CRÔNICA: O Sete de Setembro foi um acordão com o supremo, com tudo. O Dois de julho é raiz
CRÔNICA: O Sete de Setembro foi um acordão com o supremo, com tudo. O Dois de julho é raiz
Por Da redação.
No dia que O Caboclo e A Cabocla voltam ao Campo Grande, a jornalista Joana Rizério publica seu olhar da festa do 2 de julho.
Boa leitura!
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O que seria do Brasil sem a Bahia? Sei que a resposta pronta nem é resposta, mas outra pergunta: ?O que seria do Brasil sem São Paulo??
Acho que nas duas hipóteses sobreviveríamos, mas nas duas com uma morte lenta e dolorosa. Não porque São Paulo seja a máquina e a Bahia a alegria, mas porque imaginar o Brasil sem um desses maravilhosos lugares é como tentar pensar na vida sem um filho depois que ele já nasceu.
Os festejos de 2 de julho — que no último domingo comemorou o 194º aniversário da expulsão dos sanguessugas portugueses pelos caboclos brasileiros — é uma das datas mais emblemáticas da história da Bahia e do Brasil. Muito mais importante do que o famigerado e paulista grito do Ipiranga, comemorado no dia sete de setembro e dado um ano antes, em 1822.
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E a nossa pauta não era separatista, qual alguns racistas e mal informados sudestinos volta e meia embandeiram. Queríamos ser Brasil. No hino, nos identificamos como brasileiros e não como baianos.
Dois de julho, dois de fevereiro e Lavagem do Bonfim são minhas festas soteropolitanas preferidas. Foi um amigo que me disse, sábado passado, onde seria o point deste desfile de domingo.
Ciente de que o vereador homofóbico do PDT, Pastor Isidório, aproveitaria a data cívica como palanque (ele e tantos outros políticos) e pregaria a sua ?cura gay?, meu amigo, que é homossexual, decidiu confeccionar alguns cartazes.
?Ser curado é ser viado?, escrito com glitter dourado, me convenceu a tomar falta no tradicional e parental Terreiro de Jesus, no Pelourinho, e assistir ao desfile na ala gayzista, entrando e saindo em becos do Campo Grande.
No segundo estado brasileiro que mais mata homossexuais em todo o Brasil (foram 32 assassinados em 2016, enquanto 49 morreram, no mesmo período no topo do ranking, São Paulo, de acordo com informações do Grupo Gay da Bahia), a comunidade LGBT baiana parece ter encontrado nesta efeméride tão plena de signos guerreiros a praça onde fazer com segurança sua festa, seu desfile, seu comício e seu beijaço.
Mais precisamente, e com toda a bênção do Papa Francisco (“Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, disse certa vez o pontífice), em cima das portuguesas pedras da calçada bem defronte à Igreja do Rosário. ?Tinha que rebatizar Largo do Rosário pra Apertadinho do Coloridário?, sentenciou a Bicha Lagartixa, equilibrada numa escada para ver as fanfarras, marinheiros em marcha e ginastas que aparentavam não ter ossos dando piruetas no asfalto interditado de uma das mais importantes vias da cidade, a Avenida Sete de Setembro.
Avenida Sete, como a chamamos, remete à data que ironicamente assaltou a importância nacional do nosso 2 de Julho. Esse foi o dia da independência do Brasil raiz. A independência no Sete de Setembro foi Nutella.
Todo brasileirinho aprende que o Brasil se livrou de Portugal porque Dom Pedro esperneou às margens do Ipiranga, fazendo com que os plácidos invasores dessem meia volta até Portugal na mais perfeita paz.
Ou seja: o rascunho de um acordão, com o supremo, com os bandeirantes, com tudo.
“O Dois de Julho foi muito mais importante do que o Sete de Setembro?, disse o jornalista Laurentino Gomes na semana passada à Rádio Metrópole. Mas por que tucanaram nossa data tão querida? ?Existe uma disputa entre as regiões para ver quem representa melhor o Brasil?, acredita.
?O grito do Ipiranga, o quadro do Pedro Américo, isso tudo contribuiu para que São Paulo fosse colocado como o estado onde aconteceu a independência?, explica Gomes.

Quadro de Pedro Américo retratando a Independência do Brasil
É por isso que até hoje brigamos tanto para que nosso aeroporto volte a se chamar Dois de Julho. É talvez um dos motes de panfleto mais antigos: o batismo golpista que transformou nosso porto aéreo em Luís Eduardo Magalhães vai completar 20 anos no ano que vem, e até hoje é comum ouvir “meu aeroporto é dois de julho”, principalmente quando o piloto anuncia o pouso sobrevoando nossos lindos bambuzais.
Bula com o último camarão da nossa moqueca, mas não bula com o Dois de Julho dos baianos.
A parada do Dois de Julho comemora, principalmente, a união de caboclos a trabalhadores do campo, alfaiates, bacharéis, mulheres e negros escravizados e libertos. Pessoas distintas em busca de um mesmo objetivo: libertar o Brasil da Coroa Portuguesa.
A famosa Batalha de Pirajá é um dos maiores exemplos de demonstração de força popular que o Brasil já teve. Qualquer semelhança com a nossa atual conjuntura política não é mera coincidência. Nos inspiremos, rapaziada guerreira.
?Tem muita criança?, espantou-se um amigo que nunca tinha ido à festa, que tradicionalmente abriga todo tipo de público, protesto e sigla. Dois de julho, dia democrático, combina tanto com a bandeira gay quanto com algodão doce e pipoca. Tem lugar pra todo mundo.
Eram 3 da tarde quando chegamos ao Campo Grande. Sob o sol frio de inverno, as pessoas foram se apertando para pedir perdão e benzer de lágrimas o caboclo e a cabocla, símbolos da luta, e os empurraram até o meio da praça.
Será que ao nos ver perdendo direitos trabalhistas, sem aposentadoria, sem o direito de ir e vir (seja no transporte metropolitano embargado pelo prefeito ACM Nero, seja pelo sinistro bloqueio na emissão de passaportes ordenada pelo impostor Temer); ao ver que dispomos de uma justiça conivente com roubo, narcotráfico e assassinato, chorariam por nós os caboclos?
Não sei o que eu fiz de errado, mas depois que o cortejo chegou ao largo do Campo Grande acabei dando por mim dentro do cercadinho do cortejo, onde os policiais, os políticos e as filarmônicas ficam separadas da gentalha. Vi ACM Neto mancando ao subir um lance de escadas.
– Tá contundido – disse um policial militar que estava a meu lado.
– Oxe, e é atleta pra estar contundido? – perguntei.
– Tropeçou numa pedra no meio do cortejo.
?Tá devendo, pague?, pensei. O anjo republicano do poeta Drummond operou certeiramente. Rui Costa, governador do estado, não perdeu a chance de fazer uma piada. ?Isso é que dá não saber jogar bola?, mandou o petista para o democrata.
O Dois de Julho não só foi mais importante como foi mais interessante. Tem todos os aspectos de um roteiro mirabolante: dramas épicos, batalhas sangrentas e golpes inacreditáveis de sorte, como do Corneteiro Lopes que soprou errado o toque de recolher e mandou as tropas avançarem.
Tudo protagonizado em papéis trasbordando de personalidade: Maria Quitéria, que foi lutar disfarçada de homem; Joana Angélica, mártir que morreu depois de gritar ?só se for por cima do meu cadáver? entre outras histórias fantásticas.
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Aos 29 anos, sentindo a forte presença mística deste dia em cada metal das mais de cem filarmônicas, em cada cidadão que desabou a chorar sobre os pés dos nossos valentes antepassados; neste domingo, depois de finalizar meu feriado com um clássico sanduíche de pernil no Líder, descobri finalmente com que etnia eu me identifico. Eu sou caboclinha, com o perdão da emenda à linda música de Caetano. E viva o Dois de Julho!
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