Quando você usa uma palavra, tem uma atitude ou profere um gesto com o poder de atingir a dignidade ou a honra de alguém isso se caracteriza como um insulto que se traduz como uma falta de respeito, algo desqualificador, desprezo pelo outro (a) ou por suas crenças. E muitas vezes um insulto gera outros insultos e consequências negativas e violentas. Essa é a temática que será discutida na segunda edição do “CINEPAPO – Inquietações Contemporâneas” após a exibição do filme libanês “O Insulto”, de Ziad Doueiri, com mediação de Marcelo Sá (sócio da Saladearte) e bate-papo com o psicanalista Marcelo Veras.

O projeto conta ao todo com 10 dez sessões gratuitas de filmes (sempre numa quinta-feira do mês – outubro de 2019 à agosto de 2020) e  após a exibição acontecerão conversas com os espectadores a partir de situações atuais. O acesso será realizado com a retirada de senha, a partir das 14h, na bilheteria do cinema - Cine Daten/Paseo, no dia de cada evento. O CINEPAPO é realizado pelo Circuito Saladearte, produção da Giro Planejamento Cultural, com o patrocínio do CentroSul e Governo do Estado, através do Fazcultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. 

De acordo com Marcelo Sá, a curadoria dos filmes e das temáticas é discutida previamente com os convidados, ressaltando temas como as questões de segregação, amor, arte e melancolia, escolhidos para compor o conjunto de questões contemporâneas que perpassam as obras –  como o libanês “O Insulto”, “Magia ao Luar”, “The Square” e o “Melancolia”.  “A ideia é fazer uma bate-papo com uma diversidade de público para tratar de assuntos relevantes presentes na sociedade e que precisam gerar mais empatia nos dias de hoje”, acrescenta Sá.

O INSULTO

O insulto, de Ziad Doueiri, traz a anatomia do mal entendido em suas incidências tanto no plano da vida privada quanto na pública. É possível ver claramente como os afetos e a necessidade de reconhecimento do outro passam por condições que nos antecedem e nos atravessam. Até que ponto somos livres quando nos sentimos insultados ou insultamos alguém? Questões que passam pela tradição são completamente subvertidas quando nos despimos do olhar de nossos ancestrais e percebemos o vizinho como ele é... um outro ser dividido igualmente entre a cultura e sua liberdade.

A película permite um exercício de reflexão sobre os reais motivos implícitos no ato de insultar perpassando pelas questões pessoais ao contexto cultural – o que está por trás da agressão verbal – nem sempre é apenas aquilo que foi dito, mas acaba trazendo na bagagem diferenças de valores morais que afetam diretamente o comportamento desses personagens: Toni é um cristão libanês que rotineiramente rega as plantas de sua varanda. Certo dia, acidentalmente, ele acaba molhando Yasser, um refugiado palestino, iniciando um desacordo que evolui para julgamento e toma dimensão nacional.

Nesse encontro, na verdade, já revela o desencontro entre os dois personagens que representam os lados opostos de uma guerra religiosa que, mesmo tendo tido seu fim, em 1990, ainda traz resquícios fortes no comportamento dos habitantes da Líbia. Portanto o que para um sugere como uma reação ao comportamento agressivo e mal-educado para o outro é também uma reação à toda uma realidade política/histórica e diferentes confrontos milenares vividos por esses povos. A ação do insulto, em si, só ressalta a intolerância de aceitar o contexto e de modificar esse mesmo contexto.   

Segundo Marcelo Veras, a intolerância é estrutural e independente do assunto em questão. “Ela é algo constitutivo do ser humano, antes mesmo de ser um elemento cultural”. Para o psicanalista “o filme mostra a banalidade que pode levar a intolerância e como essa banalidade pode crescer como algo fora do sentido, por estar presente na gênese de toda a guerra e escapa às supostas razões que levam as pessoas entrarem em guerra”. Veras pontua que “se tudo acaba virando caso de polícia e justiça, é consequência do quão difícil encontra-se a arte da conversação, do entendimento e do acordo”. 

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