarde, foram relacionadas à sua infância.

Eu sofro de juventude
Essa coisa maldita,
Que quando tá quase pronta
Desmorona e se frita.

Escreveu, certa vez.

Freud diz que da infância carregam-se os traumas e onde se constitui o indivíduo.

De Irará, o artista lembra como os tios, comunistas, discutiam as coisas importantes do mundo — entre política, filosofia e causas humanitárias. De como a cidade definiu os olhos com os quais passou a ler o mundo.

“Trabalhei como balconista de um armazém e conversava com todo tipo de gente. Aprendi tanta coisa. Aprendi como o sertanejo fala. Aí, um dia conversei com uma amiga, e disse que li Guimarães Rosa na infância. Ela, já na faculdade, me chamou de mentiroso. ‘Como você leu esse livro difícil na infância? Impossível!’. Eu respondi: ‘Pra mim sempre foi fácil. Ele escreve exatamente como o sertanejo fala. E esse idioma eu domino’. Acho que ela nunca acreditou”.

Irará tem a força da Macondo fictícia de Gabriel Garcia Márquez — superlativa no encantamento e em personagens do realismo fantástico do clássico ‘Cem anos de Solidão’.

O tempo não existe. É uma convenção.

O menino que ganhou o mundo, aos 80, ainda está, afinal, sentado no quintal de casa.

 

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