DOIS QUE VIRARAM TRÊS: Relembre ritmos que fundiram para formar um novo movimento
DOIS QUE VIRARAM TRÊS: Relembre ritmos que fundiram para formar um novo movimento
Por Da redação.
A Bahia é uma verdadeira mistura, um caldeirão de ritmos prestes a explodir, onde o coração pulsa com a percussão, um gingado que ?confunde da cabeça aos pés? e arrepia o corpo inteiro. Por este motivo, O Aratu Online faz uma reportagem especial sobre as misturas de ritmos que invadiram o cenário baiano: o samba-reggae, que tem a força da negritude brasileira e que contagia o mundo inteiro com a sua vibração, o arrochanejo, que vem invadindo a Bahia junto com o sertanejo e crescendo a cada dia, e o pagofunk, que criado em Salvador, trouxe muita ostentação e acabou virando um estilo de vida seguido por muitos.
SAMBA-REGGAE
Quem nunca ficou arrepiado ao ouvir sucessos da Banda Olodum como ?Venha me amar?, ?Oh Berimbau!? e ?Requebra?, possivelmente ?é ruim da cabeça?. Conhecida mundialmente , a banda, que tem 37 anos de história, ficou consagrada com o álbum ?Egito Madagascar? junto com a música ?Faraó?, composta por Luciano Gomes, que completará 30 anos em 2017 e também por sua participação no clipe do rei do pop Michael Jackson, e desde então arrasta multidões por onde passa.
Então fomos atrás e procuramos saber mais sobre o ritmo samba-reggae. Conversamos com o Lucas Di Fiori, ex- cantor do Olodum, onde permaneceu por 21 anos. Hoje dono e cantor da banda Soul Tambor, que também reproduz o samba-reggae, Lucas começou sua vida musical na percussão do Olodum mirim, com apenas nove anos de idade. Regido por Neguinho do Samba, Lucas participou do Festival de Música e Artes Olodum ? Femadum ? que acontece no Largo do Pelourinho todos os anos. Já como cantor na Banda Olodum, viajou 25 países, concorreu ao Grammy Latino com a música ?Venha me amar? e gravou diversos CD?s.

Falando do samba-reggae, ritmo criado aqui na Bahia por Maestro Neguinho do Samba, o som nasceu da difusão do samba duro com o reggae e o funk, apresentando dois tambores, pandeiro, atabaque, guitarra ou viola eletrônica e instrumentos da música latina, unindo com o som forte do candomblé. Para Lucas, o samba-reggae foi a ?maior sacada de todos os tempos da música baiana, uma arma letal para o bem, para valorização da cultura negra, porque não é só o ritmo, é tudo que envolve o toque, é mágico, é fundamental, essencial, salva vidas, resgatas pessoas, valoriza. Foi a maior arma do movimento negro afro-brasileiro baiano e quem deu o tiro foi Neguinho do samba?.
O pai do samba-reggae recebeu ajuda de muita gente para a criação do ritmo, entre eles os mestres Valdir Lascada, Prego e Jackson, além de Tonho Matéria, Mestre Memeu o atual mestre do Olodum e número um no samba-reggae atual, os cantores do grupo e os compositores. O ritmo já foi embalado por Margareth Menezes, Banda Mel, Ivete Sangalo e Daniela Mercury. Segundo Lucas o axé ?bebeu muito da fonte do samba-reggae. Eles pegavam as músicas afro e colocavam harmonia de instrumentos e, assim, faziam seus sucessos. Por isso o, axé passou na frente dos blocos afro?.

Lucas Di Fiori
Lucas reclama que a valorização do afro aqui na Bahia vem por último, diferente de outros países. “As pessoas acham que estamos mendigando, pedindo espaço, é assim que o bloco afro sobrevive na Bahia, quase um bumba-meu-boi. Se vacilar vira Saci-Pererê, vai virar folclore, ou seja, uma lenda.? Sobre as misturas existentes, o cantor declara: ?música é sempre bem vinda… Eu acho valida a questão das misturas, só não acho certo perder a nossa essência, a Bahia está deixando de ser Bahia. Ela está começando a falar uma linguagem que não é a dela. Nada contra o sertanejo, mas o sertanejo usa demais do axé, usam instrumentos que são nossos como a bacorinha, timbau, três surdos e tá quase um axé e hoje faz mais festas que o axé. Eles se unem, o que não acontece no axé, uns começaram a derrubar o outro e quando foram ver eles mesmos acabam se matando?.
PAGOFUNK
O que há muito tempo estava sem definição, hoje tem nome: Pagofunk!. Criado por Robson Costa, o Robyssão, ex- cantor do Black Stylle, é uma mistura do pagode com o funk carioca e a ostentação que não pode faltar. O comandante do Bailão do Robyssão diz que percebeu uma mudança no cenário musical, e começou a notar que as pessoas estavam cada vez mais se interessando pela ostentação na música, muito vista inclusive nas letras do funk.

Robson Costa – Robyssão
Robyssão ainda fala de onde tirou a ideia: “Eu tive inspiração de grandes artistas do Rio, como Mr. Catra, Mc Sapão, Mc Doca. Sempre tive grande paixão pelo funk, e do pagode sempre gostei do Harmonia do Samba e Psirico. Aqui na Bahia, tudo era muito ligado à dança, coreografia e mexer o bumbum… Isso virou uma monotomia, então percebi que estava crescendo a ostentação?.
Seus shows, sempre regados a champanhe, corrente de ouro, vestimenta estilo Gangster, batidões e dinheiro pra cima, viraram sucesso para quem gosta de ostentar. O cantor, que está prestes a abandonar sua carreira para se dedicar aos estudos, diz que, em uma visita ao Rio de Janeiro, recebeu uma sugestão de um amigo e, no seu retorno à Bahia, decidiu se empenhar levando o ritmo mais longe.
Falando da sua pausa planejada na carreira, Robyssão conta que já tem um sucessor: é Victor Santos, de 23 anos, cantor da banda Ritmo Zika. ?O Rei do Bailão? é o padrinho do cantor, que é cotado para ocupar o seu lugar no pagofunk. Victor falou sobre como está encarando essa novidade: ?é algo novo pra mim, é uma surpresa. Desde que eu comecei a cantar as pessoas já começavam a comparar a minha voz com a dele?, disse.
ARROCHANEJO
Já faz algum tempo que o sertanejo deixou de ser um estilo regional para se tornar uma grande mistura, que une vários ritmos, como o funk, o pop, o rock e principalmente o arrocha entre outros. Podemos, inclusive, dizer que parte de todo o sucesso que o sertanejo tem hoje no Brasil se deve à sua versatilidade. Com suas sanfonas e violas, o gênero musical sofreu uma espécie de “mutação” ao se unir com os outros estilos, a ponto de confundir toda música tocada nas rádios e sites com música sertaneja.
Criado por Cristiano Araújo, o “arrochanejo” foi a junção do arrocha com o sertanejo. Nascido no município de Goiânia, capital do estado de Goiás, Cristiano Araújo teve um tempo curto na sua carreira. O cantor faleceu em 24 de junho de 2015, em um acidente de carro, junto à namorada. Mas apesar desse fato triste, ele deixou seu legado e o ?arrochanejo? vem trazendo milhares de seguidores e disseminadores desse ritmo.
Para provar isso, conversamos com Danniel Vieira, o ?Gordinho? do sertanejo baiano, e ele fala da mistura. ?Na verdade, hoje está tudo tão misturado, que é difícil definir um estilo. Eu sou música baiana, mas eu canto música pop, arrocha…minhas misturas acabam ficando um arrochanejo, um pagonejo, um funknejo e acaba ficando tudo misturado. Lá fora dizem que sou sertanejo, mas aqui eu me defino como musica baiana.?

Danniel Vieira
E sobre as misturas, ele acha que demorou para que isso acontecesse. ?As pessoas têm que entender que o ritmo não tem dono e foi feito para se misturar. É muito gostoso você tocar arrocha com um percussão bacana e ter um violão que puxa para o pop. Colocamos timbres mais nobres, misturados com uma percussão bacana?. Mesclando um estilo alegre a boas doses de romantismo, o artista é hoje um dos grandes diferenciais na música baiana. Ao longo de seus sete anos de carreira, tem se tornado um dos maiores representantes do sertanejo no Nordeste.
As mulheres estão dominando e chegaram sem cerimônia no mundo do sertanejo, conquistando o seu espaço com letras que falam sobre o universo feminino e mandam respostas e indiretas aos homens. Elas estão fazendo sucesso entre o público que curte o gênero musical. Há vários exemplos como Naiara Azevedo, Maiara e Maraísa, Simone e Simaria e Marília Mendonça. E sobre isso, Danniel declarou: ?demorou para que a mulher ocupasse seu lugar, aparecer com força no sertanejo. Tem que ter mulher, até porque mulher sabe onde dói, e as mulheres cantam mulheres, e isso dá um diferencial?.
*Publicada originalmente às 8h
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