“Nossa vida como mulher já é difícil em todos os sentidos”, diz jornalista baiana, nova curadora da Flip
“Nossa vida como mulher já é difícil em todos os sentidos”, diz jornalista baiana, nova curadora da Flip
Por Da redação.
Joselia Aguiar nasceu em Salvador e se intitula como ??luso-afro-baiana??. A jornalista que aos 18 anos, na sua primeira experiência como repórter, era tida como ??frágil?? pela pouca idade, alçou vôo e, agora, se prepara para uma nova experiência. Após anos vivendo em São Paulo e se dedicando a temas relacionados às artes, ela foi anunciada, semana passada, como a nova curadora da maior Festa Literária do país, a Flip.
A Aratu Online conversou com Joselia sobre a Flip (Festa Literária de Paraty), Bahia, arte e cultura. Confira a íntegra abaixo:
Aratu Online: É de conhecimento geral que Salvador é um lugar bastante diverso culturalmente. De que forma você acha que ter nascido neste berço multicultural pode influenciar na produção da Flip?
Joselia: Eu digo que sou luso-afro-baiana (Risos). Porque tem uma parte da minha família que é portuguesa. Certamente, na mistura, há índios, negros e talvez judeus. Quando eu virei repórter do extinto jornal Bahia Hoje, eu cobria a cidade e a cultura. Descobri as Festas Populares, o Candomblé, enfim, as pessoas, a história da Bahia. Então eu acho que isso tudo me fez conhecer vários ângulos de uma cidade tão multicultural como Salvador. Eu acho que isso tudo dá uma certa abertura pra eu fazer alguma coisa que eu já pratico na minha vida social, profissional. Uma certa curiosidade de estar atenta à diversidade, a autores, temas, linguagens que talvez estejam foram do cânone pra a realização da Flip.
Aratu Online: Cada vez mais as mulheres têm ocupado lugares de destaque e liderança. Na Flip, no entanto, apenas uma mulher, a editora Ruth Lanna, já fez a curadoria do evento. O que significa, pra você, ser a segunda mulher a ocupar o posto de curadora da maior festa de literatura do país?
Joselia: A nossa vida como mulher já é difícil em todos os sentidos. No dia a dia, pra se firmar profissionalmente, a gente já vive isso. Na universidade, nos lugares onde eu trabalhei… Até porque eu tenho um jeito, digamos assim, um pouco mais sereno. Eu lembro de uma grande chefe que eu tive, no Bahia Hoje, Gabriela Maia, quando eu tinha 18 anos. Quando eles me contrataram, eu era muito jovem, boazinha (risos).Um dia ela me disse que quando, me viu chegar, ficou preocupada, porque achou que eu pudesse ser uma pessoa, sei lá, desatenta. Ela deu a entender que todo mundo gostou de mim, simpatizou, mas achou assim, que talvez eu fosse frágil, não sei. Aí ela disse que, em 6 meses, eu demonstrei que tinha mais fibra que muita gente. Eu nunca me esqueci disso. A gente, como mulher, as vezes é cobrada pra ter posturas, muitas vezes, super firmes pra provar alguma coisa. A gente contraria até nossa própria natureza pra poder demonstrar que, de fato, tem firmeza. E não é bem por aí. Então, assim, eu acho que, claro, é um desafio enorme fazer a curadoria do maior festival literário brasileiro, mas esses desafios estão no dia a dia de todas as mulheres. Uma mulher que tá iniciando um negócio, que é funcionária pública, mas que tem que criar seus filhos. Então eu não me sinto diferente das outras mulheres que também passam por dificuldades de afirmação.
Aratu Online: Na ocasião em que Ruth foi a curadora, a homenageada do evento foi a escritora Clarice Lispector, o que resultou numa ??dobradinha?? feminina na Festa. Você já afirmou, em uma entrevista recente, que também pretende, enquanto curadora, ressaltar alguma parcela tida como ??minoritária??. De que forma você pretende fazer isso?
Joselia: Em 2013, eu e mais algumas pessoas fizemos uma espécie de campanha na internet pra emplacar o nome do Lima Barreto como o homenageado da Festa. Essa campanha teve um nome muito importante- na verdade, talvez só tenha surgido por causa dela-, chamada Denise Bottmann. A Denise organizou um baixo assinado, a gente saiu procurando assinaturas de intelectuais, artistas… Muita gente assinou, o Gilberto Gil, o João Ubaldo, muita gente de universidade. Mas o nome dele não emplacou. Então, agora, eu estou fazendo o possível pra emplacar o nome dele (risos). Porque o Lima Barreto é um grande autor negro brasileiro e que teve condições de vida e de profissão muito difíceis, por causa dessa condição. É interessante pensar no lugar que ele precisa garantir nessa tradição literária brasileira. Então eu posso dizer que eu vou fazer o possível pra garantir que essas minorias sejam representadas. Se o Lima Barreto tivesse emplacado, eu me sentiria livre pra escolher outros nomes importantes. Como os das escritoras Cecília Meirelles e Hilda Hilst. Mas agora eu me sinto comprometida com aquela campanha de 2013, então eu não tenho como, neste momento, levantar outra bandeira. Tem um nome muito legal que as pessoas estão lembrando, que o da Carolina de Jesus. São três nomes muito fortes para um dia serem homenageados, quem sabe em 2018 (risos).
Aratu Online: Você está trabalhando numa biografia sobre Jorge Amado, um escritor que, na Ditadura Vargas, teve seus livros queimados e foi exilado. Hoje, não se vive numa ditadura, mas alguns valores como ??democracia?? entraram na pauta das discussões. Que livro do escritor baiano você acha que poderia resumir bem o contexto político atual?
Joselia: Ai, deixa eu pensar. Bom. Acho que ??Navegação de Cabotagem?? é um livro de Jorge Amado que poderia nos servir, agora, para a leitura. Porque esse livro? Eu acho que quem o lê pode ter um painel riquíssimo do que aconteceu no século XX, em termos de política e literatura, através de ponto de vista de um escritor brasileiro que passou por isso tudo. Então, você começa a entender que muita coisa que acontece hoje já aconteceu no passado, que muita coisa que acontece hoje é um repetição do que aconteceu no passado. E, também, que muita coisa ainda não se resolveu socialmente. Então você vê, no livro, uma espécie de batalha entre intelectuais e artistas pra tornar o Brasil um país com mais cidadania, mais oportunidade, até mesmo pra a criação dos artistas. Acho esse livro um excelente panorama, eu recomendo ele.
Aratu Online: Ainda falando do atual contexto político do país, você acha que a Flip pode ser um espaço para manifestações políticas? Em que ponto encontro poderia favorecer a discussão de projeto de Brasil que transcenderia a literatura?
Joselia: Nas mesas literárias você tem escritores, artistas, enfim, pessoas que estão produzindo reflexões sobre a própria literatura, as artes, mas também sobre o país, o mundo. Então mesmo nas mesas mais literárias, a gente não tem como prever qual o rumo que o diálogo vai tomar. Às vezes ele toma caminhos muitas vezes não imaginados. As pessoas estão livres para falar, dar opinião, tomar vários caminhos. Eu acho que é importante pensar que, sim, essas experiências como a Flip contribuem muito para o diálogo. Então é mais uma oportunidade pra colocar vários assuntos em pauta.
Aratu Online: Na última Flip, houve uma polêmica com a discussão da Lei Rounaet. Como enxerga essa lei e, pra você, quais os impactos da possível aprovação da PEC 241 sobre ela?
Joselia: Bom, mesmo as pessoas que defendem a Lei sabem que ela precisa de ajustes. Mas ajustes em relação ao funcionamento. Existe um caminho um pouco perigoso que as pessoas que não trabalham com a arte, cultura, às vezes tomam que é achar que os artistas estão sendo beneficiados de uma maneira que não deveriam. Às vezes, elas não têm informação para poder entender melhor. Até porque existem, muitas vezes, propagandas que não informam, mas que distorcem a Lei. É claro que a gente pode debater muito como que pode ser o incentivo público às artes, à cultura. Há muito espaço para debate, o que eu acho que não se deve fazer é achar, de antemão, que os artistas, os escritores, não possam ser beneficiados por esse tipo de ??ajuda??.
Aratu Online: O músico Bob Dylan recebeu, ontem, o Nobel de literatura. Muitos criticaram a escolha da Academia Sueca por afirmarem que o prêmio não cabe a compositores, o que acabou reacendendo o debate sobre a hierarquia da poesia escrita em relação à musicada. O que você acha dessa tentativa de hierarquizar certos tipos de arte em detrimento de outras?
Joselia: Eu fiquei surpresa, mas ao mesmo tempo lembrei que o Bob Dylan tem sido cotado nas bolsas de apostas há algum tempo. O que eu percebo é que a Academia tem, nos últimos anos, feito escolhas ousadas. Tem tentado equilibrar o número de mulheres, por exemplo. Desde a última década, há um número maior de mulheres sendo premiadas. Do ponto de vista dos gêneros literários, ela também tem tentado ousar mais e sair de uma postura conservadora. Ano passado, foi uma jornalista, este ano um compositor popular. Inclusive, um compositor que tem uma formação sobre poesia americano muito forte. O próprio nome Dylan, ele pega emprestado de um poeta chamado Dylan Thomas. Mas eu também lembro o seguinte: Quem ganha o Nobel, quem deixa de ganhar o Nobel, é uma questão que vale mais pra o autor, que ganha um prêmio em dinheiro e sua obra começa a circular mais. Mas a gente não pode só se guiar pelo prêmio, porque grandes escritores não ganharam, então é só mais uma medida de qualidade. Acho que a gente não pode ficar tão preso a isso. Mas posso dizer que o Prêmio Nobel tem acompanha as discussões acerca do que é literatura.
Aratu Online: Que escritor ou músico brasileiro você acha que poderia ser laureado com o Nobel pela produção literária?
Joselia: (Risos) Bom, as pessoas têm falado que, agora, o Chico Buarque pode ser cotado. Eu acho que pode ser. Porque assim, tem que ser um autor vivo, né? Pode ser que o Caetano e o Gil também entrem na onda (Risos). No Rio, o pessoal tem falado o nome de Rosa Magalhães também.
Aratu Online: O que você acha sobre o sucesso de youtubers na literatua? Kéfera, por exemplo, mobilizou multidões na última Bienal de São Paulo e tem dois dos seus livros na lista dos 20 mais vendidos.
Joselia: Eu acho, na verdade, que a gente deveria se preocupar menos com isso e mais com que as pessoas descubram autores importantes e se tornem mais habituadas a lerem. E isso a gente só consegue com um trabalho muito continuo de formação de leitor. Eu acho que reclamar que esse ou aquele fez um livro não foca no que é mais importante, que é fazer com que as pessoas tenham oportunidade de ter uma formação como leitoras. E também, assim, às vezes o livro da Kéfera vai ser o primeiro que a pessoa vai ler na vida, pode ser o primeiro contato de uma pessoa com a literatura. Muita gente reclama que a lista dos mais vendidos está repleta de Best-sellers, e às vezes, essa pessoa que tá lendo o Best seller vai ver o pai lendo tal livro e se interessar por obras mais complexas.
Aratu Online: Qual você considera a grande diferença entre eventos literários como as bienais e as festas literárias, como no caso da Flip, em Paraty, e a Flica, em Cachoeira?
Joselia: Bom, funciona assim, esses autores de entretenimento, podemos dizer, estão presentes nas bienais. Já nas Festas Literárias, geralmente há outro tipo de projeto, que focam muito mais numa leitura que seria mais exigente, que alguns chamam de alta literatura. Cada leitor vai buscar o seu lugar e isso não significa que ele não possa visitar todos eles (risos). Quem vai pra Bienal pode ir pra Flica, pode ir pra Flip. O leitor pode ler muitas coisas diferentes, ter curiosidade de ler coisas populares, gêneros policiais, de ficção científica. Não tem muito um limite, é interessante pensar que esses mundos podem ser visitados sem receio.
Aratu Online: Qual a importância da realização da Flip numa cidade história como Paraty?
Joselia: A flip nasceu como um projeto urbanístico para Paraty, pra fazer com que se trouxessem novas dinâmicas para a cidade. Então, para um lugar com um patrimônio histórico como Paraty, é muito importante um evento que faça com esse centro antigo seja revisitado, frequentado com muito gosto por quem ta lá. Porque Paraty é uma cidade linda, assim como Cachoeira é lindíssima. É uma oportunidade para as pessoas visitarem a essas cidades que, as vezes, precisam tanto desse frescor dessas visitas.
Aratu Online: Para finalizar, você pode adiantar algum nome que vão fazer parte da próxima edição da Festa?
Joselia: (Risos) Eu não posso, não posso nem confirmar que é o Lima Barreto o homenageado (Risos). A gente só vai anunciar o homenageado daqui há duas ou três semanas. Até porque a gente realmente não tem nada confirmada. Tá muito cedinho.
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