Blogueiro dá razões pelas quais Carnaval de 2016 foi o melhor dos últimos anos
Blogueiro dá razões pelas quais Carnaval de 2016 foi o melhor dos últimos anos
Por Da redação.
Do blog Soteropobretano, parceiro do Aratu Online
Eu sou folião do Carnaval de Salvador desde os 2 anos de idade. No início da década de 90, minha mãe teve a ideia maluca de costurar uma mortalha pra mim, se meter comigo dentro de um ônibus e me levar para o Campo Grande ? e por causa disso, é a principal responsável por todo o amor que eu tenho por essa festa.
E quando eu digo ?amor?, é porque o sentimento é esse mesmo. Eu passo o ano inteiro sem ir pra um único show (por preguiça, falta de dinheiro ou porque não faço questão), mas não consigo abrir mão de meu Carnaval. Para completar, não bebo cerveja e só vou pro circuito de casal ? o que já eliminaria a fórmula ?álcool + pegação? que atrai tanta gente. E quando chega o primeiro trio elétrico, a emoção é indescritível: a batida do coração entrando no ritmo da percussão; a multidão em volta cantando todas as músicas sem errar a letra (quer dizer, aí depende); e aquele artista que você tanto gosta se apresentando e mandando beijo pra você.
Um amigo meu, que nunca tinha saído no Carnaval, costumava dizer que não fazia a menor questão de ir pra rua porque o trio elétrico seria só um palco ambulante. A muito custo, conseguimos arrastar o cidadão para um dia na Avenida ? e obviamente, ele queimou a língua. Eu mesmo, com mais 20 anos de Carnaval, ainda me surpreendo com toda aquela energia e, com uma curiosidade quase infantil, fico me perguntando como é que pode aquela rua, que até outro dia só passava carro, de repente se encher com milhões de pessoas pulando atrás de um caminhão com uma banda no topo. É uma cena tão comum à nossa realidade que nós sequer pensamos o quanto ela também pode ser inacreditável.
No Carnaval desse ano, a caminho da Barra, cruzei com inúmeros turistas desnorteados à procura dos seus blocos/camarotes e tentando entender a lógica da festa em meio ao caos. Milhares de pessoas de todos os lugares do Brasil que provavelmente parcelaram a viagem em até 10x, sonharam com aquele momento por meses, pegaram um avião até Salvador, gastaram um dinheirão para estarem aqui, e eu ali, chegando de carona com meus sogros e sem gastar um tostão. Como não sentir uma pontada de orgulho pelo que nós fazemos?
Sim, orgulho. Com todo o respeito que tenho aos carnavais de Recife, Olinda e Rio de Janeiro, pra mim, nada se compara ao Carnaval de Salvador. Primeiro, porque só um motivo muito justo ? uma Ivete, um Saulo, um Tomate, uma Timbalada, uma Banda Eva, uma Margareth ou um Luiz Caldas ? pra me fazer sair do conforto de minha casa para enfrentar toda a saga homérica de ir para o Carnaval. E segundo, e eu posso estar enganado, porque tenho a sensação que ninguém pula, dança e se diverte como a gente ? e não há nada como estar dividindo uma pipoca (ou um bloco) com dezenas de milhares de pessoas tão animadas quanto você.
Sabe aquela história de que a felicidade só é verdadeira quando é compartilhada? É tipo isso.
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No ano seguinte ao aniversário de 30 anos da Axé Music, quando tanto se discutiu sobre a suposta crise do gênero musical que já foi o mais lucrativo do País, tivemos, na minha opinião, um dos melhores carnavais dos últimos anos. Velhos problemas ainda persistem, novidades foram acrescentadas, e de um modo geral, ouvi as melhores avaliações de todos com quem conversei.
1) Menos cordas, mais pipoca
Discussões à parte sobre política e cachês quase milionários, esse foi o ano dos trios sem cordas, patrocinados pelo Governo do Estado, Prefeitura e iniciativa privada. E isso foi maravilhoso.
Blocos sem corda sempre existiram ? no passado mais recente, vinham sendos chamados de ?trios independentes? ? mas parece que só esse ano as pessoas finalmente acordaram e perceberam que ninguém precisa pagar uma fortuna em abadás para curtir o Carnaval de Salvador. A pipoca, com toda a autenticidade e espontaneidade típicas de uma aglomeração de baianos, garante a mesma animação, o mesmo fôlego e o mesmo calor humano ? e ainda é de graça. Pra que melhor?
Ainda que se comente que os blocos de corda vão desaparecer no futuro, acredito no caminho do equilíbrio: assim como os camarotes e suas festas fechadas possuem seu público, os blocos devem continuar desfilando, porém com uma nova roupagem ? o tempo dos abadás de R$1.000, por exemplo, dificilmente deve voltar a dar as caras.
2) Abertura do Carnaval na Praça Municipal
Bastante simbólica a transferência da abertura da festa para a Praça Municipal ? politicamente, por ser uma das praças mais importantes da cidade, e historicamente, por ter sido o local de fundação de Salvador. Além disso, antecipar o evento para a quarta ? dia já consolidado pelo Circuito Sérgio Bezerra ? no lugar da tradicional quinta-feira ? que já tem programação no Campo Grande ? conferiu maior destaque à festa de abertura, que seguiu em cortejo desde a Praça Castro Alves em direção ao Terreiro de Jesus.
3) Carnaval do Pelô
Com o tema ?Bahia: Terra Mãe do Samba?, o Pelourinho foi um dos grandes destaques da festa desse ano. Com palcos fixos, bloquinhos e microtrios, o Centro Histórico recebeu shows de ninguém menos do que Paulinho da Viola, Nelson Rufino, Roberto Mendes, Gerônimo, Lazzo Matumbi, Bailinho de Quinta, Baiana System e mais de 200 outras atrações.
Para uma cidade que costuma ser associada a um modelo de Carnaval de rua que supostamente estaria ultrapassado ? o de Olinda é sempre utilizado como parâmetro de ?folia realmente democrática?, é fundamental que voltemos os olhos também para a festa realizada todos os anos nos largos e ladeiras do Pelourinho. Mais uma prova de que Salvador tem potencial para agradar as mais diversas preferências carnavalescas.
Obs.: e isso para não mencionar o Carnaval em bairros como o Nordeste de Amaralina, Periperi, Plataforma, Cajazeiras, Liberdade, Boca do Rio, Pau da Lima, Jardim de Alah e Itapuã!
4) Menos violência
Foi unanimidade entre todos com quem eu conversei: a sensação de segurança nesse Carnaval foi bem maior do que nos anos anteriores.
Ainda existem brigas, furtos e outras ocorrências (até mesmo homicídios), porém o resultado final foi positivo para a maioria dos foliões, confirmando a tese de que menos cordas nos blocos trariam a diminuição da violência na festa.
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No quesito técnico, ninguém faz um Carnaval como a gente. Entretanto, ainda temos muito o que aprender para os próximos anos. É inacreditável, por exemplo que mesmo com tantas campanhas contra o assédio sexual, ainda ocorram casos de violência contra a mulher. Do mesmo modo, se já é inconcebível, nos dias de hoje, que alguém se diga ?ofendido? com beijos entre pessoas do mesmo sexo, no Carnaval isso teria ainda menos cabimento.
Quanto à mobilidade, como é de se esperar de um evento ao ar livre que atrai pelo menos 1 milhão de pessoas, voltar pra casa continua sendo um pesadelo pra muita gente. Sugestões para solucionar esse problema não faltam ? cada um quer dar o seu pitaco ? e inevitavelmente terminam no velho questionamento: ?Será que já não chegou a hora de criar um novo circuito??.
Uma reclamação constante vem do time dos que não gostam de Carnaval e que deram o azar de nascer/morar em Salvador. De fato, se a pessoa não tiver dinheiro pra se picar daqui, só sobra ir à praia ou ao cinema. Se não tiver dinheiro pro cinema, só sobra a praia. E se não gostar de praia, tem que sentar, chorar, botar a mão na cabeça e esperar passar os 8 dias de festa (e depois marcar um psicólogo, né gente porque não gostar nem de uma prainha, plmrdedeus).
Por fim, a grande polêmica foi a tal exclusividade de marca de bebida. Teve protesto, teve vaia, teve truculência, teve caganeira, teve dor de cabeça e, como era de se esperar, teve o ?jeitinho brasileiro?: apesar da ação dos fiscais, não foi possível coibir a venda de outras marcas de cerveja no circuito. Se as informaçõs oficiais estiverem corretas, o importante é que o dinheiro entrou ? segundo consta, a cervejaria pagou R$25 milhões em patrocínio em troca da exclusividade. Pode até ter sido um tiro no pé da própria marca ? que ganhou de brinde uma enorme publicidade negativa nas redes sociais -, mas também pode abrir as portas para que outras marcas, com maior popularidade e aceitação do público, decidam investir no Carnaval de Salvador.
*Foto em destaque: Secretaria de Turismo / Governo da Bahia.
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![[Foto: Pipoca de Saulo, Carnaval 2015 / Autor: Max Haack]](http://www.aratuonline.com.br/guiadosoteropobretano/wp-content/uploads/sites/24/2016/02/Pipoca-de-Saulo-Max-Haack-1024x683.jpeg)
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