Filmes e séries

Nem um elenco de peso salva as incongruências de Mulheres Imperfeitas

Enoe Lopes Pontes
Colunista On: Enoe Lopes PontesPesquisadora, jornalista e crítica de cinema e séries
Mulheres imperfeitas

O que sustenta uma narrativa seriada, fazendo com que seu público chegue até o fim? Um elenco, uma premissa de base forte, uma direção que consegue potencializar e retirar as falhas do roteiro? A verdade é que se um desses elementos estiver na lista, ou todos eles juntos (preferivelmente), as chances de se obter um resultado positivo são altas.

Mulheres imperfeitas conta somente com o fato de que o trio central é extremamente talentoso e por isso boa parte do público pode acabar ficando até o último. Porque por mais que as direções dos episódios tentem ser inventivas, a trama é previsível e o seu encaminhamento é ainda pior.

É difícil de dizer se o problema é o roteiro de Annie Weisman ou o livro homônimo de Araminta Hall, porque essa que vos escreve somente assistiu ao seriado. No entanto, é lamentável quando uma produção de mistério e assassinato entrega, sem intenção, tão facilmente o vilão, logo no início.

Todavia, ainda que o assassino de Nancy (Kate Mara) fique óbvio, principalmente se quem estiver acompanhando a produção for uma mulher,  as três atrizes principais do seriado aliviam as precariedades do roteiro. A começar por Kerry Washington.

É verdadeiramente impressionante acompanhar como a intérprete transforma um texto óbvio e expositivo em algo orgânico. Essa característica está presente no trio, mas Kerry é a personagem que possui mais frases mal escritas. Por isso, esse fator se destaca. Um exemplo são as sequências nas quais ela depõe na delegacia.

Washington segura os movimentos corporais e faciais, bem como suaviza a voz. Esta estratégia faz com que as falas pareçam mais sutis do que realmente são. Kate Mara vai para o oposto, porém a artista consegue também elevar a qualidade de suas cenas.

Através de momentos específicos de rompante de sua Nancy, certa complexidade é criada. Já Moss se vale de uma atuação bem naturalista. A forma como Elizabeth profere palavras absurdas em um tom cotidiank revela a dimensão da pluralidade de emoções presentes em sua Mary. 

Neste sentido, apenas este trio pode segurar o espectador até o final da temporada. Porque com caminhos óbvios, a direção se esforça para colocar inventividade na decupagem e o elenco tenta suavizar essa previsibilidade da obra. Assim, Mulheres Imperfeitas não é recomendada, no geral, a não ser para o fandom das atrizes principais.

 

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Enoe Lopes Pontes

Enoe Lopes Pontes

Doutora e mestre em Comunicação, formada em Artes Cênicas e em Comunicação Social, Enoe Lopes Pontes é pesquisadora, jornalista e crítica de cinema e séries. É membro da ABRACCINE e do Coletivo Elviras. Cinéfila desde os 6 anos, sempre procurou estar atenta a todo tipo de produção, independentemente do gênero, classificação ou fama. Do culto ao pipoca, busca observar as projeções com cuidado e sensibilidade. Filmes preferidos: Hiroshima Mon Amour e Possession.

Enoe integra a equipe do Coisas de Cinéfilo , como crítica.

Instagram: @enoelp

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