FORA DA CURVA: Blog discute “efeitos fantasmas” para jovens vidrados em Rede Social
FORA DA CURVA: Blog discute “efeitos fantasmas” para jovens vidrados em Rede Social
Por Da redação.
Eis aí a geração que super-potencializou o que Narciso, um dia, criou ao se afogar na busca de seu próprio reflexo; ou o que, em 1500, um índio desta nossa terra, não muito proveitosamente, decidiu ser mais sedutor do que seu livre arbítrio. A vaidade exacerbada, embevecida numa autoestima efêmera, tornou os nascidos a partir de 1990 naturalmente atados a um fardo que nós mesmos fizemos inevitável. Imergidos no culto exponencial à imagem, estamos diante de relações humanas cada vez mais ocas, desprovidas dos laços sentimentais que costumavam lhes ser característicos.
Por isso, está se espalhando pela internet um termo adequadamente superficial ? quase infantil ? para esta cultura de desvalorização do sentimento como um todo. ?Ghosting?, que, em tradução livre, significa algo como ?efeito fantasma?, é como passou a se chamar o costume atual cada vez mais constante das relações se desfazerem com o súbito sumiço de um ou de ambos os parceiros.
De acordo com pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), o que antes eram conversas de horas, passam a ser de minutos, depois de reles e poucos caracteres, e aí? O nada. O vazio, o vácuo, o silêncio. Com isto, sensações de abandono, isolamento e autodepreciação são cada vez mais notórias. Esta é a conta, a rebordosa para quem se permitiu estabelecer vínculos afetivos exclusivamente por detrás deste escudo moderno que são nossas telas touchscreen.
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?Todas as cartas de amor são ridículas.
Não fossem ridículas,
Não seriam cartas de amor?
Bem, é provável que o alterego de Fernando Pessoa tivesse de repensar o trecho adaptado de seu famoso Poema em Linha Reta, caso datasse de hoje a criação da obra que eterniza este amor romanesco, inocente, puro? Ridículo?
Ainda que assim pareça, não é mera coincidência que a concepção dos relacionamentos contemporâneos a Pessoa nos soem tão mágicos e distantes, na medida que tiram, dos mais sensíveis, bucólicos suspiros de pesar. Sabemos que já não são mais cartas, e que, muito raramente, chegaremos a tratar de amor.
O conceito, cassado há séculos por poetas, filósofos e músicos de botequim nunca esteve tão próximo de conclusão mais indigna. O amor que, um dia, de tão profundo chegou a ser platônico, hoje de tão razo é mero objeto direto para as vias de fato. Cessou a beleza, cessou a cerimônia, cessaram as cartas; sobrou o nada, o corpo, o sexo e prazer fulgaz, como é seu efeito: vazio, frio, suplicante de um sentido que sentencia, ele próprio, sua extinção.
Já não falamos em amor. Também já não falamos em paixão. Falamos em carência, e a ela damos nomes ao sabor de nossas conveniências.
Seguindo este passo, cresceu em 27% a frequência de jovens solteiros de 20 a 31 anos nas baladas eletrônicas daquela capital paulista, conhecidas na noite por serem instrumento de acesso ao último modus operandi para engatar um romance aqui, no mundo fora dos apps e smartphones ? ferramentas as quais, pouco a pouco, ganharam proporção tal maneira descabida que, muitas delas, já contam até mesmo com manuais de instrução, como os de um jogo.
Assim, tratando o outro como uma infame fase final, vamos adiante de um futuro solitário, no qual nem o mais potente dos fones de ouvido serão capazes de abafar o grito de socorro da realidade. Estamos virando fantasmas, é o que alertam.
Resta, ao menos, que sejamos camaradas.
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